ROMBO DOS CORREIOS

Sob Lula, rombo dos Correios cresce 1.300% e fecha 2025 em 15,45% do déficit fiscal do país

Estatal teve resultado negativo de R$ 8,5 bilhões em 2025; nos últimos três anos, o prejuízo acumulado é de R$ 11,7 bilhões

Raíssa Pedrosa/Gabriel Rodrigues/O Tempo
Publicado em 27/04/2026 às 15:05
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A crise financeira dos Correios se aprofunda a cada ano e, em 2025, chegou ao ponto mais grave, com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, segundo o balanço da estatal divulgado nesta semana. O rombo triplicou em um ano e vem se ampliando desde 2022, somando 14 trimestres seguidos de perdas. O valor representa 15,45% do déficit fiscal do setor público - considerando o consolidado (União, Estados, Municípios e estatais), que foi de R$ 55 bilhões no ano passado.

Em 2024, o rombo dos Correios somou R$ 2,6 bilhões. No primeiro ano do governo Lula, em 2023, os Correios registraram um prejuízo líquido de R$ 597 milhões. Nos últimos três anos, as perdas acumuladas são de R$ 11,7 bilhões. O prejuízo crescente, entre 2023 e 2025, foi de incríveis 1.300%.

A empresa apresentou um plano de reestruturação no último ano e afirma ter esperanças de voltar a lucrar em 2027, mas, até agora, os resultados estão abaixo das metas.

A estatal registrou prejuízos de 2013 a 2016, e deu uma guinada para o lado positivo do balanço a partir de 2017. Mas os rombos na estatal voltaram em 2022 e, desde então, cresceram ano a ano. No fim de 2025, a empresa anunciou um plano de reestruturação em três eixos principais: recuperação financeira, consolidação do modelo e crescimento estratégico. Mas, por ora, as iniciativas não alcançaram plenamente os objetivos.

Uma das maiores apostas dos Correios era o programa de desligamento voluntário (PDV) da estatal, que pretendia alcançar 10 mil funcionários. Menos de um terço deles, porém, aderiu à proposta, aceita por cerca de 3.000 colaboradores. A economia projetada pela empresa caso a adesão fosse a esperada era de R$ 1,4 bilhão para 2027, mas, até agora, a economia com os desligados bateu 40% dessa meta projetada.

“Uma vez que as pessoas estão dentro do setor público, com estabilidade, é muito difícil devolvê-las (para o mercado)”, comenta o professor de economia da ESPM Fábio Andrade, sobre o possível motivo da baixa adesão ao PDV. Na visão do especialista, uma combinação cruel de excesso de pessoal, mudança de dinâmica do mercado (com crescimento de empresas privadas de serviços de entrega expressa) e perda de receita contribuíram para a situação dos Correios hoje. 

“Uma das possibilidades (para salvar a empresa) é o fatiamento dos Correios com a privatização de algumas atividades”, sugeriu Andrade. “É possível que se privatize em pouquíssimo tempo, e ele passe de uma empresa com déficit a uma bastante saudável, com as contas no azul. Os Correios dependem de uma reforma administrativa que permita ter indicadores de eficiência”, frisou.

Em 2021, ainda no governo Bolsonaro, uma proposta de privatização dos Correios foi encaminhada ao Congresso e gerou amplo debate sobre o tema. A proposição, no entanto, foi retirada da pauta em 2023 pelo governo Lula.

Em outra frente, os Correios tentam vender imóveis – por ora, foram 11, com uma arrecadação de R$ 11,3 milhões, segundo a estatal. Além disso, a empresa prevê o fechamento de unidades, incluindo agências. Do total de 10 mil unidades de atendimento, houve 68 fechamentos em 2026. 

“É uma tragédia! Os Correios têm um serviço social hoje. As unidades cumprem papel importante de correspondente bancário em locais onde não há agências e a população tem esse acesso, por exemplo”, lamentou Andrade. Os Correios estão presentes em todos os 5.570 municípios brasileiros.

Gestão e universalização

Uma confluência de fatores ajuda a explicar a derrocada das contas dos Correios. O presidente da Associação dos Profissionais dos Correios (Adcap), Roberval Borges, acrescenta que, durante muito tempo, a empresa foi capaz de se sustentar com a própria receita. Mas, com a inviabilidade do modelo nos últimos anos, na perspectiva dele, é necessário encontrar novas modalidades de financiamento.

Ele menciona a norte-americana, que conta com aportes do Tesouro para universalizar o serviço, e a europeia, em que empresas privadas financiam um fundo para sustentar a operação. “O ponto inicial de análise é a forma de financiamento do serviço universal. Vários países tiveram essa discussão, e o Brasil não”, pontuou Borges.

Independentemente de qual seja o modelo adotado, ele reforça a necessidade de eficiência da gestão. Sem mencionar nomes diretamente, critica a administração anterior da empresa, que trocou de presidência em 2025, quando Fabiano Silva dos Santos deu lugar a Emmanoel Schmidt Rondon. Para Borges, a última gestão reconheceu problemas que afetaram a receita dos Correios, como a “taxa das blusinhas”, que reduziu o volume de encomendas importadas, mas não tomou medidas eficazes para contorná-los.

“Nossa visão é muito crítica em relação à gestão anterior, porque ela não enfrentou essas questões. Reconheceu que existia um problema, mas deixou de tomar uma série de medidas. Existe uma questão estrutural (do financiamento dos Correios), mas também uma questão da qualidade da gestão”, afirmou o presidente da Adcap.

Em 2025, a ex-prefeita de Betim Maria do Carmo Lara foi demitida do cargo de diretora financeira dos Correios pelo presidente do órgão após uma crise gerada pelo déficit bilionário na estatal. A petista havia sido indicada ao cargo em 2023, no primeiro ano do atual mandato do governo Lula. Hoje, ela é pré-candidata a deputada estadual pelo PT. Procurada pela reportagem, Maria do Carmo decidiu não comentar o assunto.

Procurados pela reportagem, os Correios disseram que “eventuais mudanças” no corpo diretivo da empresa “são comuns e seguem critérios técnicos”. 

Em nota publicada na quinta-feira (23/4), a estatal argumentou que o déficit de R$ 8,5 bilhões é influenciado, majoritariamente, “pelo provisionamento responsável de obrigações judiciais e pelo aumento de custos operacionais”. “O resultado de 2025 foi impactado por decisões que objetivaram garantir a sustentabilidade futura dos Correios, passando pelo saneamento de dívidas, com o reconhecimento de R$ 2,63 bilhões em precatórios e contingências judiciais acumuladas de gestões anteriores”, defende a estatal.

Fonte: O Tempo

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