A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática da Organização das Nações Unidas (ONU), emitiu um alerta nesta quinta-feira (3) sobre o fortalecimento do El Niño nos próximos meses. Segundo a entidade, o fenômeno deve atingir intensidade muito forte até o fim deste ano e seus efeitos sobre o clima podem continuar até fevereiro de 2027.
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aumento das temperaturas da superfície do mar no centro e no leste do Pacífico equatorial. A alteração provoca mudanças nos padrões de circulação atmosférica e pode influenciar as temperaturas e o regime de chuvas em diversas partes do planeta.
De acordo com a OMM, existe uma probabilidade próxima de 100% de que o episódio atual continue até fevereiro. A agência também prevê temperaturas acima da média em praticamente todas as áreas continentais entre setembro e novembro.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que o episódio atual pode ser mais intenso do que qualquer outro observado desde o início do monitoramento do fenômeno, há cerca de quatro décadas.
“O El Niño está claramente estabelecido e vai se intensificar até se tornar um fenômeno muito forte nos próximos meses”, afirmou a organização.
A entidade alerta que o fortalecimento do fenômeno pode aumentar os riscos de inundações, secas e calor extremo, além de provocar alterações nos padrões de precipitação em diferentes regiões.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também chamou atenção para a intensidade do fenômeno.
“O El Niño está se tornando gigantesco diante de nossos olhos”, afirmou Guterres. Segundo ele, o planeta está entrando em uma situação de maior risco diante do aumento das temperaturas dos oceanos e da ocorrência de eventos climáticos extremos.
Embora o El Niño não seja provocado pelas mudanças climáticas, os cientistas afirmam que o fenômeno pode agravar o aquecimento global já registrado em razão da emissão de gases de efeito estufa.
O ano de 2024, por exemplo, foi o mais quente já registrado, após a ocorrência do último El Niño.
Para Celeste Saulo, o atual episódio tem potencial para provocar impactos significativos sobre comunidades e economias em diferentes partes do mundo.
“Já estamos vendo perturbações e devastação causadas por secas e inundações, e esperamos que estes impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique”, afirmou.
Os efeitos do El Niño podem ser sentidos a milhares de quilômetros do Pacífico tropical. Cada episódio apresenta características próprias, mas alguns padrões são recorrentes.
Entre os possíveis impactos estão períodos de seca em partes da Amazônia, Indonésia e Austrália, alterações nas monções da Índia e mudanças no regime de chuvas em áreas tropicais.
Na América Latina, a intensificação do fenômeno já provocou medidas de emergência em países como Panamá e El Salvador. No Equador, as autoridades emitiram alerta vermelho diante do avanço do El Niño.
O fenômeno também afeta atividades econômicas. No Canal do Panamá, por exemplo, a redução da disponibilidade de água levou à necessidade de diminuir a circulação de embarcações.
Os dados da OMM mostram que o aquecimento do Pacífico equatorial vem se intensificando. Entre maio e julho, a temperatura da superfície do mar na região central e leste do Pacífico equatorial ficou, em média, 1,5°C acima do normal.
Entre o fim de julho e meados de agosto, as anomalias semanais chegaram a variar entre 2,2°C e 2,6°C acima da média, indicando a continuidade do fortalecimento do fenômeno.
Em algumas áreas do oceano, as temperaturas abaixo da superfície ficaram mais de 8°C acima da média durante julho e o início de agosto.
O El Niño costuma ocorrer a cada dois a sete anos e normalmente dura entre nove e 12 meses. O fenômeno faz parte de um ciclo natural de variações no Oceano Pacífico, que alterna períodos de El Niño, La Niña e condições neutras.
Apesar de o pico geralmente ocorrer no fim do ano, o calor acumulado nos oceanos é liberado de forma gradual para a atmosfera. Por isso, os efeitos do fenômeno podem continuar influenciando as temperaturas e as condições climáticas durante os meses seguintes.
Diante da previsão de intensificação, a OMM recomenda que governos e setores mais sensíveis às condições climáticas, como agricultura, saúde, energia e recursos hídricos, adotem medidas de prevenção para reduzir os possíveis impactos.