Desde a redemocratização do Brasil, em 1984, Uberaba teve seis homens como líderes do Executivo municipal. Em 2020, foi eleita a primeira mulher para o cargo.
Nestas quase quatro décadas, Uberaba expandiu, passou de protagonista na pecuária nacional para polo da agroindústria. Atualmente, a cidade conta com mais de 150 bairros, uma população superior a 330 mil habitantes e muitos desafios para consolidar seu desenvolvimento. Para falar sobre os caminhos percorridos para Uberaba chegar até aqui, conversamos com prefeitos que comandaram o município nessas últimas quase quatro décadas.
Entre 1993 e 1996, o chefe do Executivo foi Luiz Guaritá Neto, então filiado ao PFL, sucessor de Hugo Rodrigues da Cunha. Para ele, uma das grandes conquistas do seu governo foi guindar Uberaba à posição de 1ª cidade do país para se investir, de acordo com ranking publicado à época pela revista Exame. Outro destaque foi a abertura da Univerdecidade, considerada por Luiz Neto um grande marco urbanístico para a cidade. Olhando pelo retrovisor, o ex-prefeito revela que gostaria de ter feito um projeto de planejamento mais audacioso.
“Me arrependo de não ter feito, naquela época, o que Curitiba fez, o IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), onde as interferências políticas no planejamento urbano da cidade teriam um impacto mínimo. O IPPUC foi feito há mais de 40 anos e Curitiba se tornou um dos maiores exemplos do país em urbanismo, exatamente porque não houve tanta ingerência política dos governantes e conseguiu manter o planejamento estabelecido por governos anteriores”. Atualmente, o ex-prefeito atua na iniciativa privada, como empresário.
No entanto, ele diz que, se fosse prefeito hoje, tentaria aproveitar melhor os funcionários públicos de bom nível. “Aproveitar significativamente as pessoas técnicas, que são concursadas pela Prefeitura, mas que às vezes são deixadas de lado apenas por questões político-partidárias”, explicou. Para um futuro melhor para os uberabenses, Luiz Neto acredita que a cidade precisa buscar fortalecer sua economia, de modo a proporcionar melhor qualidade de vida para a sua população. Lembrando seu padrinho político Hugo Rodrigues da Cunha, Luiz Neto conclui: É preciso tentar fazer uma cidade cada vez melhor, e não uma cidade cada vez maior.
Tão logo encerrou o seu mandato, Luiz Neto entregou a Prefeitura ao sucessor por ele apoiado, o então secretário municipal de Esportes, Marcos Montes Cordeiro. Em 1997, Marcos Montes Cordeiro, também filiado ao PFL na época, disputou e venceu sua primeira eleição majoritária. De lá pra cá, cumpriu uma trajetória política vitoriosa, elegendo-se deputado federal e, atualmente, ocupa o segundo cargo na hierarquia do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Duas décadas depois de cumprir seu mandato como prefeito, Marcos Montes analisa que, durante seu tempo como chefe, fez o que julgou melhor para Uberaba naquela época. “Talvez pudéssemos ter feito algo diferente, e sempre há muito a fazer na área social, na educação, na saúde, no desenvolvimento econômico e na geração de empregos, principalmente. Mas posso assegurar que nos dedicamos a oferecer a Uberaba o máximo que estava ao nosso alcance, enfrentando limitações orçamentárias na economia do país”, avalia.
Sobre o atual momento da cidade, Montes acredita que, se estivesse à frente da Prefeitura de Uberaba, teria propósitos e preocupações semelhantes às da atual prefeita, Elisa Araújo (Solidariedade). “O desafio é conduzir a cidade com equilíbrio neste período de pandemia, o que é muito complexo, assim como buscar manter o município em condições de oferecer uma boa estrutura e bons serviços para os seus cidadãos, sobretudo na saúde e na educação, além de trabalhar para atrair e fomentar investimentos que gerem mais empregos e renda para a população”, destaca MM. Segundo o ex-prefeito, o grande desafio para o gestor municipal é colaborar para a criação de um círculo virtuoso, capaz de proporcionar à população bons serviços públicos e mais oportunidades de emprego e renda. Reeleito para o segundo mandato, Marcos Montes renunciou ao cargo em agosto de 2004, para assumir o comando da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes de Minas Gerais. Durante cinco meses, o vice, Odo Adão, comandou a Prefeitura de Uberaba.
No ano seguinte, o ex-ministro dos Transportes do governo Lula, Anderson Adauto, filiado ao PL, adentrou na Prefeitura de Uberaba como chefe do Executivo municipal, tendo ficado 8 anos no cargo. Durante os seus dois mandatos, Anderson destaca que se empenhou em abrir a cidade para novos investimentos e lembra que trabalhou para trazer a planta de amônia da Petrobras para cá, assim como o gasoduto. Os dois empreendimentos acabaram frustrados anos mais tarde e ainda hoje há expectativa de se tornarem realidade, um dia. No entanto, Anderson frisa que foi no governo dele que a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) deu seus primeiros passos. Uberaba foi uma das duas únicas cidades mineiras contempladas com ZPE, mas hoje só restou a nossa. Porém, o ex-prefeito frisa que projetos de grande envergadura como ZPE e gasoduto demandam tempo para viabilização e nem sempre é possível conquistá-los e executá-los no mesmo mandato. “Eu vou comparando o que aconteceu antes e o que aconteceu depois do meu governo, e não tenho dúvida de que a minha gestão foi positiva e o balanço, idem”, avalia.
Hoje, dedicado à iniciativa privada, o ex-ministro reforça que pretende voltar a disputar eleições. Mas, ao contrário da sua época como gestor público de Uberaba, Anderson acredita que hoje os prefeitos têm muitas dificuldades para se relacionarem com o governo federal: “Está muito difícil planejar uma cidade em sintonia com o presidente Bolsonaro, pois ele não gera a afinidade que precisa existir entre os gestores das várias instâncias do Estado brasileiro. Ao invés de trabalhar em conjunto com os governadores e prefeitos, ele prefere a provocação permanente. Prefeitos vão à capital e não conseguem ser recebidos por ele”, declarou.
Anderson terminou seu mandato em 31 de dezembro de 2012, quando estava filiado ao PMDB. Transferiu o cargo ao sucessor Paulo Piau, do mesmo partido, mas que não contou com seu apoio nas eleições. Paulo Piau governou Uberaba de 2013 até dezembro de 2020. Infelizmente, o ex-prefeito e também ex-deputado não respondeu às inúmeras tentativas de contato da reportagem, sendo assim não foi possível trazer a sua perspectiva analítica do desenvolvimento da cidade.
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO NA MIRA DOS EX-PREFEITOS
Não é possível falar em futuro próspero sem alicerces econômicos sólidos. Nesse aspecto, os três ex-prefeitos têm opinião convergente. Luiz Guaritá Neto, por exemplo, vê no setor de logística uma grande oportunidade para Uberaba atrair novos investimentos: “Uberaba é um grande polo distribuidor, seja de cerveja ou outros produtos. É importante destacar que a VLI, hoje, realiza um dos grandes sonhos de Uberaba e Minas Gerais, que é uma ligação direta ao mar (...) Nós criamos uma ligação com o mar, através da ferrovia, e esse projeto da VLI não é conhecido, mas é uma das principais alavancas para que Uberaba se torne um dos maiores polos logísticos do país” – aponta.
Marcos Montes, por sua vez, ressalta que o desenvolvimento de Uberaba será consequência da diversificação da economia, que deve ser perseguida diuturnamente pelas lideranças políticas e classistas da cidade. “A diversificação será capaz de gerar oportunidades de emprego e renda para a população em todos os setores, seja a indústria, o comércio, o agro e os serviços. O crescimento e o desenvolvimento econômico dependem de vários fatores nacionais e internacionais, que estimulam ou restringem os investimentos, mas Uberaba é uma cidade que tem uma grande vantagem para o futur ela está preparada para receber investimentos”.
Finalizando, Anderson Adauto chama a atenção para o fato de que o futuro de Uberaba deve ser analisado no contexto do país e do Estado. Por isso, ele aconselha: uma boa gestão municipal não pode perder nenhuma oportunidade. “Nós temos que torcer para que as coisas melhorem e o país entre no eixo”.