Presidente do Sindemu afirma que docentes regentes ficam sem orientação formal para conduzir situações de crise nas escolas
Um episódio envolvendo um aluno de 12 anos neurodivergente mobilizou equipes de emergência e a Polícia Militar na Escola Municipal Joubert de Carvalho, em Uberaba, e reacendeu o debate sobre a necessidade de protocolos claros para lidar com crises envolvendo alunos com transtornos neuroatípicos. Na ocasião, a direção da unidade informou que seguiu o fluxo de atendimento previsto para situações de urgência, com acolhimento do estudante, acionamento imediato da família e realizando encaminhamento para atendimento hospitalar. Entretanto, a presidente do Sindicato dos Educadores Municipais de Uberaba (Sindemu), Thaís Villa, avaliou que, embora a escola tenha agido corretamente, ainda faltam orientações oficiais da Secretaria Municipal de Educação (Semed) para professores regentes e equipes gestoras sobre como conduzir situações como essa.
No caso recente, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência foi acionado pela unidade escolar após a descompensação do aluno. Por representar um risco para ri e para os demais, o apoio da Polícia Militar foi solicitado, o que gerou estranheza nos familiares do aluno, que questionaram a ação. Apesar de avaliar que a escola agiu corretamente, em entrevista à Rádio JM, Thaís Villa destacou preocupações estruturais, como a ausência de uma cartilha ou protocolo oficial para orientar professores regentes e equipes gestoras sobre como agir em crises envolvendo alunos neurodivergentes.
Segundo ela, reuniões do setor especializado em educação inclusiva costumam envolver principalmente professores de apoio, enquanto docentes regentes ficam sem acesso às orientações, aumentando a insegurança das equipes escolares. “Hoje não existe esse tipo de orientação via materiais. Falta um protocolo mínimo, e quando ele não existe, cada um acaba agindo da forma que acredita ser correta, muitas vezes sem preparo, não por omissão, mas por falta de acesso a esse conhecimento”, afirmou.
Para a presidente do Sindemu, o profissional de apoio é fundamental não apenas no aspecto pedagógico, mas também na mediação de estímulos. “O papel desse profissional, nas escolas, com crianças com TEA ou outros transtornos neurodivergentes, é tanto pedagógico quanto de diálogo no dia a dia, já que a escola apresenta muitos estímulos. Para pessoas com sensibilidade a isso, o estímulo sensorial pode ser muito intenso”, destaca.
O Jornal da Manhã entrou em contato com a direção da Escola Municipal Joubert de Carvalho, que informou que, na manhã desta quinta-feira (5), após a crise, o estudante foi acolhido com o objetivo de garantir sua segurança, a dos colegas e dos servidores, e a família foi comunicada imediatamente, assim como o Samu, seguindo a orientação central para situações de urgência. "O procedimento segue o fluxo específico de atendimento estabelecido em conjunto com a rede de proteção, que inclui, além da Secretaria de Educação (Semed), o Ministério Público de Minas Gerais, o Conselho Tutelar e o Núcleo de Prevenção à Violência e Promoção da Paz (Nupaz). Ele foi encaminhado pelo Samu ao hospital e recebe o suporte da equipe da Seção de Atendimento ao Educando (SAE) da Semed, com psicólogos e assistentes sociais”, destacou a unidade.
A direção esclareceu ainda que o acionamento da Polícia Militar partiu do próprio Samu, seguindo protocolo padrão adotado em casos de pessoas em crise, com o objetivo de garantir a segurança do paciente, da equipe de saúde e de terceiros. A Secretaria de Educação e a prefeita Elisa Araújo, segundo a nota, estão em contato com a família, acompanhando o caso e oferecendo o suporte necessário.
Entenda o caso
Segundo boletim de ocorrência, o estudante passou por uma crise que resultou em danos ao patrimônio da escola e em situações de conflito com colegas, levando a direção a acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Conforme o registro policial, a mãe do menor estava no local e solicitou que apenas a equipe médica realizasse o atendimento. A equipe do Samu aplicou contenção técnica e medicação intramuscular, com apoio de policiais para garantir a segurança de todos. Após aproximadamente 40 minutos, o estudante foi estabilizado e encaminhado ao Hospital Regional, acompanhado da mãe.
O vice-diretor da escola relatou que a crise iniciou após uma professora chamar a atenção de três alunos por atraso. O estudante, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), causou danos a uma porta e a um extintor da unidade. Conforme relatório médico da escola, ele apresenta deficiência intelectual associada ao TEA e TDAH, com atraso global de desenvolvimento e de linguagem.