Pesquisa da Unifesp com camundongos identificou alterações comportamentais persistentes após episódios de consumo excessivo durante a adolescência
O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode provocar alterações comportamentais que permanecem até a vida adulta, segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), com apoio da FAPESP.
A pesquisa foi realizada com camundongos e simulou episódios de consumo excessivo de álcool, conhecidos como binge drinking. Os animais expostos à bebida durante a adolescência apresentaram, na fase adulta, alterações relacionadas principalmente à tomada de decisões e à disposição para assumir riscos.
Os resultados deram origem a dois artigos científicos, publicados nas revistas Alcohol: Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.
De acordo com a pesquisadora Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, o cérebro humano ainda está em processo de desenvolvimento durante a adolescência.
Uma das regiões que amadurece mais tarde é o córtex pré-frontal, relacionado a funções como tomada de decisões e controle dos impulsos. Segundo a pesquisadora, essa região e outras estruturas envolvidas nesses processos podem completar seu desenvolvimento apenas por volta dos 25 anos.
Para investigar os possíveis efeitos do álcool durante essa fase, os pesquisadores administraram doses da substância aos camundongos durante diferentes períodos da adolescência.
Nos animais, essa fase dura aproximadamente de três a quatro semanas, começando após o desmame e terminando por volta dos 60 dias de vida.
Os pesquisadores aplicaram quatro doses de álcool durante a adolescência dos animais, em um protocolo desenvolvido para simular episódios repetidos de intoxicação.
Quando o álcool foi administrado no início da adolescência, os camundongos machos apresentaram comportamentos de risco mais intensos na vida adulta. O mesmo efeito não foi observado nas fêmeas.
Por outro lado, as fêmeas expostas ao álcool nessa fase apresentaram maior consumo da bebida na vida adulta quando tiveram acesso ao álcool novamente.
Nos animais que receberam álcool durante a fase final da adolescência, tanto machos quanto fêmeas apresentaram aumento de comportamentos de risco na idade adulta.
Segundo os pesquisadores, os resultados sugerem que o consumo excessivo de álcool durante períodos de desenvolvimento cerebral pode interferir no processo de maturação das regiões relacionadas ao controle de impulsos e à tomada de decisões.
A pesquisa também identificou diferenças nos efeitos observados entre os sexos, principalmente quando a exposição ocorreu no início da adolescência.
Inicialmente, os pesquisadores levantaram a hipótese de que a diferença poderia estar relacionada ao ritmo de maturação cerebral, já que o desenvolvimento do cérebro das fêmeas ocorre um pouco antes do dos machos.
No entanto, os resultados obtidos com os animais expostos ao álcool no final da adolescência não confirmaram essa explicação. Nessa fase, os efeitos sobre o comportamento de risco apareceram nos dois sexos.
Os pesquisadores afirmam que ainda são necessários estudos para entender melhor os mecanismos responsáveis por essas diferenças.
O grupo também investigou os efeitos do consumo excessivo de álcool em camundongos em uma idade correspondente, em termos de desenvolvimento, ao início da vida adulta humana.
Os resultados também apontaram alterações no comportamento de risco.
Segundo Karina Abrahão, estudos anteriores indicam que o álcool também pode provocar prejuízos em adultos, mas os impactos tendem a ser menores conforme o cérebro amadurece.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados do estudo não significam que os mesmos efeitos ocorram da mesma forma em seres humanos, já que os experimentos foram realizados em animais. A pesquisa busca contribuir para a compreensão de como a exposição ao álcool durante períodos de desenvolvimento pode afetar o comportamento posteriormente.
No Brasil, a venda e o fornecimento de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos são proibidos.