Especialista afirma que procedimento ajuda na autoestima, na qualidade de vida e na recuperação emocional
Cerca de 20% das mulheres que passam por mastectomia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) conseguem realizar a reconstrução mamária, segundo o mastologista Cléber Sérgio. Para o especialista, o número evidencia uma lacuna no atendimento de pacientes que sobrevivem ao câncer de mama, mas continuam convivendo com as consequências físicas e emocionais da retirada da mama.
Segundo Cléber, a reconstrução não deve ser tratada apenas como uma questão estética. Com o avanço do diagnóstico e das terapias contra o câncer de mama, mais mulheres conseguem superar a doença, mas permanecem por anos lidando com os efeitos da mastectomia. “Hoje, câncer de mama cura. Aí aquilo que não era muito olhado lá atrás, que é a questão de como eu vou ficar e como eu vou lidar com as sequelas”, afirma.
Para o mastologista, a retirada da mama pode provocar impactos que vão além da aparência. Entre eles estão problemas de autoestima, ansiedade, depressão e dificuldades na vida sexual e nos relacionamentos. “Não é só tirar o câncer, tem que tirar o câncer que está na cabeça também, o emocional”, disse.
A reconstrução mamária pode ser realizada de forma imediata, durante a própria cirurgia de retirada da mama, ou posteriormente. A definição depende das condições clínicas da paciente, do estágio do câncer e dos tratamentos necessários.
De acordo com Cléber, mulheres diagnosticadas em estágios mais avançados podem precisar passar primeiro por quimioterapia e radioterapia. Nesses casos, a reconstrução pode ser adiada porque os tratamentos interferem nas condições dos tecidos.
Em entrevista anterior ao JM, o mastologista havia informado que aproximadamente 40% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em estágio avançado.
Mesmo quando a reconstrução é indicada posteriormente, porém, a paciente ainda enfrenta dificuldades para conseguir acesso ao procedimento pelo sistema público.
A reconstrução mamária após a mastectomia faz parte dos procedimentos oferecidos pelo SUS. O sistema também prevê a utilização de próteses em determinados casos.
Em Minas Gerais, dados da Secretaria de Estado de Saúde apontaram que 124 reconstruções mamárias pós-mastectomia foram realizadas em 16 hospitais entre março de 2023 e fevereiro de 2024.
Entre as unidades que realizaram os procedimentos estava o Hospital Hélio Angotti, em Uberaba, responsável por 25 reconstruções no período, o maior número entre os hospitais listados.
Apesar da existência do procedimento na rede pública, o acesso ainda é limitado. Para Cléber, o número de mulheres que efetivamente conseguem passar pela reconstrução demonstra que a oferta não acompanha a necessidade das pacientes.
Um dos obstáculos citados pelo mastologista é o financiamento das próteses utilizadas nas reconstruções. Segundo ele, até 21 de maio deste ano, o SUS repassava R$ 744 pelo material.
O valor foi reajustado a partir de 22 de maio, passando para aproximadamente R$ 1.500. Apesar do aumento, Cléber afirma que o montante ainda pode ser insuficiente em determinados procedimentos. “Até dia 21 de maio, o SUS pagava R$ 744 por uma prótese. Hoje, paga R$ 1.500. Mas, ainda assim, eu não consigo”, explica.
Segundo o médico, há situações em que a cirurgia exige mais de uma prótese ou a utilização de materiais complementares, aumentando o custo do procedimento.
Para ele, a discussão sobre o financiamento precisa considerar não apenas o valor individual da prótese, mas o conjunto de materiais e recursos necessários para realizar a reconstrução.
Impacto permanece mesmo após a cura.
Na avaliação do especialista, a dificuldade de acesso à reconstrução cria uma situação em que a paciente consegue vencer o câncer, mas permanece com consequências do tratamento.
A preocupação, segundo ele, ganhou ainda mais importância diante da evolução do tratamento oncológico. Com maior sobrevida, as mulheres passam a conviver por mais tempo com as sequelas físicas da doença. “A gente precisa discutir isso. A gente precisa entender que a reconstrução faz parte", afirma.
Cléber ressalta que a cirurgia não consegue reproduzir exatamente a mama retirada pelo câncer, mas pode contribuir para a recuperação da autoestima e da qualidade de vida. “Por mais que a gente reconstrua, é 100% que nós nunca vamos devolver, mas a gente consegue melhorar, devolver um pouco do muito que a doença tirou dessas mulheres”, disse.