Neurologista explica sinais de depressão infantil e orienta pais a observar mudanças persistentes na rotina
Mudanças no comportamento, perda do interesse pelas brincadeiras e isolamento podem indicar que a saúde emocional da criança precisa de atenção. A depressão também pode ocorrer na infância e, segundo o neurologista Lineu Miziara, identificar o problema pode ser mais difícil porque os sintomas nem sempre são expressos da mesma forma que em adultos.
Durante entrevista ao Jornal da Manhã, o especialista explicou que a observação dos pais e responsáveis tem papel importante na identificação de mudanças no comportamento, principalmente porque crianças podem ter dificuldade para explicar o que estão sentindo. “É muito importante a sua observação porque a criança não queixa como um adulto. Ela não diz muitas vezes, ‘estou triste’”, afirma.
Por isso, uma mudança em relação à rotina habitual deve ser observada com atenção. Entre os sinais que podem indicar que algo não está bem estão deixar de brincar, ficar mais isolada, apresentar comportamento melancólico, passar mais tempo na cama e chorar sem motivo aparente. “A informação na pediatria depende muito da observação dos pais”, explica Miziara.
O neurologista destaca que a perda de interesse pelas atividades que antes despertavam prazer é um dos pontos que merecem atenção. “A criança que deixou de brincar, que está cada vez mais sorumbática, ensimesmada, melancólica, que fica mais acamada, que chora sem motivo, isso pode ser depressão”, ressalta.
A depressão pode atingir inclusive crianças pequenas. Segundo Miziara, fatores hereditários podem contribuir para uma predisposição ao transtorno, mas o ambiente e as experiências vividas também precisam ser considerados. “Pode acontecer em idades até muito tenras, sem dúvida”, disse.
Nesse contexto, o ambiente familiar pode ter influência importante. Conflitos dentro de casa, violência doméstica e a forma como os pais lidam com os filhos foram citados pelo neurologista como possíveis fatores relacionados ao sofrimento emocional. “Muitas vezes o gatilho está na família, problemas dentro de casa, a violência doméstica, a forma como os pais criam”, explica.
Miziara ressalta que as crianças observam atentamente o comportamento dos adultos. “A criança é uma anteninha ligada”, afirma. Segundo ele, os pais precisam considerar que suas atitudes podem ter mais impacto do que os próprios discursos. “A criança capta muito mais como você age do que o que você fala para ela”, destaca.
A cobrança excessiva também merece atenção. De acordo com o especialista, exigir que os filhos alcancem um padrão de perfeição pode contribuir para o desenvolvimento de um quadro depressivo. “Pais que exigem dos filhos a perfeição, isso pode levar muitas vezes a um quadro depressivo na infância”, alerta.
Apesar de poder ser grave, a depressão infantil pode ser tratada. A conduta depende da avaliação de cada criança e pode envolver acompanhamento psicológico e médico. Em determinadas situações, medicamentos também podem ser indicados. “Medicamento na infância muitas vezes ajuda bastante”, disse Miziara.
O neurologista também chama atenção para a gravidade que o transtorno pode alcançar. Segundo ele, casos de depressão podem envolver pensamentos e comportamentos relacionados ao suicídio, inclusive entre crianças. “Depressão muitas vezes ocorre em criança, até com suicídio”, alerta.
Por isso, mudanças persistentes no comportamento não devem ser automaticamente tratadas como uma fase, desobediência ou “manha”. A perda do interesse pelas brincadeiras, o isolamento, a tristeza persistente, alterações na rotina e dificuldades para realizar atividades habituais são sinais que justificam uma avaliação profissional.
A presença desses sinais, isoladamente, não significa que a criança tenha depressão. O diagnóstico depende de avaliação por profissional de saúde. Em situações de risco, especialmente quando houver falas ou comportamentos relacionados à morte ou ao suicídio, a busca por atendimento deve ser imediata.