Manifestações reuniram estudantes, trabalhadores e sindicatos; incêndios, saques e confrontos com a polícia foram registrados em várias cidades
(Foto/Reprodução)
Mais de 1.800 pessoas foram detidas e 150 policiais e gendarmes ficaram feridos durante protestos contra o alto custo de vida e por melhorias no ensino na França, neste sábado (17). As manifestações reuniram estudantes, trabalhadores e integrantes do movimento dos “coletes amarelos” e também ocorreram em outros países europeus.
O balanço foi divulgado pelo primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, na noite de sábado. Segundo o governo, cerca de 550 mil pessoas participaram dos atos em todo o país. Os organizadores estimam que o número chegou a 800 mil.
As manifestações, que começaram em setembro com reivindicações de estudantes por mais professores e melhorias na infraestrutura escolar, passaram a incorporar críticas à desigualdade social, aos gastos públicos e à perda do poder de compra.
Incêndios atingem prédios públicos
Em Limoges, no centro da França, um incêndio atingiu a sede da prefeitura e provocou o desabamento de parte da estrutura. O prédio havia sido inaugurado em 1883.
Segundo a imprensa francesa, pessoas encapuzadas quebraram vidraças para entrar no edifício e atearam fogo no local após o encerramento da manifestação na cidade. O incêndio começou depois que um carro da polícia municipal foi incendiado em frente à prefeitura.
De acordo com o prefeito regional, Maurice Barate, o telhado desabou sobre os andares inferiores, e cerca de dois terços das fachadas foram destruídos.
Outros prédios também foram atingidos. Em Lyon, o escritório de turismo foi incendiado. Já em Angers, manifestantes invadiram a prefeitura e a sede do governo regional de Maine-et-Loire. Um princípio de incêndio começou na sala de correspondência e foi apagado por um funcionário.
Confrontos e saques em grandes cidades
Em Paris, a principal passeata ocorreu de forma majoritariamente pacífica durante a tarde, mas grupos incendiaram ruas e veículos, inclusive na praça da República. À noite, houve confrontos entre manifestantes e policiais, que utilizaram gás lacrimogêneo e jatos d’água.
Segundo a BBC, lojas foram saqueadas e pelo menos um restaurante foi destruído pelo fogo. A polícia também avançou contra grupos no centro da capital.
Em Toulouse, o protesto terminou com saques a estabelecimentos comerciais, lixeiras incendiadas e barricadas. A manifestação reuniu 32 mil pessoas, segundo o governo regional, e cerca de 80 mil, de acordo com os sindicatos. Quatro dirigentes sindicais ficaram feridas durante a ação das forças de segurança.
Mais cedo, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, havia informado 400 detidos e 60 policiais feridos, dois deles levados ao hospital inconscientes. Também foram relatados saques ou tentativas de saque em Paris, Rouen, Nantes, Toulouse e Marselha.
Atos também ocorrem em outros países
Manifestações contra o custo de vida, os preços da moradia e a deterioração dos serviços públicos foram registradas em Portugal, Itália, Bélgica e Espanha.
Em Lisboa, dezenas de milhares de pessoas marcharam contra o encarecimento da vida e o aumento dos custos de habitação. Segundo os dados citados pela reportagem, os preços dos imóveis em Portugal mais que dobraram desde 2017, enquanto os aluguéis de novos contratos quase dobraram.
Na Itália, a polícia utilizou gás lacrimogêneo após ser atacada com pedras durante um protesto em Milão. Em Bolonha, agentes recorreram a jatos d’água, e sete pessoas foram detidas.
Na Bélgica, centenas de jovens protestaram em Bruxelas contra o aumento dos custos da educação e reformas que, segundo eles, podem dificultar o acesso ao ensino superior. A polícia usou gás lacrimogêneo e jatos d’água, e um carro foi virado.
Na Espanha, manifestações contra os preços dos aluguéis e a falta de moradia também mobilizaram a população.
Governo francês condena violência
Durante uma visita a policiais mobilizados no centro de Paris, Lecornu cobrou uma posição do partido França Insubmissa, com o qual tem trocado acusações desde o início dos protestos estudantis.
O primeiro-ministro afirmou que a população precisa escolher entre apoiar a República e as forças de segurança ou ficar do lado dos responsáveis por depredações. Ele também declarou que a situação chegou a um ponto sem retorno.
O presidente Emmanuel Macron afirmou, em publicação na rede social X, que não há espaço para a violência na França. Segundo ele, os responsáveis por depredações, ataques a prédios públicos e saques serão processados e punidos.
Movimento começou em setembro
Os protestos tiveram início em escolas de ensino médio de bairros pobres da periferia norte de Paris. No começo, os estudantes reivindicavam mais professores e melhorias na infraestrutura das instituições de ensino.
Com o avanço da mobilização, as pautas passaram a incluir críticas à desigualdade social, aos gastos públicos e à queda do poder de compra. Estudantes que protestavam há semanas se uniram a sindicatos e integrantes dos “coletes amarelos”, movimento que surgiu em 2018 contra o aumento dos impostos sobre o diesel e depois ampliou as reivindicações para questões relacionadas ao custo de vida e à desigualdade.
A atuação das forças de segurança também é alvo de questionamentos após manifestantes ficarem feridos. Entre os casos citados está o de um adolescente que perdeu uma das mãos após pegar uma granada de efeito moral. O órgão responsável pela fiscalização da atividade policial investiga pelo menos 24 denúncias de violência cometida por agentes.