EMERGÊNCIA

Sindicato Rural pede decreto de emergência econômica na agropecuária de Uberaba

Ofício entregue à prefeita Elisa Araújo cita prejuízos financeiros apesar de resultados satisfatórios na produção

Joanna Prata
Publicado em 22/09/2026 às 10:26Atualizado em 22/09/2026 às 11:08
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Presidente do SRU, Vinícius Rios, e o diretor Reinaldo Neto, recebidos pelo secretário-adjunto do Agronegócio, Rafael Guaritá, e a prefeita Elisa Araújo (Foto/Divulgação)

Presidente do SRU, Vinícius Rios, e o diretor Reinaldo Neto, recebidos pelo secretário-adjunto do Agronegócio, Rafael Guaritá, e a prefeita Elisa Araújo (Foto/Divulgação)

O Sindicato dos Produtores Rurais de Uberaba (SRU) entregou à prefeita Elisa Araújo (PSD), nesta segunda-feira (21), ofício em que solicita a edição de um decreto reconhecendo situação de emergência econômica no setor agropecuário do município. O pedido é baseado na avaliação do Conselho Municipal de Safra Agrícola, que aponta resultados financeiros negativos para produtores mesmo diante de uma produção considerada satisfatória, principalmente em razão dos custos elevados, riscos climáticos e baixa ou oscilante remuneração dos produtos. 

No documento entregue à chefe do Executivo, o sindicato afirma que os fatores vêm comprometendo o fluxo de caixa e a continuidade das atividades rurais. “Esses fatores comprometem a viabilidade financeira das atividades rurais, afetando diretamente o fluxo de caixa e a continuidade das operações”, registra o ofício. Vale pontuar que o Agronegócio era responsável por 9,25% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, segundo dados da Prefeitura, com ano-base de 2023, quando movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões. Em 2025, saltou para o recorde histórico de R$ 4,12 bilhões, consolidando Uberaba como a maior economia agro de Minas Gerais em faturamento. 

A ata da reunião do Conselho Municipal de Safra Agrícola, realizada em 15 de setembro, registra que representantes do Sindicato Rural, Emater, Secretaria Municipal do Agronegócio, Secretaria de Comunicação, Banco do Brasil, Sicredi e IBGE analisaram a situação econômica dos produtores e discutiram a possibilidade de recomendar ao Executivo a edição do decreto. Segundo o documento, foram relatadas dificuldades financeiras mesmo em um cenário de boa produção agrícola. 

Um dos pontos destacados na ata é o aumento das solicitações de prorrogação de dívidas junto às instituições financeiras. O conselho ressalta que uma produção física considerada positiva não significa necessariamente resultado financeiro favorável quando os custos, encargos e obrigações superam a receita. Segundo a ata, esse desequilíbrio compromete o fluxo de caixa, a capacidade de pagamento, o custeio das safras seguintes e a continuidade das atividades. 

Uberaba não é o único município da região a discutir o reconhecimento da dificuldade econômica enfrentada pelo setor. Cinco cidades do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, já decretaram situação de emergência econômica na agropecuária entre agosto e setembro deste ano: São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio. As medidas também foram adotadas diante da pressão financeira sobre os produtores rurais. 

A recomendação pela edição do decreto foi aprovada pelos representantes das entidades participantes, com exceção das instituições financeiras e do IBGE. A própria ata esclarece que Banco do Brasil, Sicredi e IBGE participaram com contribuições técnicas, mas não tinham autorização institucional para subscrever a recomendação. 

O documento também deixa claro que a eventual declaração terá caráter econômico, social e setorial e poderá ser utilizada como documento institucional de apoio aos produtores em pedidos de prorrogação, alongamento ou renegociação de dívidas rurais. A medida, porém, não significaria aprovação automática desses pedidos. Cada produtor ainda precisaria apresentar documentação que comprove a incapacidade temporária de pagamento e a relação do problema com a atividade rural. 

A situação apontada pelo conselho também aparece na Nota Técnica elaborada pela Faemg/Senar no final de agosto sobre o agronegócio de Uberaba. O levantamento mostra que o município mantém posição de destaque na produção agropecuária, mas enfrenta pressão de custos, preços das commodities, clima e dificuldade de manutenção das margens de rentabilidade. A produção de sorgo, por exemplo, caiu 54,8% entre 2023 e 2024, enquanto a soja registrou queda nas cotações. 

Para o Sistema Faemg/Senar, a manutenção da força do agronegócio local passa por medidas como melhoria da infraestrutura rural, acesso ao crédito, assistência técnica e ampliação das possibilidades de comercialização. A entidade também aponta a diversificação das atividades como estratégia para reduzir a exposição dos produtores às oscilações de uma única cadeia produtiva. 

A ata do Conselho Municipal de Safra Agrícola e a Nota Técnica da Faemg/Senar foram encaminhadas à Prefeitura e à Secretaria Municipal do Agronegócio para ciência e adoção das providências cabíveis. O eventual decreto, segundo o documento, não se confunde com declaração de situação de emergência ou calamidade pública para fins de defesa civil.

Agro de Uberaba mantém força, mas enfrenta desafios, aponta nota da Faemg Senar

A cana-de-açúcar continua sendo o principal destaque. Em 2024, Uberaba produziu 9,6 milhões de toneladas, o maior volume entre os municípios de Minas Gerais. A cidade respondeu sozinha por cerca de 15,1% da produção de cana do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, região que concentra aproximadamente 76% da produção estadual. Para a safra 2026/27, a perspectiva para Minas Gerais é de crescimento de 7% na produção, embora ainda não haja, na nota, uma projeção específica para Uberaba. 

Nos grãos, Uberaba produziu 327,4 mil toneladas de soja e 126,8 mil toneladas de milho em 2024. O município aparece em terceiro lugar na produção de soja e em sétimo na de milho em Minas Gerais. O problema está no comportamento do mercado: a soja registrou queda de preços e, em junho de 2026, as cotações estavam nos menores níveis dos últimos cinco anos, segundo a análise. O milho também sofre pressão, enquanto os custos de produção permanecem elevados. 

O caso mais expressivo de retração é o sorgo. A área colhida em Uberaba passou de 15 mil hectares em 2020 para 22,2 mil hectares em 2024, crescimento de aproximadamente 48% no período. No entanto, depois de alcançar 36 mil hectares em 2023, a área caiu 38,3% em apenas um ano. A produção acompanhou a queda: recuou de 162 mil toneladas em 2023 para 73,26 mil toneladas em 2024, redução de 54,8%. Mesmo assim, Uberaba continua como o segundo maior produtor de sorgo de Minas. 

A nota aponta que as oscilações do sorgo podem estar relacionadas a fatores climáticos e de mercado e também indicar possível retração dos investimentos dos produtores. Outro desafio é o preço. O valor da saca, que chegou a R$ 69,03 em março de 2025 em Minas Gerais, recuou para a faixa de R$ 46 a R$ 49 em 2026. Como o sorgo concorre diretamente com o milho na alimentação animal, a queda na cotação do milho também pressiona o valor pago pelo cereal. 

Além dos preços, os produtores enfrentam custos elevados com fertilizantes, defensivos e combustíveis, itens influenciados pelo mercado internacional e pelo câmbio. A análise também aponta o acesso ao crédito e as taxas de juros como fatores que limitam a capacidade de investimento. No caso da cana, as perspectivas são mais favoráveis, principalmente pela expectativa de aumento da produção de etanol e pela recuperação das cotações do açúcar, mas o clima e as decisões das usinas continuam sendo pontos de atenção. 

Para o Sistema Faemg Senar, a manutenção da força do agronegócio de Uberaba passa por medidas como melhoria da infraestrutura rural, acesso ao crédito, assistência técnica e ampliação das possibilidades de comercialização. A nota também aponta a diversificação das atividades como uma forma de reduzir a exposição dos produtores às oscilações de uma única cadeia produtiva.

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