Excepcionalmente na segunda-feira. Construído por Frei Eugênio em 1856, o São Miguel foi um dos maiores do Brasil e deixou ossos no subsolo mesmo após a transferência dos sepultamentos

(Foto/Reprodução Uberaba em Fotos)
Neste dia de Finados, a história do antigo cemitério São Miguel, de Uberaba ajuda a compreender as transformações urbanas e os costumes funerários do município. Construído por Frei Eugênio, que chegou à cidade em 1856, o espaço ocupava uma área de aproximadamente 15 mil metros quadrados na região onde hoje está a praça que leva o nome do religioso. O local funcionou até a inauguração do Cemitério São João Batista, no fim do século XIX.
Segundo o historiador Guido Bilharinho, a construção do cemitério São Miguel ocorreu em um período no qual Uberaba ainda não contava com um espaço destinado especificamente aos sepultamentos nem com um hospital. Além de iniciar a implantação do cemitério, Frei Eugênio também esteve à frente da construção do hospital que deu origem à atual Santa Casa de Misericórdia. Para Bilharinho, o tamanho do antigo cemitério era expressivo para a época, sendo considerado um dos maiores do Brasil naquele período.
Antes de receber o cemitério, a área era utilizada como pastagem e ficava fora do perímetro urbano. Bilharinho também relata que, em 1848 ou 1849, alguns anos antes da implantação do espaço funerário, o local recebeu um cadafalso onde foram executados dois escravizados condenados pelo assassinato de seus senhores. Para realizar as execuções, teria sido convocado um carrasco de Ouro Preto.
A transferência dos sepultamentos para outro endereço ocorreu porque o antigo cemitério ficou próximo demais da região central, além de não oferecer condições para expansão. Assim, foi construído o Cemitério São João Batista, na Avenida da Saudade, em uma área que, naquele momento, ainda ficava distante da cidade. O historiador recorda que, mesmo durante sua infância, a região próxima ao atual Hospital Regional ainda tinha características rurais, com chácaras e pastagens.
Com a mudança, parte dos restos mortais foi transferida para o novo cemitério, mas a remoção não foi completa. De acordo com Bilharinho, ossos foram encontrados durante as obras de fundação do prédio do antigo Grupo Minas Gerais, construído na área onde funcionava o cemitério. A situação evidencia as dificuldades de retirar integralmente os restos mortais de um espaço funerário utilizado durante décadas.
Antes da criação do antigo cemitério São Miguel, os sepultamentos em Uberaba e na região ocorriam de diferentes maneiras, inclusive em campos e nas proximidades de igrejas. O historiador cita como exemplo a antiga prática de enterrar pessoas na entrada da igreja de Desemboque. Entre os sepultados naquele local estaria o Frei Hermógenes, posteriormente transferido para Sacramento, conforme o relato de Bilharinho.
A trajetória do antigo cemitério também revela como os espaços destinados aos mortos acompanharam o crescimento de Uberaba. O que antes ficava afastado do núcleo urbano acabou incorporado à região central, tornando necessária a transferência dos sepultamentos. Mais do que uma mudança de endereço, a história do local preserva parte da memória dos costumes, da ocupação territorial e do desenvolvimento da cidade ao longo do século XIX.