EDUCAÇÃO

Brasil encurta distância na educação, mas Uberaba ainda trava nos anos finais

País reduziu diferença para grupo histórico da OCDE, mas desempenho está praticamente estagnado desde 2015; em Uberaba, alfabetização melhora, enquanto Ideb municipal não avança nos anos finais desde 2021

Larissa Prata
Publicado em 08/09/2026 às 09:32Atualizado em 08/09/2026 às 09:33
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País reduziu lacuna para países ricos em 20 anos, embora desempenho esteja praticamente estagnado há uma década; na rede municipal, alfabetização avança, mas fluência leitora e anos finais ainda preocupam (Foto/Divulgação)

País reduziu lacuna para países ricos em 20 anos, embora desempenho esteja praticamente estagnado há uma década; na rede municipal, alfabetização avança, mas fluência leitora e anos finais ainda preocupam (Foto/Divulgação)

O Brasil conseguiu reduzir, ao longo de quase duas décadas, a distância que o separa de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no desempenho escolar. O dado positivo, revelado nesta terça-feira (8) pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, porém, exige uma leitura menos confortável: os estudantes brasileiros continuam muito abaixo da média internacional e o próprio país praticamente não avança desde 2015. Quando esse retrato é colocado ao lado dos indicadores mais recentes de Uberaba, aparece um desafio semelhante — a aprendizagem melhora nos primeiros anos, mas perde fôlego à medida que o estudante avança na vida escolar.

O Pisa avalia conhecimentos e habilidades de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. Na edição de 2025, o Brasil alcançou 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Na média de todos os países da OCDE participantes, os resultados foram de 461, 463 e 482 pontos, respectivamente. Ou seja, mesmo considerando a média atual — que também caiu nos últimos anos — a diferença permanece elevada nas três áreas, especialmente em matemática. O relatório brasileiro completo está disponível no site da OCDE.

É na comparação histórica, no entanto, que surge a notícia mais favorável ao Brasil. Para acompanhar a evolução sem que mudanças na composição da OCDE distorçam a série, a organização utiliza um grupo de 23 países com resultados comparáveis ao longo dos ciclos. Esse recorte existe justamente para que a mudança observada reflita a evolução do desempenho, e não a entrada ou saída de países na comparação. Em 2025, a média desse grupo ficou em 466 pontos em leitura, 469 em matemática e 486 em ciências.

Na comparação com 2006, a distância brasileira diminuiu de 102 para 58 pontos em leitura, de 131 para 92 em matemática e de 113 para 77 em ciências. A metodologia da OCDE para séries históricas utiliza esse conjunto comparável de 23 países, que participaram das avaliações necessárias desde o início das séries de cada área. A explicação metodológica pode ser consultada nos materiais da organização e o relatório completo do Pisa 2025 está disponível para consulta.

A redução da distância, entretanto, não significa que o Brasil esteja vivendo agora um salto de aprendizagem. A própria OCDE afirma que os resultados brasileiros de 2025 ficaram praticamente iguais aos de 2022 e próximos do patamar observado em todas as avaliações realizadas desde 2015. Em 2022, o país tinha 410 pontos em leitura, 379 em matemática e 403 em ciências. Agora, registrou 408, 377 e 409. As variações não representam mudança estatisticamente significativa no desempenho geral.

Parte da aproximação aos países da OCDE ocorreu porque eles também perderam desempenho. Em 2025, as médias de leitura e matemática do bloco chegaram aos menores níveis já registrados pelo Pisa. Entre 2015 e 2025, a média da OCDE caiu de 489 para 461 pontos em leitura e de 485 para 463 em matemática. Em ciências, passou de 489 para 482. A própria organização observa que a deterioração da aprendizagem em muitos sistemas educacionais começou antes da pandemia e prosseguiu nos ciclos mais recentes.

Por isso, as duas afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo: o Brasil está menos distante da OCDE do que estava no passado, mas continua estacionado em um patamar baixo de aprendizagem.

A dimensão do problema fica ainda mais clara quando se observa o que os estudantes efetivamente conseguem fazer. Apenas 28% dos brasileiros avaliados atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática, considerado pelo Pisa o patamar básico. Na média da OCDE, são 65%. Em leitura, 49% dos estudantes brasileiros alcançaram esse nível, contra 69% na OCDE. Em ciências, foram 48%, enquanto a média internacional chegou a 74%.

Isso significa, em sentido inverso, que 72% dos adolescentes brasileiros avaliados não alcançaram sequer o nível básico em matemática, 51% ficaram abaixo dele em leitura e 52% em ciências. O documento da OCDE detalha o que cada nível de proficiência representa e permite consultar os resultados brasileiros por área.

Outro dado ajuda a dimensionar a desigualdade dentro do próprio país. Os 25% dos estudantes brasileiros em situação socioeconômica mais favorável tiveram desempenho em ciências 96 pontos superior ao dos 25% mais desfavorecidos. Portanto, a média nacional baixa ainda esconde realidades bastante diferentes conforme a origem do aluno.

O ambiente escolar também pesa. No Brasil, 55% dos estudantes relataram ter faltado à escola por pelo menos um dia nas duas semanas anteriores ao Pisa, diante de 22% na média da OCDE. Outros 53% disseram ter perdido pelo menos uma aula no período. O dado não estabelece sozinho uma relação de causa e efeito com as notas, mas revela um problema adicional de vínculo e frequência escolar.

No Brasil, a aplicação do Pisa é responsabilidade do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A edição de 2025 teve ciências como domínio principal e foi aplicada em abril e maio daquele ano. O ciclo também marcou uma mudança importante: a avaliação, historicamente trienal, passa a ser realizada a cada quatro anos, com a próxima edição programada para 2029. As informações oficiais sobre a participação brasileira estão disponíveis no Inep.

Uberaba melhora na alfabetização, mas avanço não acompanha toda a trajetória

Não existe resultado municipal do Pisa que permita dizer como os estudantes de Uberaba se sairiam na avaliação internacional. Qualquer tentativa de colocar diretamente uma nota municipal ao lado dos 408 pontos brasileiros em leitura ou dos 377 em matemática seria metodologicamente errada. Mas os indicadores disponíveis para a educação básica local permitem acompanhar diferentes momentos da mesma trajetória escolar — e mostram uma melhora que ainda não consegue se sustentar com a mesma força ao longo dos anos.

O dado mais positivo está na alfabetização. O Indicador Criança Alfabetizada (ICA) de Uberaba passou de aproximadamente 46% em 2023 para 58% em 2024 e 61% em 2025. O índice representa o percentual de estudantes do 2º ano do Ensino Fundamental que atingiram o padrão nacional de alfabetização.

O parâmetro foi estabelecido pelo Inep a partir da Pesquisa Alfabetiza Brasil e corresponde ao ponto 743 da escala de alfabetização do Saeb. Segundo o instituto, uma criança considerada alfabetizada nessa etapa consegue, entre outras habilidades, ler palavras, frases e pequenos textos, localizar informações explícitas e fazer inferências básicas. A metodologia oficial está disponível no site do Inep.

O avanço de Uberaba é real: foram cerca de 15 pontos percentuais em dois anos. Mas o ritmo perdeu força no intervalo mais recente. O crescimento foi de quase 12 pontos entre 2023 e 2024 e de aproximadamente três pontos entre 2024 e 2025.

Além disso, o município ainda ficou abaixo dos referenciais estadual e nacional. Em 2025, 66% das crianças da rede pública brasileira atingiram o padrão de alfabetização. Minas Gerais chegou a 74%, enquanto Uberaba ficou em 61%. O resultado nacional oficial pode ser consultado no site do Inep, que também detalha a evolução brasileira de 56% em 2023 para 59% em 2024 e 66% em 2025.

O JM Online já mostrou que a própria política municipal prevê chegar a 62% neste ano, 65% em 2027 e 70% em 2028 — percentual que Minas Gerais já havia ultrapassado em 2025. O planejamento municipal vai até 2030, mas não estabeleceu metas percentuais para os dois últimos anos de vigência.

Há ainda um segundo indicador local que exige atenção. Entre 2.056 estudantes do 2º ano avaliados em Uberaba em 2025, apenas 497 foram classificados como leitores fluentes, o equivalente a 24%.

Os 24% de fluência e os 61% de alfabetização não podem ser comparados diretamente, porque são avaliações diferentes. O ICA considera um conjunto de habilidades de leitura e escrita e utiliza um padrão nacional de proficiência; a avaliação de fluência observa aspectos específicos da leitura oral, como precisão e ritmo. O dado, portanto, não significa que apenas 24% das crianças estejam alfabetizadas. Mostra, isso sim, que a consolidação da leitura ainda é um desafio para parcela importante dos alunos. O diagnóstico foi detalhado anteriormente pelo JM.

O sinal mais claro de perda de fôlego aparece alguns anos depois, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a rede municipal de Uberaba avançou de 5,5 em 2021 para 5,6 em 2023 e 5,8 em 2025. Há, portanto, recuperação gradual após a queda registrada durante o período da pandemia.

Nos anos finais, porém, a situação é diferente. A rede municipal marcou 5,0 em 2021, 5,0 em 2023 e novamente 5,0 em 2025. Ou seja, enquanto os primeiros anos apresentam melhora, o indicador dos estudantes do 6º ao 9º ano está estagnado há três edições.

O Ideb também não é equivalente ao Pisa. O índice brasileiro combina o desempenho dos estudantes no Saeb, em língua portuguesa e matemática, com dados de aprovação, reprovação e abandono obtidos no Censo Escolar. Já o Pisa mede, por amostragem, como estudantes de 15 anos conseguem utilizar conhecimentos de leitura, matemática e ciências diante de problemas e situações propostas pela avaliação. A descrição oficial do Saeb e de sua relação com o Ideb está disponível para consulta.

Ainda assim, olhar os indicadores em sequência ajuda a identificar onde está o desafio. Em Uberaba, mais crianças chegam alfabetizadas ao fim do 2º ano e os anos iniciais começaram a recuperar o Ideb, mas a melhora deixa de aparecer quando se observa a etapa seguinte do Ensino Fundamental. No Brasil, o Pisa encontra o estudante alguns anos depois, aos 15, e mostra que a maioria ainda chega à adolescência sem alcançar o nível básico esperado em matemática e que cerca de metade também não o alcança em leitura e ciências.

Não é possível afirmar, a partir desses dados, que o aluno alfabetizado hoje em Uberaba necessariamente repetirá no futuro o desempenho observado pelo Pisa brasileiro. São gerações diferentes, avaliações diferentes e competências medidas de formas distintas. Mas a combinação dos indicadores deixa uma questão objetiva para a política educacional: não basta garantir que a criança aprenda a ler no tempo certo se o sistema não conseguir transformar essa base em aprendizagem progressivamente mais complexa nos anos seguintes.

O Pisa 2025 traz, portanto, uma melhora que precisa ser colocada em perspectiva. O Brasil encurtou a distância em relação ao grupo histórico da OCDE, mas parte dessa aproximação ocorreu enquanto os próprios países desenvolvidos perderam desempenho e a nota brasileira permaneceu praticamente parada por mais de uma década. Em Uberaba, a trajetória é mais recente, mas o alerta se parece: os indicadores mostram avanço na porta de entrada da aprendizagem, enquanto os anos finais continuam sem conseguir produzir a mesma evolução.

A distância diminuiu. O problema é que chegar mais perto de quem também recuou não resolve, por si só, o que os estudantes brasileiros — e os de Uberaba — ainda precisam aprender.

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