Psicanalista explica que o suicídio encerra o sofrimento apenas para quem se vai, enquanto familiares e pessoas próximas vivem diversos estágios de dor durante o luto
O suicídio encerra o sofrimento apenas para quem morre. Para familiares e pessoas próximas, a morte pode dar início a um período marcado por luto, culpa, questionamentos e pela tentativa de compreender o que aconteceu. Em entrevista ao Pingo do J, da Rádio JM, durante o Setembro Amarelo, a psicóloga e psicanalista Ilcéa Borba Marquez chamou atenção para a necessidade de acolher também quem permanece.
Segundo a especialista, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos familiares é lidar com perguntas para as quais nem sempre haverá uma resposta definitiva. “A família fica com muitas perguntas: por que não percebi? Por que não fiz alguma coisa? Por que ele não falou comigo?”, explica.
A culpa pode surgir justamente nessa tentativa de encontrar uma explicação para a morte. Familiares podem revisitar situações, conversas e comportamentos anteriores em busca de algum sinal que indique que poderiam ter evitado o desfecho.
Para Ilcéa, porém, esse processo precisa ser acompanhado com cuidado. “A família não pode ficar se culpando, porque ela também não sabia o que estava acontecendo dentro daquela pessoa”, afirma.
A psicóloga explica que o sofrimento emocional nem sempre é expresso de maneira clara e que pessoas próximas podem não compreender a dimensão do que alguém está vivendo. Depois da morte, essa percepção pode mudar e fazer com que acontecimentos anteriores sejam reinterpretados. “Às vezes, a pessoa estava sofrendo e ninguém sabia. E depois que acontece, a família começa a buscar tudo que aconteceu para tentar entender”, relata.
Além da ausência, os familiares precisam reconstruir a rotina enquanto lidam com sentimentos que podem se alternar ao longo do tempo. O processo também não ocorre da mesma forma para todas as pessoas. “Cada pessoa vai viver o luto de uma forma”, afirma Ilcéa.
A psicanalista destaca que o acompanhamento deve considerar as particularidades de cada caso e que o sofrimento não precisa ser enfrentado de maneira isolada. “A família também precisa de cuidado. Ela precisa falar, precisa ser ouvida, precisa elaborar aquilo que aconteceu”, orienta.
A busca por ajuda profissional pode ser necessária quando a dor começa a comprometer a rotina, os relacionamentos ou a saúde emocional. Psicólogos e outros profissionais de saúde podem auxiliar na elaboração do luto e no enfrentamento dos sentimentos relacionados à perda.
O cuidado com familiares e pessoas próximas também integra a discussão sobre prevenção ao suicídio. O acolhimento deve evitar julgamentos e a tentativa de atribuir a uma única pessoa a responsabilidade pela morte. Para Ilcéa, compreender que alguém estava passando por um sofrimento que não era percebido pelos outros é importante para que os familiares não transformem a perda em um processo permanente de culpa.
Durante o Setembro Amarelo, a orientação é que familiares procurem ajuda quando perceberem que o sofrimento está se tornando difícil de suportar ou interferindo na própria vida. O acompanhamento profissional pode ajudar na elaboração do luto e também na identificação de situações em que a pessoa enlutada passa a precisar de atenção especializada.
Em situações de sofrimento emocional intenso ou de emergência, a orientação é buscar atendimento na rede de saúde. O Samu, pelo 192, também pode ser acionado.