
SpiN-TEC é desenvolvida no laboratório CTVacinas localizado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (Foto/Virgínia Muniz/CTVacinas)
A SpiN-TEC, primeira vacina contra a Covid-19 totalmente desenvolvida por pesquisadores brasileiros, aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar sua última fase de testes. Diferentemente de outras opções disponíveis, sua plataforma prioriza a imunidade celular em vez da humoral baseada em anticorpos neutralizantes, o que pode oferecer proteção mais ampla e duradoura contra variantes do SARS-CoV-2.
O imunizante representa um marco histórico para a ciência nacional. Ela é criada integralmente em Belo Horizonte pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Fundação Ezequiel Dias (Funed).
“Nós terminamos o ensaio clínico de fase 1 e 2. Estamos com o projeto submetido na Anvisa para o estudo clínico de fase 3. Estamos respondendo a exigências da Anvisa e temos recursos para fazer a fase 3, mas precisamos da aprovação para liberar o recurso da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos)”, detalhou o professor da UFMG, Helton Santiago, coordenador clínico dos testes e diretor do CT-Vacinas, sobre o estágio atual do desenvolvimento.
Segundo Santiago, a SpiN-TEC utiliza uma proteína quimérica que combina regiões da proteína Spike (S) e Nucleocapsídeo (N). Esse design confere características únicas. Nos estudos de fase 1 (36 voluntários) e fase 2 (320 voluntários), a vacina se mostrou tão segura quanto os comparadores utilizados (AstraZeneca na fase 1 e Pfizer bivalente na fase 2).
“Enquanto as outras vacinas induzem muito anticorpo neutralizante, a SpiN-TEC praticamente não induz anticorpo neutralizante. Entretanto, a SpiN-TEC é melhor para induzir imunidade celular”, explicou o professor Helton Santiago. Essa abordagem é especialmente relevante porque a imunidade celular tende a ser mais conservada frente a mutações virais.
Nos testes pré-clínicos e fases iniciais, a vacina manteve níveis semelhantes de proteção contra as mutações. “Nós testamos a SpiN-TEC contra a variante ancestral, Delta, Omicron BA1, Omicron JN.1 e K3. E ela protegeu contra todas as variantes da mesma forma”, destacou Santiago. Vacinas baseadas apenas em Spike atualizadas perdem eficácia mais rapidamente contra novas cepas, segundo ele.
Outra vantagem significativa é a estabilidade logística. A vacina permanece estável em geladeira comum por até dois anos, o que facilita a distribuição em qualquer região do Brasil. Ela já demonstrou boa imunogenicidade (a capacidade de induzir uma resposta imune no organismo) em idosos, embora ainda não tenha sido testada em crianças. A eficácia final contra a infecção será confirmada na fase 3.
Desafios
O ensaio de fase 3 será feito com 5.417 voluntários. Após a liberação da Anvisa, inicia-se a síntese em escala sob boas práticas de fabricação. Santiago afirma que a expectativa é iniciar a fase 3 no primeiro semestre de 2027 pois certos gargalos geraram atrasos.
“A gente não contava com os gargalos encontrados para inovação e pesquisa no Brasil. A SpiN-TEC foi mostrando onde estavam esses gargalos e a gente teve que arrumar soluções. Alguns ainda não estão 100% solucionados até hoje, o que gera um atraso no desenvolvimento. Mas ela está deixando o terreno mais preparado para inovações que estão vindo na esteira dela”, frisa.
O Ministério da Saúde demonstrou interesse estratégico. Segundo o professor Santiago, a diretoria do Programa Nacional de Imunizações pediu priorização na Anvisa e manifestou intenção de adotar a SpiN-TEC como plataforma principal caso a eficácia seja comprovada, especialmente pela possibilidade de menos atualizações frequentes.
Cobertura vacinal
Apesar da disponibilidade contínua de vacinas, a adesão da população, principalmente às doses de reforço, permanece baixa. Em 2026, até o momento, o Ministério da Saúde distribuiu 10,3 milhões de doses, das quais 3,5 milhões aplicadas. A recomendação atual prioriza reforço semestral para idosos (60+) e imunocomprometidos, esquema primário para crianças de 6 meses a 4 anos, e doses conforme histórico vacinal para outros grupos de risco.
Em Minas Gerais, o estado recebeu mais de 1,2 milhão de doses em 2026, com mais 330 mil previstas para as próximas semanas. A cobertura histórica registra 88,7% com duas doses, 59,2% com três doses e 21,8% com quatro ou mais doses. A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) informou que investiu mais de R$ 530 milhões desde 2023 em ações de vacinação e utiliza vacimóveis para ampliar o acesso.
Em Belo Horizonte, não há falta de imunizantes. Em 2025, foram aplicadas cerca de 176 mil doses contra Covid-19; em 2026, até o momento, aproximadamente 122 mil. A Prefeitura mantém portal atualizado com pontos de vacinação e realiza ações de intensificação em escolas, instituições de longa permanência e residências.
Os números indicam que, mesmo com estoque garantido, a adesão da população ainda fica aquém do ideal. Uma vacina com imunidade celular mais duradoura e menor necessidade de atualizações frequentes poderia contribuir para elevar as coberturas, principalmente dos grupos prioritários, além de facilitar o planejamento logístico em um país de dimensões continentais.
Tecnologia nacional
Se confirmada na fase 3, a SpiN-TEC pode transformar a estratégia nacional de vacinação contra Covid-19, oferecendo proteção mais robusta contra variantes futuras, menor frequência de reforços e maior facilidade de distribuição.
Nesse contexto, o imunizante mineiro se apresenta como um projeto de soberania tecnológica. “Será a primeira vacina que o país coloca no mercado originalmente brasileira. Ela tem sido um grande aprendizado para o Brasil, para a Anvisa, para a UFMG, para o CTVacinas. Tem sido o protagonismo de Minas Gerais nesse campo”, destaca o professor Helton Santiago.
Fonte: O Tempo