Ao todo, 99 cursos de medicina poderão sofrer sanções por não atingirem desempenho considerado satisfatório na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A informação foi divulgada nesta segunda-feira (19/01) pelos ministérios da Educação (MEC) e da Saúde.
Os cursos são oferecidos por 93 instituições públicas e privadas. No exame, os estudantes dessas graduações não alcançaram o mínimo de 60% de proficiência nos conteúdos avaliados. O número representa cerca de um terço dos cursos de medicina regulados pelo MEC que participaram da prova.
Por se tratar da primeira aplicação do Enamed, o MEC informou que as penalidades, válidas até a próxima edição do exame, serão aplicadas de forma gradual. As medidas vão desde a proibição de ampliação de vagas até a suspensão de novos ingressos nos casos mais graves — oito cursos se enquadram nessa situação.
As sanções não serão aplicadas automaticamente. Será aberto um processo administrativo, no qual as instituições terão prazo de 30 dias para apresentar defesa e justificar o desempenho antes da adoção de medidas cautelares.
Os ministérios também pretendem encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei para que o resultado do Enamed passe a constar nos diplomas dos estudantes.
Criado pelo MEC, o Enamed avalia a qualidade da formação médica no país. A prova é obrigatória para alunos do último ano da graduação e passará a ser aplicada anualmente. O exame é de responsabilidade do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e também é utilizado como critério no Exame Nacional de Residência (Enare).
A criação do Enamed também responde a um projeto de lei em tramitação no Congresso que propõe a criação de uma avaliação semelhante à OAB para médicos, sob responsabilidade do Conselho Federal de Medicina (CFM).
A aplicação do exame gerou controvérsia no setor educacional e foi alvo de questionamentos judiciais. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) tentou impedir a divulgação dos resultados, mas o pedido foi negado pela Justiça. A entidade argumenta que as instituições tiveram pouco tempo para preparar os alunos para a avaliação e questiona as possíveis punições e impactos reputacionais decorrentes das notas baixas.
O juiz Rafael Leite Paulo, do Distrito Federal, entendeu que os dados são de interesse público e que sua divulgação não causa prejuízos por si só.
A nota do Enamed varia de 1 a 5 e mede o nível de proficiência dos alunos nos conteúdos básicos da formação médica. Cursos com notas 1 ou 2 podem sofrer restrições, como impedimento de abertura de novas vagas, bloqueio de contratos do Fies e do ProUni ou, em casos extremos, desativação.
Por limitações legais, o MEC só pode regular e sancionar instituições federais e privadas. A pasta estuda propor um projeto de lei para ampliar seu poder de regulação sobre instituições estaduais e municipais.
As instituições municipais apresentaram o pior desempenho: 37,5% obtiveram nota 1 e 50%, nota 2. Entre as privadas com fins lucrativos, 11,5% ficaram com nota 1 e 46,9% com nota 2. Já as instituições federais concentraram os melhores resultados, com 61,3% alcançando nota 4 e 26,3%, nota 5.
As estaduais tiveram o maior percentual na faixa máxima de avaliação, com 46,2% dos cursos na nota 5 e nenhum na pior classificação.
O exame contou com a participação de mais de 89 mil pessoas, sendo cerca de 39 mil concluintes. No total, 75% dos participantes obtiveram ao menos nota 3.