Rodrigo Silveira afirma que a forma de lidar com dinheiro carrega marcas emocionais da infância e pode virar fonte constante de tensão no casal
Conflitos relacionados a questões financeiras estão entre os principais fatores de desgaste em relacionamentos amorosos, inclusive entre casais juntos há muitos anos. De acordo com o psicanalista Rodrigo Silveira, o relacionamento com o dinheiro carrega significados emocionais profundos, construídos ainda na infância.
“Se a gente for buscar a raiz inconsciente da relação que a gente tem com o dinheiro, também está lá na infância, também está lá naquela fase em que a criança está aprendendo a fazer o cocô, a segurar ou a soltar. Se a pessoa é estimulada, por exemplo, na fase anal, com algo como 'parabéns, você conseguiu', ela vai ter uma boa relação com o dinheiro na vida adulta, ela vai ter mais propensão também a fazer as suas coisas com mais tranquilidade”, explica o psicanalista.
Silveira ainda pontua que o inverso impacta igualmente a pessoa em desenvolvimento. "Se você é desestimulado com 'que feio', você vai ficar mais com essa tensão, com essa sensação. Você, na vida adulta, provavelmente, vai viajar e não vai conseguir fazer cocô fora de casa", acrescenta, explicando que permanece a sensação de aperto na vida adulta.
De acordo com Rodrigo Silveira, esse período inicial está ligado ao aprendizado de controle, limites e autonomia, aspectos que se refletem posteriormente na vida adulta, inclusive na forma de administrar recursos financeiros. “Essas vivências iniciais influenciam a maneira como a pessoa lida com retenção, segurança e disponibilidade, o que pode se refletir em dificuldades financeiras na vida adulta”, pontua.
E o dinheiro pode estar no centro de muitos conflitos conjugais. Segundo Rodrigo Silveira, muitos casais procuram a terapia não somente por conflitos emocionais, mas por dificuldades em lidar com finanças. Entre os principais problemas estão a falta de diálogo sobre ganhos, gastos, expectativas e projetos futuros.
“Há casais que não conseguem compartilhar quanto ganham, quanto gastam ou quais são seus planos. Isso gera tensão e compromete o relacionamento”, afirma.
Conforme o especialista, embora o amor seja um sentimento que sustenta os vínculos, questões financeiras mal resolvidas acabam se tornando um fator constante de desgaste. A dificuldade em alinhar expectativas e responsabilidades pode, inclusive, inviabilizar a convivência.
Rodrigo Silveira destaca ainda que a terapia oferece um espaço de escuta e compreensão, permitindo que o indivíduo desenvolva autoconhecimento e transforme, gradualmente, sua maneira de se relacionar com o dinheiro e com o outro.
“Quando a pessoa busca entender seus sentimentos e como se coloca no mundo, amplia também as chances de transformar sua relação com o dinheiro e com os vínculos afetivos”, completa.