INVESTIGAÇÃO

Por que é tão difícil chegar aos chefes do tráfico? Juiz explica estrutura das organizações

Divisão de tarefas, uso de empresas e movimentação financeira distante da operação dificultam a identificação de quem ocupa o topo

Débora Meira
Publicado em 07/11/2026 às 11:06Atualizado em 07/11/2026 às 11:14
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As investigações sobre organizações criminosas têm conseguido alcançar integrantes que ocupam posições intermediárias na estrutura do tráfico de drogas, embora chegar aos responsáveis pelo financiamento e pelo comando dos grupos continue sendo um desafio. Segundo o juiz Gustavo Moreira, titular da 2ª Vara Criminal de Uberaba, identificar esses integrantes exige um trabalho de inteligência que vai além das prisões em flagrante. 

Em entrevista ao JM News, da Rádio JM, o magistrado explicou que as organizações dividem as atividades entre diferentes pessoas, que podem atuar desde a movimentação financeira até a entrega dos entorpecentes. “A própria estrutura da organização criminosa impõe que uma pessoa exerça apenas um papel financeiro, outras exerçam o papel de contabilidade, outras exerçam o papel de entrega, outras exerçam o papel de importação, outras exerçam até o papel do aviãozinho e assim por diante”, afirma. 

Ao comentar os resultados das investigações, Moreira destacou que, apesar da dificuldade de chegar aos responsáveis pelo comando, algumas apurações já têm conseguido alcançar integrantes que ocupam posições intermediárias na hierarquia criminosa. “O que está no topo da pirâmide, dificilmente, ele é alcançado. Mas, alguns casos e algumas investigações, nós temos conseguido dar resposta àqueles que estão no meio da pirâmide”, declara. 

O juiz explicou que os responsáveis pelo financiamento podem investir na compra de drogas e obter os maiores rendimentos sem participar diretamente do transporte, do armazenamento ou da entrega. Essa distância das atividades operacionais dificulta a identificação dos integrantes que ocupam as posições mais altas da organização. 

Uma das estratégias utilizadas para ocultar a origem do dinheiro é o desenvolvimento de atividades econômicas e empresariais. Segundo Moreira, os responsáveis pelo financiamento podem manter negócios formais para dar aparência de legalidade aos recursos obtidos com o crime. “Normalmente são empresários para camuflar a origem do recurso ilícito, que a gente tem visto muito nas sentenças”, afirma. 

O magistrado também apontou uma mudança na atuação das organizações criminosas. Além da violência e do comércio de entorpecentes, os grupos passaram a investir em mecanismos de lavagem de capitais e em atividades econômicas, inclusive com possíveis relações com o setor público. 

Como exemplo, Moreira mencionou situações identificadas em outros municípios, nas quais organizações criminosas desenvolveram atividades de transporte, coleta de lixo e contratos com órgãos públicos. Ele, porém, fez uma ressalva sobre a realidade local: não possui referências de que esse tipo de atuação ocorra em Uberaba. 

Enquanto as investigações sobre os níveis intermediários e superiores exigem apurações mais complexas, a maior parte das pessoas condenadas por tráfico de drogas ainda ocupa funções operacionais, principalmente a entrega de entorpecentes. “A grande maioria está na base, sem sombra de dúvidas. A grande maioria está no papel daquele que está realizando a entrega da droga. É o operacional”, explica. 

Para chegar aos integrantes que ocupam posições mais altas, o trabalho de investigação precisa acompanhar a gestão dos recursos e as movimentações bancárias. O juiz destacou que esse tipo de apuração envolve diferentes instituições e exige ferramentas de inteligência. “Exige não só um empenho significativo por parte das polícias, dos órgãos de investigação, mas também uma atuação por parte do sistema de inteligência, do grupo especializado do Ministério Público, o Gaeco e de outras forças”, afirma. 

O magistrado comparou esse trabalho às ocorrências em que a Polícia Militar flagra uma pessoa realizando a entrega de drogas. Nesse tipo de situação, a prisão pode ocorrer imediatamente. Já a identificação dos responsáveis pela estrutura financeira depende do cruzamento de informações e do acompanhamento das movimentações, o que torna a investigação mais demorada e complexa. 

Moreira também citou outras modalidades criminosas que passaram a integrar a atuação desses grupos, como tráfico de armas, atividades relacionadas ao garimpo, lavagem de capitais e crimes tributários. “O tráfico de drogas é apenas uma das modalidades criminosas que as organizações criminosas hoje desenvolvem”, finaliza. 

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