LEITURA

Mais da metade das famílias brasileiras quase não lê para crianças; hábito vai além da alfabetização

Estudo mostra baixa frequência de leitura compartilhada em famílias com crianças de 5 anos; psicóloga explica impactos no desenvolvimento e como criar o hábito sem transformar livro em obrigação

Larissa Prata
Publicado em 02/11/2026 às 12:00
Compartilhar

Mais da metade das famílias com crianças de 5 anos avaliadas em um estudo internacional realizado no Brasil não mantém uma rotina frequente de leitura em casa. Entre os participantes, 53% disseram não ler para as crianças ou fazer isso menos de uma vez por semana, enquanto apenas 14% relataram leitura compartilhada pelo menos três vezes por semana. 

Os dados fazem parte do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aplicado no Brasil com crianças matriculadas na pré-escola em Ceará, Pará e São Paulo. Na comparação internacional, 54% das famílias disseram ler para as crianças três vezes por semana ou mais. 

O cenário chama atenção não apenas pela relação entre leitura e alfabetização, mas pelo papel que o contato com livros pode exercer na formação da linguagem, da imaginação e das relações afetivas. Segundo a psicóloga e psicanalista Thaís Pereira, especialmente quando acontece na interação com um adulto, a leitura mobiliza diferentes dimensões do desenvolvimento infantil. 

“A leitura favorece a ampliação do vocabulário, a compreensão da linguagem, a atenção, a memória e, progressivamente, habilidades importantes para a alfabetização e uma capacidade de leitura simbólica e interpretativa do mundo”, explica. 

Thaís ressalta, porém, que os efeitos vão além dos aspectos cognitivos. Quando um adulto lê uma história, conversa sobre ela, responde às perguntas da criança e acompanha suas reações, também se cria uma experiência de vínculo, troca e construção compartilhada de sentidos. 

Isso não significa, no entanto, que uma criança que tenha pouco acesso a livros necessariamente terá desenvolvimento inadequado. A especialista lembra que o desenvolvimento infantil é resultado de um conjunto amplo de experiências. 

Conversar com a criança, contar histórias oralmente, cantar, brincar de faz de conta, explorar ambientes, responder às perguntas e incentivá-la a narrar acontecimentos também contribuem para o desenvolvimento da linguagem, da imaginação, do pensamento e da interação social. 

Ainda assim, o livro tem características próprias. Permite voltar à mesma história, observar detalhes, antecipar acontecimentos, fazer perguntas e construir significados no ritmo da própria criança. Por isso, Thaís defende que a leitura não seja tratada apenas como uma ferramenta para “desenvolver o cérebro” ou antecipar aprendizados escolares. 

“Vale pensar na leitura como uma experiência cultural, afetiva e simbólica que amplia o repertório da criança e sua relação com a linguagem e com o outro”, afirma. 

Um dos principais desafios, sobretudo em famílias que não têm o hábito de leitura, é justamente não transformar o livro em obrigação. Para a psicóloga, pais e cuidadores não precisam ser grandes leitores nem ter uma biblioteca extensa para criar boas experiências com os filhos. 

O hábito pode começar com poucos minutos por dia, livros acessíveis e liberdade para que a criança escolha o que quer ouvir. Ler a mesma história várias vezes, conversar sobre as imagens, inventar finais ou perguntar o que ela acha que acontecerá também ajudam a aproximar o livro do cotidiano. 

“Não é necessária uma leitura perfeita. Contar uma história a partir das figuras, mudar a voz dos personagens, lembrar histórias da própria infância ou inventar narrativas juntos já aproxima a criança desse universo”, explica Thaís. 

A escolha do livro também não precisa seguir de forma rígida a faixa etária indicada pelas editoras. Para bebês e crianças pequenas, obras resistentes, com imagens grandes, contrastes, rimas, repetições e textos curtos costumam favorecer a interação. À medida que a linguagem se desenvolve, podem entrar histórias com humor, situações do cotidiano, animais, emoções e sequências narrativas mais elaboradas. 

Depois, entram personagens mais complexos, conflitos, fantasia e livros divididos em capítulos. Mais importante do que seguir uma tabela, segundo a especialista, é observar os interesses da própria criança e aquilo que desperta curiosidade. 

Thaís também recomenda diversidade na escolha das obras, com diferentes personagens, famílias, culturas e modos de viver. E faz uma ressalva: nem toda literatura infantil precisa ter finalidade pedagógica explícita. “Nem todo livro infantil precisa ensinar uma lição”, pontua. 

O debate sobre leitura também esbarra inevitavelmente no uso de telas. Para a psicóloga, a relação entre tecnologia e desenvolvimento infantil não pode ser resumida à ideia de que toda tela faz mal. É preciso considerar idade, tempo de exposição, conteúdo, contexto e, principalmente, aquilo que a tela está substituindo. 

O problema se torna maior quando o uso excessivo ocupa o lugar de experiências fundamentais, como brincar, movimentar o corpo, conversar, dormir adequadamente, conviver com outras crianças e interagir com adultos. 

Ao mesmo tempo, Thaís chama atenção para a realidade das famílias. Em muitos momentos, pais e cuidadores recorrem às telas enquanto trabalham, preparam uma refeição ou organizam a rotina. Transformar essas situações em culpa, segundo ela, pouco ajuda. 

Há também diferenças importantes entre os próprios usos. Uma videochamada com familiares, um desenho adequado à faixa etária ou um conteúdo com narrativa compreensível e ritmo menos acelerado podem oferecer experiências distintas, especialmente quando há um adulto por perto comentando e conversando com a criança. 

Podcasts e histórias em áudio também podem contribuir. Como não entregam imagens prontas, exigem que a criança construa mentalmente personagens, lugares e acontecimentos, estimulando a imaginação. 

Ainda assim, não produzem exatamente a mesma experiência do livro compartilhado. Na leitura, a criança acompanha as páginas, observa ilustrações, percebe a relação entre texto e imagem, aponta, interrompe, pergunta e pode pedir para voltar. O ritmo é regulado pela própria interação. 

No streaming, por outro lado, imagens, movimentos e sons já chegam prontos. Isso não torna a experiência necessariamente ruim, mas reduz parte da construção imaginativa exigida por um livro ou por uma narrativa apenas em áudio. 

Para Thaís, esses recursos podem coexistir. Um podcast, filme ou desenho pode despertar interesse por determinada história e até levar a criança ao livro depois. 

No fim, criar o hábito de leitura passa menos por impor metas e mais por abrir espaço para que o livro faça parte da rotina. Sem cobrança, sem perfeccionismo e sem a obrigação de transformar cada história em aprendizado. Às vezes, alguns minutos de leitura compartilhada já são suficientes para fazer do livro um lugar de encontro, imaginação e curiosidade. 

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por