DESCOBERTAS

Teste de urina pode ajudar a diagnosticar autismo em crianças, sugere estudo

Nos exames realizados, o método detectou corretamente 90% das crianças no espectro e não apontou incorretamente nenhuma sem o transtorno

Jéssica Malta/O Tempo
Publicado em 28/05/2026 às 08:32
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Cientistas podem ter descoberto um novo método para diagnosticar autismo em crianças com idades entre 2 e 11 anos. Pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona desenvolveram uma ferramenta de triagem que analisa a urina para detectar 17 metabólitos e, a partir disso, identificar aqueles com diagnóstico de autismo.

Nos testes realizados, o exame detectou corretamente 90% das crianças no espectro e não apontou incorretamente nenhuma sem o transtorno. Chamado de "Microbially-Derived Metabolite (MDM) System" (Sistema de Metabólitos Derivados Microbianamente, em tradução livre), o sistema atribui pontuações conforme a quantidade de metabólitos na urina infantil que ultrapassam uma faixa de referência típica. 

"80 a 90% das crianças com autismo têm níveis extremamente altos de um ou mais metabólitos derivados microbianamente", explicou Christina Flynn, primeira autora do estudo e PhD da universidade, em comunicado. 

Para testar a metodologia, os pesquisadores mediram a concentração de metabólitos derivados microbianamente em 52 crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista e 47 crianças com desenvolvimento típico. Todas tinham entre 2 e 11 anos. Praticamente todas as crianças com autismo apresentaram ao menos um nível de metabólito que superou o mais elevado observado no grupo de controle. Algumas concentrações foram de 100 a 1.000 vezes superiores.

Leia também: Autismo em mulheres: entenda os fatores que atrasam o diagnóstico

Crianças com transtorno do espectro autista apresentaram em média cerca de três metabólitos elevados. Crianças com desenvolvimento típico não apresentaram nenhum.

Os metabólitos elevados incluíram aqueles derivados de tirosina, triptofano e fenilalanina, que são aminoácidos envolvidos em vias de neurotransmissores fundamentais. Outros compostos conectados à atividade de leveduras e fungos também foram identificados.

"O que é realmente impressionante sobre as bactérias é que elas produzem metabólitos que são basicamente versões alteradas de serotonina e dopamina", afirmou o  professor James Adams, autor correspondente do estudo, pesquisador do Biodesign Center for Health Through Microbiomes e presidente de cátedra na School of Engineering of Matter, Transport and Energy, parte da Ira A. Fulton Schools of Engineering. "Esses são dois neurotransmissores-chave que afetam humor, cognição e memória. Isso poderia explicar muitos dos sintomas e sintomas coocorrentes em crianças com autismo -- sua comunicação social, ansiedade, depressão e atenção", acrescentou. 

O estudo é consistente com mais de 40 outras pesquisas que identificaram que muitos dos metabólitos microbianos medidos no Sistema MDM são significativamente mais altos em crianças com autismo. Aproximadamente 90% dos casos de transtorno do espectro autista se enquadram no fenótipo proposto pelos pesquisadores.

Cerca de 10% das crianças com autismo no estudo não apresentaram metabólitos intestinais anormais. A maioria dessas crianças tinha outros problemas metabólicos importantes possivelmente associados a distúrbios genéticos.

"Usar este teste dirá quais crianças pequenas estão em alto risco de serem diagnosticadas com autismo, e guiará o tratamento naqueles que já foram diagnosticados para ajudá-los a levar suas melhores vidas", pontua Flynn.

Novo subtipo de autismo

A partir dos resultados do estudo, os pesquisadores também propõem um novo subtipo de autismo chamado "ASD associated with microbially-derived metabolites" (TEA associado a metabólitos derivados microbianamente), ou ASD-MDM. Este fenótipo abrange aproximadamente 90% dos casos de transtorno do espectro autista.

Ferramenta de apoio

Os testes diagnósticos atuais dependem de observações comportamentais, o que faz com que muitas famílias enfrentem longos tempos de espera por respostas. Os pesquisadores sugerem que, para crianças mais jovens, o método proposto pode servir como uma ferramenta de triagem. Para aqueles já diagnosticados, pode ajudar os médicos a explorar fatores biológicos subjacentes. O exame também pode monitorar como as intervenções afetam o corpo ao longo do tempo.

"Achamos que reduzir os níveis desses metabólitos pode ajudar essas crianças a levar vidas mais saudáveis e felizes, e encorajamos que as crianças sejam triadas mais cedo para receber intervenções precoces", disse Adams.

Vale ressaltar que, segundo os cientistas, o teste de urina não funciona como um diagnóstico independente. Eles indicam, porém, que o exame pode ajudar a mover crianças para a frente da fila para avaliação e suporte específico. 

Os pesquisadores enfatizam que mais estudos são necessários para validar as descobertas em populações maiores e mais diversas. Eles alertam ainda que a pesquisa não prova que esses metabólitos causam autismo, embora alguns deles estejam fortemente associados a sintomas relacionados ao transtorno. A relação causal entre os metabólitos elevados e o desenvolvimento do autismo ainda requer investigação adicional.

Fonte: O Tempo

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