Veterinário alerta que hábito de roer papel, tecido e outros materiais pode indicar estresse, compulsão ou até problemas gastrointestinais
O hábito aparentemente curioso de gatos mastigarem plástico, papel ou outros materiais pode ser, na verdade, um sinal de alerta. Segundo o médico-veterinário Cláudio Yudi, responsável pelo setor de Animais Silvestres do Hospital Veterinário da Uniube, esse comportamento pode estar ligado à ansiedade, ao estresse e até a problemas de saúde mais graves.
De acordo com o especialista, a ingestão de substâncias não nutritivas, como plásticos, tecidos, papelão e até plantas, tem causas variadas e nem sempre é apenas comportamental. “Gatos mantidos em ambientes monótonos, sem estímulos, podem redirecionar o comportamento predatório natural para objetos inadequados”, explica.
Ele destaca ainda que fatores como desmame precoce também podem influenciar. “Animais desmamados antes do tempo ideal podem desenvolver comportamentos de sucção e mastigação, que evoluem para a ingestão de outros materiais ao longo da vida”, afirma.
Além disso, características sensoriais ajudam a explicar o comportamento. Texturas e sons, como os de sacolas plásticas, podem simular a sensação de manipular uma presa, tornando o hábito ainda mais atrativo para os felinos. Em alguns casos, a prática pode evoluir para um transtorno compulsivo, funcionando como forma de aliviar tensão em animais cronicamente estressados.
Apesar da forte relação com a ansiedade, o veterinário alerta que o problema não deve ser tratado apenas como emocional. “É fundamental investigar causas orgânicas antes de fechar um diagnóstico comportamental”, ressalta.
Distúrbios gastrointestinais, como inflamações intestinais, estão frequentemente associados ao comportamento. Outras possíveis causas incluem deficiências nutricionais, hipertireoidismo, distúrbios neurológicos, anemia e infecções parasitárias. Os riscos à saúde são significativos. A ingestão de materiais pode causar obstrução do trato gastrointestinal, com bloqueios no estômago ou intestino. Em casos mais graves, há risco de perfuração intestinal e inflamação abdominal, situações que podem exigir cirurgia de emergência.
Para reduzir a ansiedade e evitar esse tipo de comportamento, o especialista recomenda mudanças na rotina. “A previsibilidade é fundamental. Estabelecer horários para alimentação, brincadeiras e descanso ajuda a reduzir o estresse”, orienta.
O enriquecimento ambiental também é essencial. Brinquedos interativos, comedouros inteligentes e atividades que estimulem o instinto de caça ajudam a manter o animal mentalmente ativo. No caso dos gatos, a instalação de prateleiras, arranhadores e espaços verticais contribui para o bem-estar.
Outro ponto importante é a qualidade da interação com o tutor. O ideal é investir em momentos de brincadeira e estímulo, sem reforçar dependência excessiva. “Contato constante e sem limites pode aumentar a hipervinculação e agravar a ansiedade”, explica.
A recomendação é procurar ajuda profissional sempre que o comportamento se tornar frequente ou compulsivo. “Casos de ingestão de objetos, automutilação ou sinais intensos de ansiedade exigem avaliação veterinária e acompanhamento comportamental”, afirma.
Segundo Yudi o tratamento deve ser multidisciplinar. “O médico-veterinário vai descartar causas clínicas, enquanto o adestrador comportamental atua na modificação do comportamento. Em alguns casos, pode ser necessário o uso de medicação”, conclui.