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No México, Finados é festa e impulsiona indústria do turismo

Psicóloga uberabense Vera Lúcia Dias vai ao país da América do Norte para conhecer as manifestações culturais e saber como o povo de lá se relaciona com a morte

Publicado em 03/11/2013 às 14:16Atualizado em 19/12/2022 às 10:23
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Dia de Finados no México, com suas manifestações culturais e sua forma diferente de comemorar a data, se transformou num dos principais atrativos turísticos do país, o que movimenta a sua economia neste período do ano. Psicóloga e pesquisadora de Tanatologia – ciência que estuda a morte –, Vera Dias saiu de Uberaba para acompanhar o comportamento do povo mexicano por ocasião da data, que é comemorada de maneira bem diferente da do Brasil.

No ano passado, quando foi criado o Instituto Renovare - Cemae (Centro de Estudos Sobre a Morte e Apoio a Enlutados), a organização publicou artigos no Jornal da Manhã e realizou palestras nos cemitérios São João Batista e Medalha Milagrosa para as famílias enlutadas. Este ano, Vera Dias optou ir ao México para agregar conhecimentos na área e partilhar, dentro do possível, uma visão cultural diferente da morte e do morrer. Do México, ela conversou com a reportagem do Jornal da Manhã.

“O Dia de Finados aqui no México não é um dia triste como no Brasil. Aqui é um dia de alegria e muitas festas que remontam, segundo alguns historiadores, mais de três mil anos e que, portanto, já foram encontradas pelos espanhóis quanto aqui chegaram”, explica Vera. Ela diz que as festas populares misturam elementos do catolicismo popular com rituais indígenas antiquíssimos, que brincam com a morte e transforma símbolos associados a ela em motivos de riso e diversão.

Como consequência desta grande familiaridade do povo mexicano com a morte, surge a forte crença de que os mortos têm licença para visitar seus parentes do mundo dos vivos na época de Finados. Vera explica que no dia 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, no México é também chamado Dia dos Santos Inocentes e os visitantes são os mortos-crianças. Os mortos adultos só aparecem no dia seguinte, dia 2 de novembro.

Para receber estes mortos, as casas são enfeitadas com cempasúchitl, um tipo de crisântemo amarelo, típico do “Dia de los Muertos”. Altares são preparados nos lugares mais importantes das casas e armados em três andares, que simbolizam a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. São enfeitados com papel picado de cor preta, símbolo do luto cristão, e laranja, a cor do luto asteca.

De acordo com Vera, além dos altares, muitas iguarias são preparadas especialmente para a ocasião, mas as pequenas caveiras sorridentes, feitas de açúcar ou chocolate, são as preferidas.

Tudo tem de estar pronto até dia 31 de outubro, à meia-noite. Ela diz que, conforme a tradição mexicana, a família reza junta e, em seguida, convida os ancestrais a participarem da festa. As velas são acesas e o ambiente é purificado, queimando-se uma resina aromática, o copal. Ninguém toca na comida. Os mortos devem ser os primeiros a se servir. Apenas no dia seguinte os vivos voltam para se reunir aos parentes falecidos e, juntos, saborear o banquete. É hora de comer e beber ao som da música favorita dos que já partiram.

O ritual se repete no dia 2, para os mortos-adultos. Nesta data, Dia de Finados, nas cidades, em vez de fazer uma festa em casa, as pessoas preferem levar a refeição aos cemitérios, onde passam o dia lavando os túmulos e decorando-os com flores. Lá, as pessoas rezam, choram, cantam e, eventualmente, até se embriagam, “porque se a morte é um fenômeno natural e inseparável da vida, para os mexicanos, a melhor forma de enfrentá-la é rir e brincar com ela”, diz a psicóloga.

Vera Dias comenta que a tradição das comemorações do Dia de Finados no México é tão forte que, assim que chegou ao hotel, na manhã do dia 30 de outubro, deparou com um dos altares repleto de oferendas, o que se repete em todos os estabelecimentos comerciais visitados por ela. Ela ressalta que este movimento reflete diretamente na atividade econômica do país, que se movimenta em torno da indústria do turismo.

Oferendas e símbolos do Dia de Finados no México 

Caveiras mexicanas - Viraram moda e têm origem nestas festividades e, entre elas, uma batizada de La Catrina tornou-se um personagem especial.

La Catrina - Criada pelos artistas mexicanos para representar a classe social que prevalecia antes da Revolução e, posteriormente, ela se tornou o símbolo oficial da morte.

Caveirinhas de doce - Geralmente as de açúcar trazem escrito o nome de um morto ou até de um vivo para brincar com os amigos.

Flores - Belas e variadas flores fazem parte da decoração. Assim como no Brasil, os crisântemos têm destaque especial, principalmente os amarelos, chamados de cempasúchitl.

Pão dos mortos - É um pão doce polvilhado de açúcar, consumido apenas nesta época por estar associado à celebração do Dia dos Mortos.

Altares e oferendas - Na decoração dos altares, cheia de simbolismo, há desenhos do que seria o purgatório (os quais servem para pedir que o defunto saia de lá, caso por ali esteja).

Cruz de terra - Para que o defunto lembre de sua fé (católica) em alusão à frase “Lembra-te que do pó viestes e ao pó hás de retornar”, relembrada nas missas das Quartas-feiras de Cinzas.

Papel picado - Semelhantes àqueles feitos por nossas avós, com papel de seda, é típico do artesanato mexicano (parece rendado) e variados doces de abóbora (importante alimento do país, ao lado do milho, do feijão e do chile); além das imagens dos santos católicos.

Balões que “guiam os espíritos” - Na tradição mexicana, os balões iluminados sobem ao céu para indicar aos espíritos a rota a se seguir para conseguirem chegar às suas antigas casas para o convívio de seus familiares, bem como mostrar-lhes o caminho de retorno, após a celebração.

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