Aldo Rebelo esteve na semana que passou em Uberaba e concedeu entrevista ao programa Pingo do J
“Eu vejo pessoas batendo à porta das Forças Armadas, pedindo a ditadura. Quem vai querer uma ditadura para si?”
“A corrupção vem da deformidade, da morbidez e da doença que atinge as pessoas, independentemente da ideologia e da facilidade que ela pode encontrar”
“O erro do Governo foi negligenciar, menosprezar a situação. O Presidente, ao invés de agir como um líder, chamar os governadores, prefeitos, faculdades, ficou desmoralizando a doença, dizendo que é gripezinha, que dá Aids, enfim”
“É paradoxal que o Brasil seja colocado no banco dos réus no debate mundial sobre clima”
Por Wellington Cardoso/Márcio Gennari/Luiz Henrique Cruvinel
Foto/Jairo Chagas
Ex-ministro de Ciência & Tecnologia, Esportes, Relações Institucionais e Defesa nos governos de Lula e Dilma, o ex-deputado Aldo Rebelo se apresenta agora como pré-candidato à sucessão de Jair Bolsonaro, de forma independente, ainda sem filiação partidária. Ele esteve em Uberaba, quando participou da programação da Megacana Tech Show, na quarta-feira (3), e proferiu palestra no curso da Associação dos Diplomados na Escola Superior de Guerra (Adesg), na quinta (4). Durante entrevista aos jornalistas Márcio Gennari e Wellington Cardoso Ramos, no programa Pingo do J, Rebelo falou sobre a sua pré-candidatura e da disposição de propor um projeto que possa unir o Brasil e fazer com que a economia volte a crescer. Ele nega a se classificar como terceira via, movimento a que classifica como “nada”. Aldo critica posturas antidemocráticas do governo de Jair Bolsonaro e a falta de diplomacia do país em se fazer reconhecido nas questões ambientais na Cop26. O ex-ministro avalia que no Brasil houve muitas mortes desnecessárias durante a pandemia. “Bolsonaro errou muito, atrasou a vacinação, desorientou a população, criou situação hostil com governadores, ex-ministros”, afirmou. Confira a íntegra da entrevista.
Jornal da Manhã - Como é ser pré-candidato sem partido? Se concorrer com uma base já é difícil, e como independente?
Aldo Rebelo - A independência é provisória, porque terei que entrar em um partido. Como o Brasil passa por um rearranjo político, com fusão de partidos, eu preferi esperar, porque isso me permite, até o começo de 2022, examinar melhor o quadro partidário do país. A minha candidatura independente não tem nenhum prejuízo para a plataforma, existem ideias que eu pretendo para o Brasil que não serão alteradas se eu entrar em um partido. O próprio Bolsonaro está sem partido, então não é uma decisão incisiva.
JM - Em termos de propostas, o senhor está mais alinhado à postura da esquerda ou se apresenta como uma terceira via?
Aldo Rebelo - Eu não sou terceira via. Ela já está engarrafada. A terceira via eu acho que não é nada, é uma retranca, uma legenda, para quem é contra o Bolsonaro e contra o PT. Agora, um candidato à Presidência que não tem nada a falar para os eleitores de Bolsonaro e do Lula não deveria ser pré-candidato. Ser contra tudo não é proposta, não é ideia. Eu acho que o Brasil está unido pelos problemas. Quando você vê uma fila no posto de combustível, não tem duas filas: uma pro Bolsonaro e uma pro Lula. O país é unido pelo problema e dividido pela solução. Tem que achar um caminho para explicar que a união faz a força. Parece que o país dividido é natural, quando não deveria.
JM – Um só mandato seria suficiente para mudar essa perspectiva?
Aldo Rebelo - Sim. Porque é suficiente para apresentar uma agenda para o país, uma energia política que interesse a todos. Retomar a economia interessa para todo mundo? Lógico que sim. Quem vai gerar lucro para o país se não a economia voltando a gerar emprego e impostos? Quem vai diminuir as desigualdades? É o Brasil retomando o crescimento. E isso não está em debate. As pessoas cuidam das agendas de interesses individuais, em detrimento das políticas sociais. Eu defendo o Brasil voltar a crescer, combater desigualdades. Eu vejo pessoas batendo à porta das Forças Armadas, pedindo a ditadura. Quem vai querer uma ditadura para si? A democracia é errônea? Sim. Mas é sempre melhor melhorá-la.
JM - E essa ameaça à democracia é real?
Aldo Rebelo - Olha, o Presidente não está ameaçando os opositores? Não está incitando ódio a uma determinada classe de pessoas? Não tem cidadãos pensando em invadir o STF? O Supremo tem problemas e defeitos que têm de ser enfrentados politicamente, não com ameaças de invasão.
JM - Isso chega a abalar a estrutura do STF?
Aldo Rebelo - Não, o que também não é uma coisa boa, porque mostra que ninguém leva a sério o que o Presidente diz. Virou uma coisa banal, não é levada em conta. O Presidente da República não é um líder empresarial, não. É um líder político, social e até espiritual. Quando as pessoas estão mal, elas olham para o Presidente. Quando há pandemia, problema de desemprego, o Presidente tem que ser o fator de unidade do país, se comportar como chefe. Ele não pode se comportar como se não tivesse esse compromisso, como se fosse chefe de uma facção. Eleito Presidente, é Presidente de todos.
JM - O que levou Bolsonaro a vencer a eleição?
Aldo Rebelo - Quando nos escombros da política não sobrou mais nada, da poeira surgiu a imagem dele, associada aos militares. Ele vem deste meio, apesar de que alguns militares tentaram expulsá-lo. E as pessoas pensaram “quem sabe é a solução?”, já que a política se corrompeu. As pessoas votaram no Bolsonaro por razões parecidas às que votaram no Lula, para resolver o que outros tinham estragado. Mas ele não tinha experiência de gestão, ficou cuidando de agendas restritas na Câmara por anos, e quando o país apareceu com todos os problemas ele teve dificuldade.
JM – O senhor acha que a população foi tão enganada assim? Ou o Brasil mostrou uma face escondida?
Aldo Rebelo - Acho que não, não é possível. É o mesmo eleitor. As pessoas votaram em busca do mesmo objetivo, da solução dos problemas. Ninguém votou enganado, as pessoas votam acreditando que as coisas serão resolvidas, como segurança, desemprego, desigualdade. E nem sempre o candidato que alimenta essa expectativa está preparado. Não é “eu não fiz porque não quero”, é “não fiz porque não sei”. O governante às vezes não faz o melhor porque não está preparado. Não acredito que as pessoas façam tudo por má-fé. A pior coisa dos homens na política é quando erram por estarem enganados pelas próprias ideias. Quando você erra pelas suas próprias convicções, que é o principal caso, é pior. O Brasil é um país muito difícil, desajustado, desigual. Se você tem dificuldade de compreender uma família, imagina um país todo.
JM - Tem clima para acontecer o mesmo fenômeno ano que vem?
Aldo Rebelo - O eleitor vai por necessidade de buscar um caminho. Ele não vai viver na desilusão o tempo inteiro. E algumas ideias duram só por um instante. Quando você elege uma pessoa imatura, despreparada, as pessoas pensam em outras. Acho que essa vai ser a forma que as pessoas vão pensar em 2022.
JM - Como o senhor vê a postura de acabar com o Bolsa Família?
Aldo Rebelo - O auxílio, em si, independente do nome, é uma necessidade. O auxílio emergencial, durante a pandemia, alcançou 60% da população, entre os beneficiados e os dependentes. Tinha mais gente no auxílio emergencial que no trabalho formal. O auxílio é uma necessidade. O Brasil não consegue se recuperar, a economia não cresce, não gera renda, o ganha-pão. Você bate às portas da Prefeitura e tem muita gente atrás de emprego. No Brasil se tem a mania de trocar nome de tudo. A história e a memória não servem para nada. Então, todo governante quer ter seu nome. Por que não dar continuidade no nome de algo que deu certo? Se o Lula fez algo que deu certo, por que não manter? Querem mudar o nome de tudo, principalmente se deu certo, para dizer que o antecessor não foi o responsável. É uma falta de respeito.
JM - Mas, neste caso, houve prejuízo na mudança estrutural do programa?
Aldo Rebelo - Quando você muda programas que deram certo, tiveram visibilidade, você tem que levar em conta que as consequências podem tornar sem efeito todos os aspectos positivos que o programa anterior tinha. Ninguém cria programa do nada, vai reunindo experiências anteriores. Você tem bases de onde partir. Acho uma tragédia tentar mudar tudo.
JM - Isso não ajuda a manter aquela ideia de que o cidadão não acredita em político, por que toda hora estão mudando projetos e programas anteriores? Auxilia nesse descrédito?
Aldo Rebelo - Contribui, mas não é o fator mais importante. O mais importante é o resultado. Política é como futebol, se ganhar, os erros ficam ali, pairando sem atenção. Se perder, aí tá condenado, mesmo que tenha a melhor das intenções. O problema do Brasil é o fracasso. Fracassamos na economia. O Brasil não cresce. O Brasil há 30 anos tinha 30% da renda na indústria, hoje não tem 10%. Então, eu acho que é o fracasso que condena a política e os políticos. Aí tem os erros, a corrupção, a irresponsabilidade, os desvios. A eleição é uma coisa, a seleção é outra. A eleição consegue escolher os políticos, mas ela é insuficiente para fazer uma boa seleção. Além da eleição, há um critério de seleção, não é qualquer viajante que governa uma cidade, um estado ou país. No Brasil existem critérios de eleição bons, mas de seleção, não.
JM - Seria necessário ter uma pré-seleção?
Aldo Rebelo – Os partidos tinham que ter os critérios. Nos EUA tinham “anciões” nos dois partidos que ficavam responsáveis pela seleção dos melhores nomes. Era um filtro partidário. Não é a negação da eleição, é um critério complementar. Você tem a seleção para evitar que pessoas completamente despreparadas cheguem a atuar em cargos de responsabilidade.
JM – O senhor diria que os partidos são irresponsáveis?
Aldo Rebelo - Não, porque não é essa a palavra que define a situação. Eu acho que os partidos não têm nem consciência deste problema e deste risco. Eu vejo o caso dos EUA que eles retiraram os filtros, pesos, balanços, da seleção com a excelente intenção de democratizar. No “qualquer um pode”, eles tiraram os filtros e agora um sujeito se apresenta como pré-candidato do partido Republicano, vê que não dá e corre para o Democratas, porque ele não está interessado em ideias, quer apenas ser eleito.
JM - A pandemia revelou, de forma eficiente, a necessidade que o Brasil tem de uma renda mínima, não é?
Aldo Rebelo - A pandemia piorou o que já estava ruim: a distribuição de renda. Não sei como, em uma situação destas, os bilionários continuam a ganhar mais dinheiro. O Brasil tem a fila dos desempregados, a fila para pedir comida e a fila para comprar jatinhos. Isso não pode acontecer. A classe média perde a renda, os pobres perdem a renda e os bilionários continuam lucrando. É claro que isso não pode acontecer. Não pode ter um boteco fechando e um bilionário ganhando dinheiro na bolsa. Essa situação não pode perdurar.
JM - O senhor foi um dos entusiastas do Código Florestal no Brasil. O Brasil cumpre o que o mundo espera em termos ambientais?
Aldo Rebelo - Cumpre muito além da expectativa. É paradoxal que o Brasil seja colocado no banco dos réus no debate mundial sobre clima. Mais de 80% da energia no Brasil vem das chamadas energias verdes, não dos combustíveis fósseis que poluem. É a energia hidrelétrica, biomassa, a cana-de-açúcar, os biocombustíveis. E isso nós fortalecemos com o Código, cujo relator inicial fui eu, e o final, o deputado Paulo Piau. E nós oferecemos ao mundo a legislação mais avançada no planeta. Agora, quando você não tem diplomacia, que não apresenta as nossas conquistas, não apresenta o que temos, vamos parar no banco dos réus. Temos uma diplomacia tosca que não consegue explicar ao mundo que nós somos o país que mais desenvolveu mecanismos e instrumentos de acordo com a expectativa do mundo. A Conferência de Glasgow foi um fiasco porque dois grandes protagonistas não compareceram: China e Rússia. E, também, porque os investimentos em energia renovável foram muito abaixo do que se esperava. O inverno europeu e americano cobrou muita energia e não tinha disponível. A energia verde não aparece do nada, tem que ter minério, produção, cobalto, investimento. E eles não fizeram. Essa transição dos combustíveis fósseis para energia verde vai demorar muito mais do que o mundo imagina. Menos no Brasil, porque há 100 anos nós temos usina de etanol, temos energia sustentável.
JM - Nos últimos anos, estamos ouvindo sobre o aumento do desmatamento na região da Amazônia. Isso não contribui para que o Brasil sente no banco dos réus?
Aldo Rebelo - É preciso tirar os véus das histórias do desmatamento e das queimadas. Primeiro, tem queimada criminosa e ilegal? Tem. Toda é? Não. Em São Paulo, até um dia desses você veria fuligem da queimada de cana legal nas rodovias. No Nordeste ainda se queima cana de forma legal. Esse é um tipo de queimada. Você tem outra que é sazonal, acidental.
JM - Muitos não se aproveitam do sazonal para tacar fogo de forma criminosa?
Aldo Rebelo - E tem a criminosa, residual. O satélite que vê o ponto de fogo não diz que é criminoso.
JM - Mas, de qualquer forma, tem a redução da floresta, não?
Aldo Rebelo - É insignificante. O Estado do Amazonas tem três vezes a área da França e sete vezes a área da Itália. Mais de 97% está do jeito que Deus criou, que Pedro Álvares Cabral encontrou. O resto está igual. Por exemplo, 80% do Estado do Amapá são parques e terras indígenas. Dos 20% restantes, 80% têm que ser reservados para proteção ambiental. Em Roraima, 70% são parques e terras indígenas. Então, como você diz que a Amazônia está em processo de desmatamento irreversível? O Brasil tem tecnologia, produtor rural e conhecimento. Ninguém tem Embrapa no mundo, só o Brasil. O desmatamento tem que ser combatido, mas tem que valorizar o que o Brasil tem. A Amazônia, do tamanho que é, não vale nada? Não tem incentivo para proteger a área? A diplomacia brasileira tem que ser ativa para defender os nossos interesses, mas, como o Brasil brigou com o mundo inteiro, não dá. Estamos isolados. Nós maltratamos governantes e nós desempenhamos mal o aspecto diplomático.
JM - A postura do atual governo prejudica a imagem do Brasil no mundo?
Aldo Rebelo - Não creio. O que se aproveita no mundo são os erros do atual Governo. Ninguém governa um país com preferências pessoais, mas com relações entre Estados. Se o Chile escolher um governo de esquerda ou direita, é um problema deles. Nós temos que nos relacionar. Aqui não, resolveram que são relações ideológicas. Se o país pensa igual eu penso, ótimo, se não, não converso. Isso é uma irresponsabilidade. “Ah, mas a China é governada pelo partido comunista”, mas os chineses importam grande parte dos nossos produtos. Não vamos manter uma boa relação?
JM – Caso consiga ser eleito Presidente, qual seria sua forma de combater a corrupção?
Aldo Rebelo - A corrupção nunca foi atribuição exclusiva de ideologias. A corrupção vem da deformidade, da morbidez e da doença que atinge as pessoas, independentemente da ideologia e da facilidade que ela pode encontrar. A lei, além de ser dura, tem que ser aplicada. Claro que não vou aqui defender modelos que se praticam em outros países, como a pena de morte, mas o Brasil precisa agir com rigor. E esse rigor deve atingir o responsável, independente da sua ideologia. Dizer que foi só um partido é loucura. Nós tivemos o caso, agora, com essa CPI da Covid, com a compra irregular de equipamentos, vacinas, que atingiu um monte de partidos. Acho que você tem que se pautar pelo exemplo. Eu fui presidente da Câmara dos Deputados e todas as minhas contas foram aprovadas sem reparos. Acho que a corrupção tem que ser combatida, pois descredencia a política, e por essa razão é um mal para a democracia.
JM - Qual a avaliação do senhor sobre o comportamento do atual Governo em relação à pandemia?
Aldo Rebelo - Nós tivemos muitas mortes desnecessárias porque a vacinação poderia ter começado em dezembro de 2020. Nós demoramos e, ao demorar, deixamos que a pandemia avançasse. De qualquer maneira, como temos tradição na vacinação, quando começamos, andamos rápido. Tanto que a terceira onda não atingiu o Brasil. Nós temos hoje mais pessoas vacinadas no Brasil do que, percentualmente, nos EUA e na Inglaterra. O erro do Governo foi negligenciar, menosprezar a situação. O presidente, ao invés de agir como um líder, chamar os governadores, prefeitos, faculdades, ficou desmoralizando a doença, dizendo que é gripezinha, que dá Aids, enfim. Isso desorienta a população, que começa a rechaçar a ciência. Ele não é médico, não é especialista. Ter essa postura influencia negativamente as pessoas. Bolsonaro errou muito, atrasou a vacinação, desorientou a população, criou situação hostil com governadores, ex-ministros. Acho que o Presidente agiu de forma desorientada nesse processo. Não ajudou.
JM - Tivemos, em Uberaba inclusive, médicos que não se vacinaram. É este o efeito?
Aldo Rebelo - Quando eu digo que o Presidente é líder, não administrador, é isso. Quando temos a ciência do mundo todo dizendo que a vacinação é a única saída, vem um Presidente, que nunca pisou em uma faculdade de Medicina, dizendo que tudo isso é diferente. O governante tem a responsabilidade de silenciar no que não compreende, deixar que a ciência diga o que deve ser feito. Se alguém passa mal em um avião, a comissária pergunta se há um médico a bordo, e não um engenheiro.
JM - O senhor acredita em um governo de coalizão das forças progressistas para 2022?
Aldo Rebelo - Eu defendo um governo de união nacional. Todas as forças têm um progresso a apresentar. O chefe da família não divide os problemas ideologicamente, é universal, geral. Quando você precisa fazer algo que não é bom, você também faz de forma igual. No interesse nacional, você tem que dividir?
JM - Outros nomes, da terceira via, teriam essa capacidade?
Aldo Rebelo - O Brasil tem 1/3 da política que quer botar o Lula de volta na prisão. Outro 1/3 quer botar o Bolsonaro em uma jaula e mandar a um congresso internacional para julgamento. E o resto quer botar os dois na cadeia. E isso não vai resolver o problema do Brasil. O Brasil tem que se unir em torno do nacionalismo, da valorização da democracia, da diminuição da desigualdade. Senão fica todo mundo puxando de um lado.