Principal vítima dos traficantes é o papagaio-verdadeiro. Brasil é o país com o maior número de espécies de pistacídeos do mundo
O atual período de reprodução de aves como papagaios, araras e periquitos acende um alerta para os riscos gerados pelo tráfico desses animais. É nesta época que os filhotes são retirados da natureza, em condições precárias, para alimentar o tráfico. Estudos mostram que, para que um papagaio chegue à residência de um comprador, de forma clandestina, outros nove morrem.
O Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF) reforça a importância dessas aves para o equilíbrio ecológico do planeta. Elas atuam como polinizadoras e dispersoras de sementes e, assim, contribuem para a regeneração de áreas degradadas.
Quando apreendidos em Minas Gerais, eles vão para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas). Em setembro e outubro, a unidade de Belo Horizonte, que tem gestão compartilhada entre o IEF e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), já recebeu cerca de 1,8 mil animais, a maioria psitacídeos (família dessas aves), e trabalha com uma média de atendimento de 450 animais por mês.
O que leva a esse cenário, na avaliação da médica veterinária do IEF Érika Procópio, é a vontade e interesse das pessoas de terem em cativeiro esse tipo de animal, pois muitos aprendem a imitar sons humanos. O Brasil é o país com maior número de espécies de psitacídeos no mundo. São 87 no território nacional. Além da habilidade em imitar sons, elas chamam a atenção pela exuberante coloração da plumagem.
“As pessoas acham que eles estão falando, o que gera um tráfico gigantesco dessas espécies”, avalia a veterinária. A principal vítima dos traficantes é o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), que virou alvo principal por ter a maior capacidade de imitar sons. Cada fêmea pode botar de dois a quatro ovos, encubando-os por um período de 24 a 29 dias. Os filhotes são totalmente dependentes dos pais durante um período de quatro a cinco meses. Por volta do segundo mês, eles já começam a sair do ninho.
Denúncias
Quem souber de casos de tráfico de animais pode fazer denúncia para os órgãos ambientais, polícias Militar e Civil e demais autoridades ou entidades envolvidas com a proteção da fauna. Para denunciar, basta ligar para os números 155 (LigMinas) ou 181 (Disque-Denúncia). Todos os psitacídeos estão listados nas listas da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites).
As multas para cada papagaio, periquito ou arara encontrado em situação irregular é de R$10.779,60, conforme o Decreto 47.383/2018, além da responsabilização criminal pelo ato. Se a situação for descoberta em meio a um flagrante de tráfico, a multa é acrescida de mais R$ 1.077,96 pelo ato do transporte clandestino, de acordo com o gestor ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), André Russo Valério.
A Polícia Militar tem um convênio com a Semad que permite aos policiais registrarem os autos de infração e garantirem a punição administrativa.
Meio ambiente
Além dos danos causados aos bichos, o tráfico dos animais gera outros problemas para o meio-ambiente. A veterinária do IEF Érika Procópio lembra que os animais estão saindo da natureza, o que significa uma diminuição da taxa de reposição. “Os filhotes estão saindo, os adultos envelhecendo, então você não tem uma reposição dos jovens e filhotes. Isso compromete todo o ciclo ecológico, toda a cadeia alimentar. E você diminui a dispersão de sementes para o ambiente e das espécies que vão predar essas aves. Futuramente, se algo não for feito, essas espécies vão acabar sendo extintas da natureza”, finaliza.