Nas páginas do relatório sobre denúncias contra o vereador Jorge Ferreira (PMN), os depoimentos que mais chamaram a atenção da equipe jurídica da Câmara, bem como de membros da Comissão, são os dos ex-funcionários Jairo Celso Caetano e Patrícia Aparecida Camargo Monfre.
Em seu depoimento, Jairo confirmou aos membros da Comissão Processante que, além de devolver todo o salário a Jorge Ferreira, também foi vítima de coação. O ex-servidor informou que o vereador lhe disse que se não devolvesse o dinheiro, não ficaria nem com o tíquete-alimentação, no valor de R$ 340. Disse ainda que ficou sabendo que não receberia salário trabalhando no gabinete pelo próprio vereador. Segundo ele, Jorge Ferreira o chamou em sua sala, dizendo que teria de lhe tirar o salário porque havia gasto muito na campanha e que teria que recuperar o que havia gasto. Caso ele não aceitasse, não seria contratado.
Ele disse ainda em seu depoimento os locais onde os saques eram realizados. Jairo afirmou também que trabalhou quatro meses na campanha do vereador sem receber pelos serviços prestados e em troca seria contratado como assessor.
Patrícia Monfre disse em seu depoimento que não tinha conhecimento de nada em relação a assédio sexual, mas que devolvia parte de seu salário ao vereador. Disse ainda que, alguns dias antes de os fatos se tornarem públicos, um assessor de Jorge, de nome João Damas, comentou com outra assessora do vereador, dentro do gabinete, que ficava somente com o tíquete, mas que para ele era bom, porque era aposentado e sobrava dinheiro para “ir ao forró”. Patrícia afirmou que outros assessores faziam estas devoluções citando os nomes de Ronis, Jairo, João Damas e Luiz Carlos Vitorazze, sendo que este nunca havia aparecido no gabinete, segundo relatos da denunciante. Ainda de acordo com ela, este recebia um salário de R$ 3.600.
Patrícia, que era chefe-de-gabinete de Jorge Ferreira, afirmou ainda à comissão que não foi mandada embora pelo vereador, mas sim pelo presidente do PMN, Marcos Acácio. A servidora informou que posteriormente o vereador entrou em contato, dizendo que ela não poderia continuar trabalhando como chefe-de-gabinete, mas, se quisesse, poderia continuar sendo assessora parlamentar. Ele afirmou a ela que era uma determinação do partido e que Marcos Acácio assumiria a chefia do gabinete interinamente.
Questionada pelo vereador-relator José Severino Rosa (PT) sobre o valor que a mesma recebia em holerite, ela afirmou que Jorge Ferreira fez uma planilha em rascunho e colocou o valor de R$ 4.000. Então, ela questionou se seu salário havia aumentado, já que o combinado seria de R$ 2.200, mas ele lhe afirmou que depois conversariam sobre isso.
Assédio sexual. A denunciante D.F.P., contratada para o cargo de assessora executiva pelo vereador Jorge, afirmou em depoimento que desde que começou a trabalhar em seu gabinete sofreu tentativas de intimidação afetuosa da parte dele e que o mesmo tentou beijá-la em duas ocasiões. Ela afirmou ainda que só manteve o cargo porque restituía ao vereador metade do seu pagamento. No início do mês de março, pediu a Jorge Ferreira que deixasse um pouco mais de seu salário e ele recusou. No mesmo dia, Jorge ligou para ela, por volta de 1h da madrugada. Mas, como não lhe atendeu, no dia seguinte foi exonerada de forma inexplicada.
Em outra página do relatório constam as declarações de R.C.R., servidora da Câmara de Vereadores. Em seu depoimento, ela declarou que no mês de fevereiro, durante uma entrevista, foi questionada pelo vereador se “as meninas da Câmara tinham namorados”. A funcionária respondeu positivamente, mas que estranhou o fato. R. declarou ainda que, em outra ocasião, o vereador, ao ficar sozinho com ela, enquanto o colega providenciava equipamento para entrevista, foi indagada por Jorge Ferreira se ela já havia terminado o namoro. Respondeu que não. Questionada se só via o namorado no fim de semana, respondeu positivamente. Nesse momento, o vereador lhe disse que “durante a semana você pode tirar meia horinha por dia”. A servidora ficou constrangida e ainda ouviu do vereador que a deixou de saia justa, afirmand “Eu gosto de te ver de saia justa”.
No relatório, todos os depoimentos foram colocados na íntegra. Diante da decisão do relator José Severino, que pede a cassação do vereador Jorge Ferreira, e da oferta de denúncia do Ministério Público, denunciando o representante Legislativo por improbidade administrativa, cabe agora aos vereadores darem o veredito final.