Uma professora aposentada da rede estadual de ensino de Minas Gerais denuncia ser vítima de descontos indevidos em suas folhas de pagamento desde julho de 2022. De acordo com o relato de Maria Ângela Soares, de 77 anos, os abatimentos são referentes a um empréstimo consignado junto ao Banco Master — instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro, apontado pelas autoridades como personagem central do que é considerado o maior escândalo financeiro da história do Brasil. A idosa afirma, contudo, que jamais contratou qualquer serviço ou entrou em contato com a instituição.
Até o mês de abril de 2026, o total descontado dos vencimentos da aposentada já somava R$ 20.877,65. Segundo ela, os valores retidos mensalmente não seguem um padrão fixo e variam de R$ 149 a R$ 549. Maria Ângela, que dedicou cerca de 40 anos ao magistério estadual, relata que percebeu as cobranças tardiamente, após a repercussão pública das investigações envolvendo o banco.
"O desconto vem mensalmente, sem número da parcela. Então, não sei o tempo que vai durar isso. So aparece: 'Desconto do Master'. Eu não pegava o extrato todo mês, então, quando deu o escândalo, fui olhar no meu contracheque e vi esse valor absurdo. A cada mês o valor muda, vai aumentando. É muito dinheiro", afirma Maria Ângela.
Tentativas de cancelamento
A aposentada relata que recebe dois benefícios e que os descontos ocorrem diretamente na folha gerida pelo governo estadual. Ao tentar solucionar o problema administrativamente para interromper as cobranças e reaver os valores, Maria Ângela afirma ter encontrado resistência por parte dos canais oficiais.
"Eu liguei para a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais (Seplag-MG) para suspender e disseram que não podiam. Eu comecei a mexer com o estado em fevereiro deste ano e eles me deram uma resposta brava falando que, se eu fosse apelar, teria consequência. O sentimento é de usurpação, estão me passando a perna e o estado está conivente", desabafa a professora aposentada, que agora recorre a vias judiciais por meio de um advogada.
A reportagem entrou em contato com o governo de Minas Gerais, por meio da Seplag-MG, para solicitar esclarecimentos sobre o caso e a resposta enviada à servidora, mas o retorno não havia sido enviado até a publicação desta matéria.
Problema estrutural e vazamento de dados
O caso reportado a O TEMPO reflete uma realidade que atinge milhares de beneficiários e servidores inativos no país. De acordo com Lillian Salgado, presidente do comitê técnico do Instituto Defesa Coletiva, a fragilidade do sistema financeiro e o mercado ilegal de informações pessoais alimentam a concessão de crédito irresponsável e fraudes bancárias.
"Infelizmente, esse caso é o de milhares de aposentados no nosso país. Com os vazamentos de dados, conseguem fazer as fraudes. Em processos estruturais, nós descobrimos que há o vazamento de dados que já foi noticiado; o compartilhamento de dados dos aposentados muitas vezes ocorre entre os próprios bancos", explica a especialista.
Lillian Salgado orienta que o primeiro passo para o consumidor é acompanhar minuciosamente o extrato histórico de pagamento mês a mês. Caso identifique irregularidades, a orientação é acionar órgãos de defesa do consumidor, o Banco Central e buscar a via judicial para obter liminares de suspensão dos descontos, além de pleitear danos materiais e morais.
O Instituto Defesa Coletiva atua em ações coletivas e estruturais para alterar o modelo de regulação do crédito consignado no Brasil. A entidade defende que valores depositados sem solicitação prévia sejam considerados "amostra grátis", isentando o consumidor de cobranças fraudulentas.
Recentemente, ações movidas pela entidade resultaram no bloqueio prévio de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para empréstimos, exigindo a identificação biométrica do cidadão para a liberação do crédito.
Fonte: O Tempo