PERÍODO DE SECA

Seca vira maior inimiga do café e ajuda a manter preço alto

Pesquisador da Uniube afirma que chuvas irregulares, veranicos e baixa nos estoques mundiais pressionam a produção

Joanna Prata
Publicado em 03/08/2026 às 14:12
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Maior produtor de café do Brasil, Minas Gerais responde por cerca de metade da produção nacional e abriga duas das principais regiões cafeeiras do país: o Sul de Minas e o Cerrado Mineiro, onde estão municípios do Alto Paranaíba e do Triângulo Mineiro. Apesar da boa fase dos preços, os produtores convivem com um cenário de crescente instabilidade climática, que compromete a produtividade e acaba chegando também ao bolso do consumidor. 

Segundo o engenheiro agrônomo, pesquisador e pró-reitor da Uniube, André Luís Fernandes, o maior inimigo da cafeicultura atualmente deixou de ser a geada e passou a ser a irregularidade das chuvas. "A seca tem todo ano. O que mais impacta a perda de produção é a falta de chuva. Antes ela ficava concentrada no inverno, mas hoje aparecem veranicos em novembro, dezembro e janeiro, justamente quando a planta precisa de água", explica. 

Para o pesquisador, essa mudança no comportamento climático transformou a irrigação de um diferencial em praticamente uma necessidade para quem pretende manter a atividade. No Cerrado Mineiro, onde a irrigação já é amplamente utilizada, a tecnologia ajuda a reduzir as perdas provocadas pela seca e ainda diminui a alternância natural da produção entre um ano e outro. "Café é uma cultura muito cara para ficar rezando para chover. Não faz sentido depender da sorte quando existe tecnologia para reduzir esse risco", afirma. 

Fernandes destaca que os eventos extremos dos últimos anos ajudam a explicar por que o consumidor passou a pagar mais pelo café. Além das geadas registradas em 2020 e 2021, a seca prolongada de 2024 reduziu significativamente a produção brasileira, enquanto chuvas fora de época voltaram a prejudicar a safra neste ano. "Em julho, que normalmente não chove uma gota na nossa região, tivemos chuva durante a colheita. O café caiu no chão, perdeu qualidade e parte da produção ficou difícil até de recolher", relata. 

O pesquisador também demonstra preocupação com a possibilidade de um El Niño mais intenso nos próximos meses. Segundo ele, o fenômeno já vem alterando o comportamento das chuvas no Sul do país e no Cerrado Mineiro, provocando precipitações fora de época durante a colheita e aumentando o risco de um verão com déficit hídrico. "O El Niño provoca um descontrole inicial das chuvas, mas depois vem uma diminuição muito drástica da precipitação. Para o café, a seca continua sendo o fator que controla praticamente tudo." explica. 

Embora o café tenha ficado de fora da tarifa adicional anunciada pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros, André Fernandes avalia que o setor continua sujeito aos efeitos indiretos das tensões comerciais e geopolíticas. Segundo ele, o impacto mais imediato recai sobre os insumos agrícolas. "A crise que está tendo, que a gente achou que ia parar, que são as guerras, vai aumentar de novo o preço dos fertilizantes. Hoje, cerca de 85% dos fertilizantes sintéticos vêm de fora. Por isso cresce a importância dos biofertilizantes e dos organominerais para reduzir essa dependência." 

Na avaliação do pesquisador, a tendência é que os preços permaneçam elevados. Além das dificuldades climáticas enfrentadas pelos principais países produtores, a demanda mundial continua crescendo, principalmente na China. "Hoje nós temos o menor estoque mundial de café dos últimos 30 anos. Ao mesmo tempo, o chinês começou a consumir café em larga escala. Isso muda completamente o mercado e dificulta uma queda expressiva dos preços", observa. 

Mesmo com custos elevados de produção, Fernandes afirma que o café continua sendo uma das atividades agrícolas mais rentáveis. Ele estima que uma lavoura irrigada de café arábica produza, em média, 50 sacas por hectare. Com a saca próxima de R$ 1.700, a receita pode alcançar cerca de R$ 90 mil por hectare, enquanto os custos giram em torno de R$ 30 mil. "Hoje não existe negócio melhor na agricultura. Mas isso depende de investimento em tecnologia, principalmente irrigação, manejo do solo e práticas que aumentem a retenção de água na propriedade", ressalta. 

Apesar do cenário desafiador, Fernandes acredita que a ciência oferece caminhos para tornar a cafeicultura mais resistente às mudanças climáticas. Segundo ele, além de investir na conservação da água, com solo protegido, plantas de cobertura e armazenamento da chuva nas propriedades, a pesquisa desenvolvida por instituições como a Fundação Procafé, Epamig, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Embrapa Café e a própria Uniube já trabalha no desenvolvimento de variedades mais adaptadas aos extremos climáticos. "Já existem cultivares sendo testadas para resistir ao déficit hídrico, às geadas e às altas temperaturas. É uma pesquisa muito aplicada, voltada para resolver os problemas do produtor. O cafeicultor também precisa ser um produtor de água, porque esse será um dos fatores que definirão a sustentabilidade e a competitividade da atividade no futuro", conclui.

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