
Chica, macaca da Mata do Ipê, é diagnosticada com diabetes e não poderá voltar à natureza. (Foto/Divulgação/HVU)
A alimentação oferecida por moradores a animais silvestres pode provocar doenças graves, alterar comportamentos naturais e até levar os bichos à morte. O alerta foi feito pelo biólogo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam), de Uberaba, Paulo César Franco, durante entrevista concedida à Rádio JM.
O tema voltou à discussão após o caso da primata Chica, conhecida por viver na região da Mata do Ipê. A macaca foi internada neste ano após ser encontrada debilitada e diagnosticada com diabetes, problema associado à alimentação inadequada oferecida por pessoas que frequentavam a região.
Atualmente, segundo o médico-veterinário Cláudio Yudi, especialista em animais silvestres, Chica está saudável e vive em um mantenedouro de fauna silvestre autorizado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF).
A primata permanece em um recinto adaptado, com alimentação controlada e acompanhamento especializado.
Paulo César Franco explica que muitas pessoas acreditam estar ajudando os animais ao oferecer comida, mas acabam causando sérios prejuízos à saúde deles. Segundo o especialista, a Mata do Ipê possui ambiente adequado para os primatas, com árvores frutíferas e recursos naturais suficientes para alimentação. Em períodos de escassez, a própria equipe ambiental realiza suplementação apropriada.
Mesmo assim, a oferta frequente de alimentos humanos fez com que os animais se aproximassem cada vez mais das áreas urbanas.
“O primata copia muito do que a gente faz. Eles são inteligentes, curiosos, como uma criança brincando”, afirmou o biólogo ao explicar o comportamento de imitação conhecido como “imprint”.
Ao comentar o caso do mico Chico, irmão de Chica, Paulo César Franco afirmou que a alimentação inadequada teve impacto direto na morte do animal. Segundo ele, moradores costumavam deixar restos de comida próximos à Mata do Ipê. “Próximo à mata existia uma pizzaria. O pessoal colocava no muro pedaços de pizza, refrigerante e até cerveja, e o Chico consumia aquilo”, relata.
Após ser capturado e encaminhado para tratamento em Araxá, exames e necropsia apontaram problemas graves relacionados à alimentação inadequada. “O diagnóstico da causa da morte dele foi cárie, estomatite e outros problemas relacionados à má alimentação”, afirma Paulo César.
O especialista também relembra uma ocorrência acompanhada pela Polícia Militar de Meio Ambiente próxima ao bairro São Cristóvão. Segundo ele, moradores passaram a alimentar micos diariamente, o que fez os animais perderem o receio da presença humana.
“Os micos entravam na sala de refeição, no café da manhã e até pegavam comida dentro da cozinha. O animal sem receio acaba dominando o ambiente”, conta.
Além dos primatas, Paulo César Franco alerta para os impactos causados pela alimentação de pombos em áreas urbanas. Segundo ele, o fornecimento constante de comida favorece o crescimento descontrolado da população das aves.
“As pessoas acham bonito alimentar os pombos, mas isso vira um problema. O alimento regula naturalmente o tamanho da população animal. Quando há excesso de comida, aumenta-se a população e surgem os impactos”, explica.
O biólogo destaca ainda que restos de alimentos deixados em espaços públicos acabam atraindo outros animais, como formigas, aves e espécies maiores, provocando desequilíbrio ambiental.
Paulo César ainda chama a atenção para os bebedouros para beija-flores. Segundo ele, a água açucarada pode desenvolver bactérias quando não é trocada corretamente e ainda interferir no processo natural de polinização das flores. O especialista reforça que a conscientização da população é fundamental para evitar novos casos.