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Gelo da Antártida está diminuindo e pode afetar o litoral brasileiro; entenda o que muda

Estudo aponta que continente deve perder mais gelo do que ganhar até 2100 e alerta para impactos no nível do mar

Publicado em 06/10/2026 às 11:12
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A Antártida deve perder mais gelo do que ganhar ao longo deste século, mesmo em um cenário em que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C. A conclusão é de um novo estudo publicado na revista Nature Geoscience, que analisou centenas de milhares de possíveis cenários para o futuro do continente.

A perda de gelo preocupa porque pode contribuir para a elevação do nível dos oceanos e aumentar a vulnerabilidade de regiões costeiras. Em um cenário de emissões muito altas, o estudo estima que a Antártida poderia contribuir com até 25 centímetros para a elevação do nível do mar até 2100.

O número não significa que o litoral brasileiro ficará submerso nas próximas décadas. A elevação ocorre de forma gradual, mas pode aumentar a exposição de cidades costeiras a inundações, erosão e ressacas.

Por que a Antártida está perdendo gelo?

O processo está relacionado ao aquecimento do planeta. O aumento das temperaturas aquece o ar e também os oceanos ao redor da Antártida.

A água mais quente pode enfraquecer as plataformas de gelo que ficam nas bordas do continente. Essas estruturas funcionam como uma espécie de barreira, ajudando a conter o deslocamento das geleiras.

Quando as plataformas ficam mais finas ou se rompem, o gelo que está sobre o continente pode avançar mais rapidamente em direção ao oceano.

Por isso, a perda de massa da Antártida não acontece apenas pelo derretimento do gelo na superfície. O deslocamento acelerado das geleiras para o oceano também contribui para a elevação do nível do mar.

Mais neve não será suficiente

O aquecimento do planeta também pode aumentar a quantidade de neve em algumas regiões da Antártida.

Isso acontece porque o ar mais quente consegue armazenar mais umidade, favorecendo a precipitação. Em alguns cenários, essa neve adicional pode compensar parte da perda de gelo.

O problema é que, segundo o estudo, esse aumento não será suficiente para impedir que a Antártida perca mais gelo do que ganha até 2100.

O que os pesquisadores descobriram?

Os pesquisadores utilizaram um modelo de aprendizado de máquina treinado com simulações produzidas pelo Projeto de Intercomparação de Modelos de Camadas de Gelo, conhecido como ISMIP6.

A tecnologia permitiu analisar centenas de milhares de possíveis cenários para a evolução do gelo antártico.

Os resultados também foram comparados com observações feitas por satélites desde 2002. Os cenários que mais se aproximaram dos dados observados apontaram para uma tendência de perda de gelo ao longo deste século.

Mesmo no cenário em que o aquecimento global é limitado a 1,5°C, a Antártida deve continuar perdendo mais gelo do que ganha.

Quanto o nível do mar pode subir?

Em um cenário de emissões muito altas, a contribuição da Antártida para a elevação do nível do mar pode chegar a 25 centímetros até 2100.

Apesar de parecer uma variação pequena, alguns centímetros fazem diferença para regiões próximas ao nível do mar.

A elevação do oceano se soma a outros fatores, como marés altas, ressacas e tempestades. Com isso, áreas que atualmente conseguem suportar determinados eventos podem ficar mais vulneráveis a alagamentos e erosão.

O estudo estima que uma contribuição de 25 centímetros apenas da Antártida poderia deixar permanentemente inundadas áreas onde vivem mais de 10 milhões de pessoas.

O que isso muda para o Brasil?

O Brasil possui milhares de quilômetros de litoral e diversas cidades construídas em áreas baixas.

Entre as regiões potencialmente mais expostas estão áreas costeiras de cidades como Rio de Janeiro, Santos e Recife, além de diferentes municípios do Nordeste.

Isso não significa que essas cidades serão submersas por causa da perda de gelo da Antártida.

O principal impacto seria o aumento gradual da vulnerabilidade. Com o nível do mar mais alto, ressacas podem avançar mais sobre as áreas urbanas, a erosão pode se intensificar e alagamentos podem se tornar mais frequentes ou atingir áreas maiores.

O problema vai além do nível do mar

A redução do gelo também pode provocar mudanças no próprio sistema climático.

O gelo funciona como uma espécie de espelho, refletindo parte da radiação solar de volta para o espaço. Quando há menos gelo, uma área maior do oceano escuro fica exposta e absorve mais calor.

Esse processo, conhecido como efeito albedo, pode contribuir para o aquecimento.

Além disso, a entrada de grandes volumes de água doce no oceano pode alterar a salinidade e a circulação das águas, influenciando a distribuição de calor e nutrientes pelos oceanos.

Animais também são afetados

A perda de gelo ameaça espécies que dependem diretamente do ambiente antártico.

Os pinguins-imperadores, por exemplo, utilizam o gelo marinho para reprodução. Quando o gelo desaparece antes do período adequado, filhotes podem morrer antes de desenvolver condições para sobreviver.

Outro ponto de preocupação é o krill, pequeno crustáceo que ocupa uma posição importante na cadeia alimentar do Oceano Austral.

O animal serve de alimento para peixes, focas, baleias e outras espécies. Mudanças na quantidade de gelo, nos nutrientes e na produtividade do oceano podem provocar efeitos em cadeia em todo o ecossistema.

E a geleira Thwaites?

Entre as áreas que mais preocupam os cientistas está a Antártida Ocidental, onde ficam geleiras como Thwaites e Pine Island.

A Thwaites ganhou o apelido de “geleira do Juízo Final” por causa de seu tamanho e do potencial impacto de seu recuo sobre o nível do mar.

O apelido, porém, não significa que a geleira vá desaparecer de repente ou que o planeta ficará submerso nos próximos anos.

A preocupação científica está na possibilidade de algumas mudanças desencadearem um processo de recuo acelerado e difícil de interromper, que poderia continuar durante séculos.

Ainda há tempo para reduzir os impactos

O estudo não indica que todos os impactos futuros estejam definidos.

A quantidade de gelo perdida pela Antártida depende, entre outros fatores, da evolução das emissões de gases de efeito estufa. Quanto menores forem as emissões, menor tende a ser o aquecimento do ar e dos oceanos ao redor do continente.

Isso pode reduzir a velocidade da perda de gelo e limitar a elevação futura do nível do mar.

Os 25 centímetros até 2100 não devem ser tratados como uma previsão exata, mas como um possível resultado dentro de um cenário de emissões muito altas.

O principal alerta é que a Antártida já apresenta uma tendência de perda de gelo e que as decisões tomadas nas próximas décadas podem influenciar o tamanho dessa perda e os impactos sobre o nível dos oceanos por centenas de anos.

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