POLÍTICA

Absolvido pela Processante, secretário quer estreitar o diálogo com vereadores

Publicado em 29/09/2021 às 07:40Atualizado em 18/12/2022 às 16:13
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Depois de enfrentar mais de 12 horas da sessão plenária de leitura e votação do relatório final da Comissão Processante dos Fura-filas da Vacinação, o secretário Municipal de Saúde, Sétimo Bóscolo Neto, concedeu sua primeira entrevista presencial sobre o assunto à Rádio JM, na manhã dessa terça-feira. Acompanhado por seu advogado, Edgar Xavier, ele revelou aos jornalistas Lídia Prata e Wellington Cardoso que se sentiu aliviado com o julgamento que o absolveu da prática de crime na condução do processo de vacinação contra a Covid em Uberaba. Ele fez suas as palavras da prefeita Elisa Araújo de que aceitou o cargo público por um ideal, que é justamente sua armadura contra o que chamou de “pancadaria” com ares de humilhação para definir o momento em que vive à frente da Saúde Municipal e admitiu que houve erros, que já estão sendo apurados pela Controladoria do Município. O secretário ainda revelou que está mais motivado do que nunca para seguir em frente e trabalhar para melhorar a qualidade da prestação de serviços de saúde à população uberabense. Confira a entrevista completa.

Rádio JM - O senhor conseguiu dormir?

Sétimo Bóscolo - Foi muito interessante essa noite. Estava um misto de sentimento. Eu estava com a consciência tão tranquila que não estava me incomodando.

JM - Não tirou um peso dos ombros?

SB - Eu não sentia o peso. Eu olhava para tudo isso e estava incrédulo. Foi uma prova que tive que passar. Isso me amadureceu muito e tenho certeza de que minha vida mudou. Estou feliz que posso voltar a trabalhar, e trabalhar para o povo.

JM - Alguns vereadores dizem que o Sétimo não é político. Há lições a serem tiradas?

SB - Realmente, eu achei que seria de forma diferente. Eu não sou político, não sou filiado a nenhum partido. Eu achava que tinha que conviver com o Legislativo, que é uma peça importantíssima para a democracia, mas achei que era com a prefeita, comigo não. Eles acusam os não atendimentos a telefones, mas eu deixei de atender todo mundo. Eu fiquei focado nos dois números, dos meus pais e da prefeita. Chegava no final do dia e tinha duas mil mensagens para responder. Sentava para responder um pouco e depois desmontava.

JM - Até a ex-secretária adjunta teria dificuldade para falar com você. Isso é verdade?

SB - Isso não é verdade, nossas salas são interligadas. Entre o secretário e a adjunta não precisa marcar, não precisa de formalidade. É só entrar na sala. A verdade é que o trabalho lá é monstruoso. Eu cheguei em uma hora que estava caótica a situação. Dezenas de listas de solicitação de vacinação chegavam à minha mesa. Eu fiquei duas semanas à frente da vacinação. Aí eu falei com ela: “toca, me ajuda, eu vou fazer outras coisas, nós não podemos andar juntos”. Secretaria com seis diretorias que tinham só dois presentes. Era muito preocupante, porque as contas da Saúde são pesadas.

JM - E o secretário é o ordenador de despesas, né?

SB - Exatamente. Os maiores cheques que já assinei na vida foram na Saúde. E não pode parar. O povo queria vacina, e vacina é a salvação, então não tinha jeito de parar. É trocar o pneu com o carro em movimento.

JM - Durante a Processante, muitos vereadores que votaram favoravelmente à sua absolvição demonstraram insatisfação com sua forma de trabalhar. O senhor pretende mudar alguma coisa para estreitar o diálogo com os vereadores? Foi fácil ficar calado ouvindo as críticas?

SB - Não é fácil. Você se sente até humilhado, mas acho que, como a prefeita disse, estamos aqui por um ideal. E é a palavra que resume não estar doendo essa pancadaria. Eu não posso estar acima disso. Mas, realmente, eu não estava sentindo dor. Vai mudar, e já mudou. Eu já coloquei um assessor direto com os vereadores, eles têm demanda dos bairros, e temos que estreitar o relacionamento.

JM - Com relação às críticas: o senhor é realmente inacessível?

SB - De forma nenhuma. Vários vereadores ligavam e eu atendia. Coincidentemente, alguns me ligavam e eu ligava depois, principalmente no período crítico da pandemia, o pior momento para todo mundo.

JM - Existem situações não possíveis de resolução por pedido, como arrumar leitos?

SB - Eu falava para eles que não podia passar por cima do complexo regulador. Eles analisam os critérios. Todo mundo vai ser atendido, uns primeiros e outros depois. 

JM - E eram muitos pedidos desse tip “olha, me arruma um leito, um eleitor meu está precisando”?

SB - Sim. Mas não tinha essa conversa de que tinha um eleitor precisando. Era um vizinho, um senhor, um parente, precisando de leito. Eu ligava para saber o status do paciente e pedia compreensão. Da mesma forma que temos pacientes com problemas coronarianos em filas, eles tinham que esperar. 

JM - A gente sabe que os pedidos são recorrentes. De que forma tratá-los daqui para a frente? 

SB - Em primeiro lugar, a gente tem que dar uma assistência para o vereador. O relacionamento está estreito. Eu os convidei para irem à secretaria, deixei minha porta aberta, a qualquer momento pode passar. Continuo não privilegiando ninguém, a não ser o paciente em grau crítico.

JM - Quem determina a urgência do atendimento?

SB - Sempre é o médico, nunca o secretário. Eu até converso com o complexo perguntando o status dos pacientes e qual o tempo para ir ao hospital. Eu nunca determino ninguém.

JM - Passado o tsunami da Processante, o senhor pretende ficar à frente da SMS?

SB - Sim, mas antes queria cumprimentar os integrantes da Comissão, Elias Divino, Alessandra e Anderson. Foram muito éticos e técnicos. Eles foram item a item questionando os pontos da CEI. Sei a importância das comissões, sei que é difícil. Acho que a CEI pecou, às vezes, pela urgência que queriam apresentar resultados. Na época, foi feito tudo manual, anotando na prancheta. Aquilo era difícil de fazer avaliações. 

JM - A secretária adjunta mandou um memorando ao vice-prefeito pedindo mudanças na estrutura. Por que não ao secretário ou à prefeita?

SB - Justamente porque a Fabiana estava à frente da vacinação. A estrutura ainda é precária, mas na época era muito mais. Aí peguei a Ana Paula Fachinelli e a transformei em diretora. Só que aquilo era tão assustador que as pessoas foram entrando em estafa. Tiveram outras pessoas que foram deprimindo, e não davam conta de andar lá dentro. Isso foi assustador no começo. Estávamos no período em que a pandemia tomava rumos altíssimos. E eu tinha que negociar leitos, regulação, UPAs com 50 pacientes parados. Eu tinha que achar leito, porque não tinha nenhum plano de contenção da Covid lá na ponta, na periferia. Ao mesmo tempo, tinha que olhar as vacinas. Ela fez a solicitação. Era muito precária, em todos os sentidos, recursos humanos, financeiros, internet, locais de vacinação. A própria vacinação, que começou no dia em que entrei, a gente pedia a lista para os asilos. A nossa equipe tinha que se locomover até o asilo e vacinar lá. Chegava no final do dia, computava e dava 100 doses aplicadas por dia. Íamos ficar cinco anos vacinando. Com uma semana que estava lá, falei que tínhamos que ir a drives. Eu tinha 15 dias de secretaria. Como durante a semana não podia ser no pátio da Prefeitura, foi para o Shopping Uberaba e ABCZ.

JM - Por que tem um negacionista no Comitê Técnico?

SB - Existem muitos questionamentos. O comitê está muito legal hoje. Existe um trabalho, e até pedi que trouxessem para a gente, mostrando que o anticorpo criado pela doença é bem consistente, e o criado pela vacina não tem a consistência toda. E quando você tem a doença, tem o anticorpo consistente e toma a vacina por cima, você diminui o anticorpo da doença. Não sei te explicar qual a ciência disso. E isso é fato. Então, muitas coisas vão surgindo. Falei, traga os assuntos para o comitê para discutirmos.

JM - Quais são os planos para fazer a Saúde Pública ganhar uma cara nova e minimizar os problemas?

SB - Temos muita coisa boa dentro da Saúde Pública. A odontologia, por exemplo. A odontologia sempre é mais resolutiva que a medicina, mas a nossa pública não perde nada para a privada. 

JM - O SUS é uma bênção?

SB - O SUS é uma bênção, é glorioso, grandioso e precisa ser bem gerido. O SUS tem tudo programado. Temos vários projetos e um deles é o cuidado com pré-diabético. Temos o Cemdhi, Centro Municipal de Diabetes e Hipertensão, do lado do Regional, coisa de Primeiro Mundo. Não conseguiu evoluir por causa da pandemia e estamos retomando. Atendendo direto lá, vai desafogar as UPAs. E esse é um projeto que tem servido de espelho. Além do mais, a equipe do Cemdhi está indo às Unidades de Saúde e capacitando os médicos, explicando quando encaminhar para o Cemdhi, quando tratar na própria Unidade de Saúde, para evitar a complicação.

JM - É uma grande dificuldade fazer o médico cumprir horário, não é?

SB - É difícil, mas tem que cumprir. Estamos conversando com os médicos da rede. Devagarinho temos que convencer os médicos que eles têm que cumprir horário. Sei que é um projeto a médio e longo prazo, sei que é cultural. Além disso, temos que melhorar o salário dos médicos. O doente chega a uma Unidade Básica e tem que ter médico à disposição. E temos que melhorar a capacidade de resolução das UBSs. Hoje, a tecnologia estimula os médicos a pedir exames, então fica naquela “pedição” e fica na fila de espera.

JM - E como reduzir esse tempo?

SB - Muitas vezes, esses exames não são acessados. Precisamos reduzir a quantidade de exames. Eles têm que ser reduzidos, a saúde não dá conta. Nem particular, nem pública.

JM – Então, qual a solução?

SB - Treinamento.

JM - Ele vai entender isso? Falta anamnese?

SB - Não sei se falta anamnese, mas acho que os médicos estão condicionados a trocas de receitas. Temos que criar centros especializados como o Cemdhi, por exemplo, na pediatria.

JM - E as filas para cirurgias?

SB - As filas são grandes, mas estamos resolvendo devagarinho.

JM - O Hospital Escola tem colaborado?

SB - Tem.

JM - Há tendência para promover os mutirões?

SB - Sim. Hoje estão proibidos, mas é interessante. É importante citar que, com a diminuição dos leitos Covid no Regional, eles vão ser de extrema importância para dar equilíbrio na saúde de Uberaba. Ontem (27) estivemos no Hospital de Clínicas e eu falei iss o Hospital da UFTM é gigante, mas é visto pela população como assistência médica, ineficiente. Ele tem uma finalidade muito maior do que a população consegue enxergar. É um hospital de pesquisa, de ensino, transplantes.

JM - Há a crítica de o Pronto Socorro ser a porta de entrada para todos, mesmo com os que têm cirurgia marcada. Por que passar por lá, e não ir direto?

SB - Além de que é lotado. O PS lá tem capacidade para 20 leitos e mantém 40. 

JM - Fora o problema da retenção de macas, né?

SB - Por ser um hospital escola, ele tem dificuldade por causa dos protocolos, que são muito diferentes do Hospital Regional. O Regional não é, mas vai se tornar um hospital referência para residência. E não vai travar. Vai ser ótimo para Uberaba. Tirar toda a média complexidade do Hospital de Clínicas da UFTM e jogar para o Regional e para o Mário Palmério.

JM - A Prefeitura vai conseguir manter o Regional?

SB - Estamos com orçamento pequeno, precisamos do Estado e dos municípios. Querendo ou não, cuidar da macrorregião é cuidar de outra cidade de Uberaba, que está em torno e vem para cá. Muitas cidades não colaboram, só quatro das 26. Mesmo que poucos colaborem, continuam encaminhando os pacientes para cá.

JM - Tendo leitos hospitalares disponíveis, com a pandemia arrefecendo, de que forma podemos flexibilizar o processo das cirurgias?

SB - Tem muitas dificuldades internas nos hospitais. O Hospital das Crianças, por exemplo, me trouxe um relatório de 22 crianças na fila. 

JM - A pandemia represou mais ainda?

SB - Exatamente. São cirurgias simples, mas que, por um motivo interno, não conseguem fazer uma consulta, fazer de novo. O próprio Regional também iniciou as eletivas. Isso vai acelerar de novo. E quem está mais avançado é o Mário Palmério. Tem muita gente nas filas de cirurgias e temos dificuldade de encontrar essas pessoas. Estamos atrás de quase 40% da fila, fazendo uma conta juntamente com a Codau para a pessoa, assim que mudar o número, avisar a SMS. 

JM - Levantou-se a hipótese de a Saúde ter dois secretários. É necessário?

SB - Não. A questão é equipe. Estamos atravessando o ano com uma doença grave, que assolou o mundo todo. Direcionamos, diariamente, 100 pessoas para os drives e que são tiradas das Unidades Básicas; isso está fazendo falta. Fora as pessoas exoneradas, que saíram. Como eu disse outras vezes, o certo era permanecer com as pessoas e, à medida que não forem contribuindo, vai exonerando. Após a vacinação do Piau é que a vacinação, de vez, começou a andar, porque vinha há 60 dias no processo de ambientação e preparação das nossas poucas equipes.

JM - Estamos com uma lei que impede a contratação de servidores até no final do ano, mas há a possibilidade de contratações emergenciais?

SB - Sim, tem que fazer um processo seletivo. Pode ser feito. A gente tem feito isso. Até porque tem uma quantidade muito grande de médicos pedindo exonerações. Eu, pessoalmente, liguei para médicos para pedir, implorar mais plantões, para não faltarem profissionais na assistência aos uberabenses. 

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