Empresa cita restrição de crédito e concorrência digital, mas garante manutenção de todas as operações industriais e comerciais

Decisão da tradicional marca brasileira escancara crise no setor, pressionado por juros em alta, produtos chineses e avanço dos jogos virtuais (Foto/Divulgação)
A fabricante de brinquedos Estrela, uma das marcas mais tradicionais da infância brasileira, entrou com pedido de recuperação judicial por dificuldades financeiras em meio a pressões econômicas e mudanças no comportamento dos consumidores. A decisão da empresa foi motivada por restrições de crédito, aumento do custo de capital e a crescente concorrência com alternativas digitais no mercado de entretenimento.
Em comunicado ao mercado, a empresa informou que a medida ocorre diante da necessidade de reestruturar dívidas em um cenário marcado por desafios econômicos e setoriais. Para tranquilizar os consumidores, a dona de brinquedos clássicos garantiu que não paralisará suas atividades industriais, comerciais e administrativas. A marca ainda declarou que o atendimento a clientes, parceiros e fornecedores seguirá normalmente enquanto o passivo do grupo é reorganizado nos tribunais.
A notícia marca um novo capítulo para uma companhia que atravessou gerações e se tornou símbolo da infância no Brasil. Ao longo das décadas, a Estrela foi responsável por popularizar brinquedos e jogos que marcaram milhões de brasileiros, como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, além de bonecas, trens elétricos e outros produtos que se tornaram clássicos do mercado nacional.
Juros altos e crédito restrito ampliam dificuldades
A crise na Estrela reflete o cenário macroeconômico nacional de juros elevados, com a taxa Selic mantida em patamares restritivos nos últimos anos, situando-se hoje em 14,5%. Especialistas do mercado apontam que a dificuldade prolongada de crédito afetou recentemente outras grandes varejistas, como Toky e Casa&Vídeo, que também recorreram à proteção da Justiça. Companhias como Pão de Açúcar e Raízen, por outro lado, optaram pela negociação extrajudicial.
Além da adversidade financeira, os fabricantes de brinquedos lidam com a forte invasão de produtos importados. De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), o faturamento do setor em 2025 foi de R$ 10,39 bilhões, com a indústria nacional respondendo por pouco mais da metade (53%) desse volume. Atualmente, os artigos chineses dominam 72% das importações da categoria no país.
A proteção do setor é vital para a economia de base, já que a produção de brinquedos emprega 39 mil trabalhadores no Brasil, além de manter 4.913 terceirizados. O Banco Central (BC) tem sido cauteloso no corte dos juros devido à escalada da inflação e à alta do petróleo motivada pela guerra no Irã, fator que prolonga a incerteza e o ambiente hostil para a reestruturação da indústria nacional.
Fonte: O Tempo.