Falta de lubrificação natural no inverno pode agravar a síndrome do olho seco; especialista alerta para riscos de lesões irreversíveis e dá dicas de prevenção
Com a chegada do inverno, as atenções da população costumam se voltar para o aumento das doenças respiratórias. No entanto, um perigo silencioso ronda a saúde neste período: o impacto severo da baixa umidade do ar nos olhos. A combinação de clima seco, poluição concentrada, uso intensivo de telas e ambientes com ar-condicionado tem provocado um aumento expressivo nas queixas de desconforto ocular. O alerta vem de especialistas, que apontam riscos que vão desde o incômodo diário até infecções graves com potencial de comprometer a visão de forma definitiva.
A explicação para o mal-estar típico dos dias frios está na biologia do corpo humano em contato com o ambiente. Segundo o oftalmologista Luiz Carlos Molinari, cooperado da Unimed-BH, a baixa umidade do ar interfere diretamente na qualidade e na quantidade do filme lacrimal. Sem a hidratação adequada, os olhos perdem sua barreira de proteção natural. “A baixa umidade compromete a lubrificação ocular, provocando sintomas como vermelhidão, coceira, ardência, sensação de areia nos olhos e até embaçamento visual, especialmente no fim do dia”, explica o médico.
Ameaça ampliada pelas telas e o perigo da automedicação
O cenário, que já é desafiador devido ao clima estacional, ganha contornos mais preocupantes devido aos hábitos modernos. O uso prolongado de smartphones, computadores e televisores atua como um catalisador do ressecamento. Quando estamos concentrados diante das telas digitais, o reflexo de piscar diminui drasticamente. Essa redução na frequência das piscadas acelera a evaporação da lágrima, deixando a superfície ocular desprotegida.
Diante do incômodo constante, muitos pacientes cometem o erro de recorrer à automedicação. A facilidade para comprar colírios lubrificantes sem receita esconde perigos severos. Molinari adverte que o uso indiscriminado dessas substâncias pode piorar o quadro em vez de aliviá-lo. “Alguns colírios contêm conservantes que podem causar reações alérgicas ou agravar o ressecamento.
O uso excessivo pode levar à dependência e dificultar a lubrificação natural dos olhos”, afirma o especialista.
Grupos de risco e lesões irreversíveis
Embora o ar seco afete a população de forma geral, crianças e idosos exigem atenção redobrada. No caso dos pequenos, o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Já na terceira idade, a presença de condições preexistentes costuma reduzir naturalmente a produção de lágrimas. Ambos os grupos ficam, portanto, mais suscetíveis à desidratação e a infecções na região dos olhos.
O grande perigo, segundo o oftalmologista, é negligenciar esses sintomas. Casos que não recebem o tratamento adequado podem evoluir para patologias severas na córnea, a camada transparente e vital que recobre o olho. Complicações como ceratites e úlceras de córnea podem surgir, trazendo o risco iminente de perda da visão. “Quando a córnea é comprometida, pode haver danos irreversíveis”, pontua o médico.
O avanço da conjuntivite no inverno
Além da síndrome do olho seco, o inverno - característico pelo clima seco e escassez de chuvas - propicia o cenário ideal para surtos de conjuntivite, inflamação da membrana que reveste a parte branca dos olhos e o interior das pálpebras. A falta de umidade faz com que os poluentes fiquem suspensos no ar por mais tempo, irritando os olhos e facilitando a ação de agentes infecciosos.
Nesta época, a doença se manifesta principalmente de duas formas:
Conjuntivite viral: Frequentemente causada pelo adenovírus, destaca-se pelo alto poder de contágio. Costuma começar em um dos olhos e rapidamente atinge o outro. Os sintomas incluem vermelhidão, lacrimejamento excessivo, sensibilidade à luz (fotofobia) e secreção aquosa, podendo vir acompanhada de ínguas perto do ouvido e sintomas respiratórios.
Conjuntivite alérgica: Não é contagiosa e decorre da exposição a alérgenos como poeira, ácaros e pelos de animais, que se concentram no ar seco. Atinge os dois olhos simultaneamente, provocando coceira intensa, inchaço nas pálpebras e secreção clara, afetando principalmente pessoas que já sofrem de rinite alérgica.
Luiz Carlos Molinari reforça que, embora os sintomas iniciais sejam parecidos, os tratamentos são totalmente distintos. Enquanto a conjuntivite viral costuma se resolver de forma espontânea em até duas semanas (demandando apenas cuidados de higiene), a alérgica necessita de anti-histamínicos e controle ambiental para evitar novos episódios.
Guia Prático: como proteger os olhos no tempo seco
A boa notícia é que atitudes simples no dia a dia podem prevenir os efeitos nocivos da baixa umidade. Confira as principais orientações do especialista da Unimed-BH:
Consulte o médico: Não hesite em procurar um oftalmologista regularmente, especialmente se os sintomas persistirem.
Fonte: O Tempo