A reportagem separou algumas histórias e fatos que ocorreram entre os túmulos do cemitério
Fotos/Raiane Duarte/Arquivo Izolina Silva
Entre anjos, lápides de mármore e concreto, flores e adornos, as almas repousam no São João Batista
Em alguns locais a morte anda paralela à vida e os vivos e mortos coexistem lado a lado. A jornada do homem é recheada por medo, pavor e superstições; entre elas a de que as sextas-feiras 13 trazem azar. Hoje (13) é a primeira do ano e a reportagem do JM Online separou algumas histórias do cemitério São João Batista de Uberaba capazes de arrepiar o “pelo”.
Em frente à entrada principal do cemitério há uma banca de flores naturais e artificias. Izolina Silva, 74 anos, é proprietária do local e há 43 anos trabalha com isso, segundo ela, sua missão de vida é florir os túmulos do São João Batista. Izolina é quase uma enciclopédia do cemitério, viu a expansão da construção e o aumento do número de lápides. Ao falar sobre as histórias que lhe marcaram ela explica primeiro os sentimentos que carrega sobre o local: tristeza, respeito e carinho.
Tristeza por ter que lidar com a dor do outro; "não é fácil" a rotina de pessoas que lidam diariamente com a morte, tanto ela, quanto os coveiros, zeladores, recepcionistas e funcionários em geral do cemitério. Respeito pelas almas que ali passeiam entre as lapides e por fim carinho; na forma de tratar aqueles que estão lidando com o luto.
Chico e Alfeu
Alfeu se transformou em mártir em Uberaba após ser violentamente morto em uma noite de véspera de Natal
O cemitério de Uberaba tem dois túmulos famosos; o do médium Chico Xavier e do taxista assassinado . Izolina cuida de ambos, limpa e coloca vasos de flores. Pessoas de todos os cantos do país e até do mundo buscam Chico e Alfeu para pedir graças. Espírita, a florista crê na santidade das duas personalidades e já recebeu graças solicitadas. Izolina, chegou, inclusive, a conhecer Chico Xavier em vida.
"Quando eu comecei eu não conseguia entrar dentro do cemitério depois das 15h, o tempo mudava, dava três da tarde e eu corria para fora, pois começava a ver coisas, sentir arrepios. Depois que o Chico faleceu eu comecei a limpar o túmulo dele, no terceiro dia eu já fui e tirei as flores murchas”. Izolina conta que, certa vez, acabou se atrasando para limpar a sepultura e que às 15h foram se aproximando. "Vou limpar aqui rapidinho Chico, porque você sabe que eu não fico depois das três da tarde”, falou em prece ao redor da lapide.
Izolina visita o túmulo do Chico Xavier para limpar e organizar tudo, cerca de quatro vezes por semana
“Eu estava olhando as horas, mas nem precisava, já sabia, já comecei a arrepiar. Era inexplicável, sentia arrepios, me sentia pesada, começava a esfriar, era uma coisa que me fazia pensar: "será que eu sonhei, será que vi isso?". Não sabia se eu estava em choque, só sabia que não conseguia ficar. Mas, nesse dia falei com o Chico e pedi para ele tirar isso de mim. Daí uns dias eu estava no cemitério e fui no túmulo do meu marido depois das 16h, não lembrei da sensação. Na segunda vez eu fui de novo, aí lembrei que antes sentia algo. Chico me ajudou mesmo, porque passou. Voltei no túmulo dele e agradeci. Agora eu entro meia noite, duas, três horas da manhã, qualquer hora eu entro, mas continuo vendo coisas, mas sem aquela sensação".
Mesmo que antes Izolina tivesse estes arrepios sem explicação, ela vê toda a sua jornada no cemitério como necessária. “Tem 43 anos que estou aqui, 43 anos que todo dia eu chego e tenho que ir lá dentro do cemitério cumprimentar "eles tudo" e se eu não for está faltando alguma coisa”.
Faz questão de contar experiências que teve no local, pois é uma forma de “homenagear o cemitério”. Fala dos companheiros de trabalho com amor e dedicação, até o cachorro branco que anda por lá coberto de poeira tem um espaço no coração da senhora.
Também explica que o cemitério evoluiu muito e que antes não tinha o asfalto da entrada, a capela era em outro local e nem portão tinha. Não foi apenas o São João Batista que passou por mudanças, durante estes 43 anos, Izolina enfrentou perdas, como a do marido e, também viu muitos amigos enterrarem irmãs, primas, tias e avós.
Almas de branco
"Teve um dia que eu estava varrendo o túmulo do meu marido e vi um casal todo vestido de branquinho, continuei varrendo e conversei com meu marid ‘Pois é, eu queria ter ficado velhinha com você, está vendo ali os dois alegres’, mas aí voltei a varrer e desviei o olho, no que olhei de novo ‘cadê?’, procurei, mas não vi mais. Para a florista os espíritos existem e passeiam pelo cemitério, vão e vêm.
Em uma outra vez Izolina viu uma moça peculiar, de blusa tipo de crochê, perto do poste de entrada do cemitério. “Antes do Chico morrer, era um domingo, estava serenando, meio querendo chover, o sol abria e fechava. Tinha uma mocinha que usava aqueles tamancos antigos, aquela franja curta e eu pensei ‘gozado, que moça estranha’. Comecei a fazer oração e ela pegou e saiu de onde estava, eu sussurrei ‘ai meu Deus’. Ela chegou perto de mim e veio um cheiro de mofo, logo ela me perguntou: ‘Você viu uma senhora esperando?’. Eu disse que não, mas quando ela fez a pergunta eu olhei dentro da boca dela e a gente sempre tem saliva, mas ela não tinha. Fiquei com medo, não que eu mostrasse. A moça também mexeu a mão e eu notei que não tinha veia, a unha estava grande”.
“Quando ela deu as costas vi que o cabelo dela estava embatumado e a blusa estava parecendo pano mofado. A moça entrou de novo no cemitério, eu corri e entrei também para atrás dela. Quando cheguei na porta ela já não estava mais, olhei nos primeiros túmulos, olhei atrás e nada.”
Izolina saiu do cemitério e quis verificar com outras pessoas, foi até o estacionamento ao lado da banca de flores e perguntou para os “meninos” que vigiavam os carros se eles haviam visto ela conversando com uma moça. “Eles responderam ‘não dona Izolina, a gente só viu a senhora correndo!’”.
As flores têm dono
Izolina Silva
Izolina narra outros fatos que ocorrem com frequência. Segundo a comerciante as flores que vende possuem dono antes mesmo de serem compradas. Ela tem o cuidado de sempre vender flores naturais “frescas” e vasos artificiais bonitos. Conta que é comum alguns arranjos não serem vendidos, como se aguardassem por alguém especifico. Ou então, de pessoas comprarem um vaso, se dirigirem ao cemitério, pararem e voltarem: “Acho que vou levar o outro!”.
A senhora afirma que não é o comprador que mudou de ideia e sim a pessoa que ia receber. “Eu fico até arrepiada! As pessoas me perguntam: ‘dona Isolina, como a senhora faz para as flores ficarem tão bonitas?’. Eu respond "É deles (aponta o cemitério), a banquinha é deles, não é minha, não posso falar que é minha".
Velas para Damiana
Um dos casos que mais chama atenção é o de um feto encontrado no cemitério. Caso foi noticiado pelos jornais locais no dia 03 de dezembro de 2009. Certa vez Izolina se preparou para limpar o túmulo de Chico Xavier, mas cedinho, quando ia sair de casa, passou mal e teve uma tonteira repentina. Sentou-se no sofá para respirar um pouco e teve uma espécie de sono com pesadelo, se viu em outro lugar, no local em que deveria estar.
"Cheguei no túmulo do Chico com os baldes e vi ele do lado de fora mexendo na terra jogada. ‘Uai Chico o que aconteceu com o túmulo?’, perguntei. Ele respondeu: ‘Olha aí filha o que fizeram!’. Eu disse ‘espera aí que eu vou ajudar o senhor a pôr a terra de volta’. Ele também me perguntou as horas e eu falei que era 10h30. E então ele virou e falou: ‘Você sabe que eu não posso ficar aqui do lado de fora, me ajuda a me levar para o meu túmulo?’. Aí eu destranquei e antes de entrar ele falou: ‘Você vai achar’. Questionei o que iria achar, mas ele não respondeu, aí eu fechei o túmulo, voltei para arrumar a terra e fiquei sem entender.”
No dia em que teve o sonho Izolina não conseguiu se levantar e foi apenas no dia seguinte limpar o túmulo. Quando chegou viu que tudo estava igual e agradeceu, pois temia que tivessem vandalizado o túmulo do médium como já haviam feito antes. “Eu comecei a limpar normal e estava varrendo atrás quando achei duas velas. Todas que acho, eu não jogo fora, vou no cruzeiro e deixo lá. Acabei de limpar, peguei as velas e as coloquei no balde, mas ao invés de ir para o cruzeiro eu subi para a entrada, no meio do caminho encontrei uma colega, quando chegamos lá em cima eu coloquei os baldes no chão e ficamos conversando, nisso ela disse que ia embora para passar no supermercado. Quando ela saiu eu agachei para pegar os baldes de novo e vi o corpinho de uma criança no chão. Minha colega disse que não era um corpo, mas eu falei que era. Umas quatro pessoas que passaram antes não haviam visto”.
Logo em seguida um cachorro de cemitério apareceu no local com algo na boca. Izolina achou mais estranho ainda e, crente que era um corpo, chamou a chefia do cemitério. “Mandei chamar o pessoal do escritório para identificar. Ao entraram lá dentro eles encontraram o restante do corpo da criança, estava perto do túmulo do meu marido. Veio o IML, eles pegaram o restante das coisinhas e eu fiquei chocada”.
A florista Izolina possui um rico acervo de documentos, fotografias, jornais, livros, mensagens e revistas ligadas ao cemitério e à Chico Xavier
Depois disto, pegou as coisas dela, inclusive os baldes que havia usado na limpeza e foi para casa. Porém, ao chegar lá recordou-se das velas e quis retornar na mesma hora. “Voltei para o cemitério e cheguei lá com velas na mão, quando passei pelo portão, ao invés de ir lá para o cruzeiro, automaticamente fui para o túmulo do Alfeu. Ajoelhei e fiz uma oraçã ‘Não sei o que está acontecendo, essas velas são do Chico, tenho que ir para lá, mas estou aqui!’. Neste momento, algo falou em seu coração, como se fosse um intuição e ela soube ‘essas velas são para a menininha, mas ela não tem nome’. Enquanto falava com Alfeu, com Chico e com as almas que a rodeava, Izolina teve outro lapso. “Veio no meu cérebro ‘Cosme e Damiana’, sei que tem o Cosme e Damião, mas na hora me veio Damiana na cabeça, eu não sabia se o corpinho era de menino ou menina, era um bebê, mas coloquei as velas e soube que era menina”.
A confusão passou após esta prece, mas Izolina ficou alguns dias afastada do cemitério, devido o trauma. “Minha nora ficou na banquinha e nestes dias veio um detetive me procurar para depor. No dia do depoimento eu perguntei se era menino ou menina e ele disse que era uma menininha”.
Recado
Dona Izolina, com tantas histórias do cemitério, não se esqueceu de fazer um último pedido à reportagem. Destacar no final do texto para que as pessoas não brinquem com as almas, nem com os pertences que estão no cemitério. “Não brinque com elas, não brinque! Tenha respeito!”
( )
( )
( )
( )
( )
( )
( )
( )
( )
( )