O mercado de canetas emagrecedoras tem potencial para faturar R$ 20 bilhões no Brasil em 2026 e impacta não só o peso na balança, mas o comportamento de consumo dos usuários. Com o uso massivo no país, produtos como Mounjaro e Ozempic aumentam, em primeiro lugar, o faturamento de farmácias, e seus efeitos chegam também a academias, restaurantes e lojas de roupa, que se adaptam – e faturam – com o desejo de emagrecimento.
O faturamento com a venda de canetas previsto para 2026 é quase o dobro do apurado no ano anterior, segundo estimativa do banco de investimentos UBS BB. A alta decorre do aumento da adesão aos medicamentos e também da perspectiva da quebra de patente da semaglutida, base do Ozempic e do Wegovy, que entrou em vigor em 20 de março, o que pode inundar o mercado com versões genéricas. Já o princípio ativo do Mounjaro, caneta mais cara, é o tirzepatida, cuja quebra de patente também é demandada por um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional.
As farmácias não serão as únicas a viver as repercussões dessa virada. Até o cardápio de restaurantes pode ser modificado com a expansão da aplicação das canetas, avalia o representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) José Eduardo Camargo. Hoje, há exemplos pontuais de restaurantes que oferecem versões reduzidas de pratos para clientes que utilizam os medicamentos, que reduzem o apetite. Com a popularização das canetas, a moda pode se espalhar, projeta Camargo.
“Com o barateamento, a tendência é essa. Várias coisas andarão em paralelo, incluindo opções que nem vemos ainda. Pode haver, por exemplo, troca do prato principal por duas entradas menores. No exterior, já se fala muito em investir em pratos e porções para compartilhar”, diz o porta-voz. “Os bares também estão se adaptando, porque outra tendência de quem usa Ozempic é beber menos. Os estabelecimentos estão criando drinks sem álcool e temos um aumento do consumo da cerveja sem álcool”. Agora, a Abrasel desenha uma pesquisa, que será conduzida a partir deste mês, para mensurar a repercussão das canetas nos negócios.
No interior de Minas, a rede de comida japonesa Sushi Me passou a oferecer combos menores de sushi, com oito ou 12 peças, em vez das habituais encomendas de no mínimo 20. Nas redes sociais, ela direcionou a propaganda a usuários de Mounjaro, conta o administrador da rede, Davi Maffia.
“A demanda por quantidade vinha diminuindo. Não era por causa do preço, porque o combinado com 12 pode custar o mesmo preço do de 20, porque são peças diferentes. A queda estava sendo geral”, pontua ele. Maffia pondera que não é possível estabelecer uma relação direta entre o maior uso das canetas e os pedidos por menos peças, mas garante que a estratégia de redução das porções tem dado resultado.
Usuária de Mounjaro há cerca de oito meses, a engenheira Jéssica Brandão, de 36 anos, atesta que o uso da caneta reduz a fome. Após emagrecer 14 quilos, seus gastos mudaram e, hoje, ela investe em comidas naturais no sacolão e suplementos, além dos R$ 1.000 mensais com a caneta. “Quando conseguimos ver o progresso, a cabeça muda. Antes, eu comia mais fast food e agora faço minhas marmitas”, conta. O próximo passo, diz ela, será uma mudança de guarda-roupa quando seu peso estiver estável.
O setor de vestuário prepara-se para receber mais clientes como ela. “Estamos vendo uma transformação no próprio comportamento de consumo, que reverbera no setor da moda. Estudos recentes mostram que, à medida que pessoas mudam seu corpo e sua relação com a imagem corporal, também alteram seus hábitos de compra, por exemplo, com um aumento na frequência de compras de roupas e na busca por peças diferentes de guarda-roupa, renovando demandas por estilos, tamanhos e categorias”, introduz o diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX).
A mudança ainda não é tão grande a ponto de reverter a lógica de estoques e aumentar a demanda por tamanhos menores de forma generalizada, diz o consultor e diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, Marcelo Prado. Já uma transformação evidente é o boom da moda fitness. Em aceleração desde os anos 2000, hoje ela entra em uma nova fase, capitaneada pelo aumento das matrículas em academias, avalia o especialista.“Isso muda muito o perfil das roupas esportivas, que antes eram focadas em esportes populares, como futebol, e agora focam em crossfit, por exemplo. As canetas criam uma segunda onda, são mais um impulso para essa transformação continuar”, detalha.
Da gôndola ao bisturi, mercado se adapta às canetas emagrecedoras
Outro mercado que absorve as mudanças é o supermercadista. O CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, afirma que a rede se reorganizou para atender às novas demandas de consumo, que não foram causadas somente pelas canetas, porém foram fortalecidas por elas.
“A partir do momento em que a saciedade aumenta, é possível ver o reflexo no prato: menos quantidade de alimentos e mais procura por itens saudáveis e proteicos (já que a maioria desses medicamentos causa perda de massa magra). E isso impacta diretamente o que vendemos nas lojas. No Assaí Atacadista, isso se traduz na evolução constante que fazemos em lojas – há dois anos implantamos açougues, acompanhando também o aumento do consumo de proteínas”, diz o executivo, em uma publicação em seu perfil no LinkedIn.
A mudança de hábitos alimentares gira, ainda, o caixa dos consultórios de nutricionistas. “Observo um aumento na procura. Além da mudança do padrão alimentar, os pacientes estão tentando não perder tanta massa muscular e ter continuidade da perda de peso posterior às canetas”, apresenta a conselheira do Conselho Federal de Nutrição Juliana Pizzol.
A alteração pode ser benéfica caso inclua mais alimentos saudáveis na dieta. Sem atenção, contudo, pode ser prejudicial, elabora a nutricionista. “A pessoa sente menos desejo de comer, então, no fim do dia, pode estar com déficit de nutrientes. As proteínas dão muita saciedade, então a pessoa pode acabar reduzindo a ingestão de vitaminas e minerais”, diz. Outra preocupação é com a diminuição da ingestão de água, que pode levar a quadros de desidratação e constipação, alerta ela.
Quem alcança a redução de peso desejada pode ter que lidar, depois disso, com mais desdobramentos no corpo, e com isso ganham os cirurgiões plásticos. “Tem aumentado a demanda por cirurgias de contorno corporal após emagrecimento rápido. Também cresce a demanda por lifting de face em idades mais jovens, de pessoas de 40 anos, devido à perda de estrutura facial, de uma face envelhecida mais cedo”, descreve a médica Marina Junqueira, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Em outros casos, pacientes que antes não poderiam realizar alguns procedimentos plásticos devido ao risco aumentado pela obesidade retornam aos consultórios após o emagrecimento, prossegue ela. Além das cirurgias diretamente associadas à rápida perda de peso, como retirada do excesso de pele, a transformação estimula pacientes a realizar outras operações. “A pessoa anima fazer o nariz ou uma plástica íntima, porque fica mais confiante e perde receio da anestesia e do pós-operatório”, arremata a médica.
Fonte: O Tempo