Quando o ano começou, o mercado da carne de porco estava sorrindo de orelha a orelha. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) previa para 2026 um crescimento de 2,5% no consumo per capita da proteína - cerca de 19,5 kg por habitante ao ano. O setor não previu, no entanto, que um conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã jogaria um balde de água fria nesse otimismo.
O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo produzido no mundo, fez com que o preço dos combustíveis aumentasse em diversas partes do mundo - incluindo o Brasil.
“A alta no diesel pode impactar os custos da produção. Além disso, boa parte dos fertilizantes é importada. Ainda não sentimos um impacto real, mas se o conflito se prolongar, pode ser que o resultado não seja tão positivo quanto se esperava. Os produtores estão cautelosos”, explica Nathália Rabelo, analista de agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Sistema Faemg Senar).
O preço dos combustíveis em Belo Horizonte e região continua a subir em meio às tensões no Oriente Médio que pressionam o preço do petróleo. O site de pesquisas Mercado Mineiro, em parceria com o aplicativo comOferta.com, divulgou uma pesquisa revelando que o preço do diesel aumentou 6,44% em pouco mais de um mês. O levantamento foi feito em 198 postos de BH.
A alta do diesel preocupa um estado que concentra cerca de 12.290 estabelecimentos produtores de carne suína - a maioria concentrada na região do Triângulo Mineiro. “No ano passado, nossa produção foi de 678 mil toneladas, uma alta de 11% em relação às 609 mil toneladas de 2024. Ainda não há uma estimativa de quais seriam os números caso a guerra persista”, diz Nathália.
Se o conflito no Oriente Médio ainda não afetou o campo, o mesmo não se pode dizer da indústria. É o caso da Frimesa, uma das principais empresas voltadas à suinocultura no Brasil, que já viu o valor dos seus produtos subir cerca de 3% após a disparada do preço do petróleo. O combustível é matéria-prima crucial para a cadeia de plástico, usado em embalagens dos produtos da empresa.
"Os fretes já aumentaram 7% e representam 6% da nossa matriz de custos. Isso significa 0,5% no valor para o consumidor final. Nós também usamos muito plástico e a embalagem teve aumento de 25%. Ela representa 10% da nossa matriz de custos. O impacto direto no preço final é de 2,5%. Ou seja, eu tenho de aumentar os preços em 3% só para cobrir o efeito da guerra”, diz Elias José Zydek, presidente da Frimesa.
Já a ABPA estima que a alta do diesel elevou em até 20% os fretes rodoviários do setor, incluindo desde o transporte de insumos até a distribuição do produto no mercado interno. Além disso, diz que embalagens plásticas registram aumento de até 30%.
"Frente a este quadro, é possível que ocorram nos próximos dias repasses aos preços para o consumidor carne suína", afirma a associação. Caso isso se concretize, a proteína vai interromper sua trajetória de queda no último ano. Isso porque a carne de porco registrou diminuição de 1,21% no preço no último mês e de 1,62% no acumulado de 12 meses.
Mão de obra também é um desafio
Com sede em Patos de Minas, na região do Alto Paranaíba, a Suinco também já sentiu no bolso os impactos da guerra. Maior cooperativa processadora de carne suína de Minas Gerais, a empresa trabalha com produtos in natura e embutidos, como presuntaria, cortes temperados e linguiça (que representam 75% da operação).
“O aumento do diesel impacta no frete e torna o produto final mais caro. Nossa operação logística é feita por terceirizados, que já subiram o valor do transporte. Decidimos que a partir de abril já vamos ajustar os preços também, para não ficar no prejuízo”, explica Bruno César, gerente comercial da Suinco.
O conflito internacional, no entanto, não é o único desafio enfrentado pela empresa. Assim como acontece em outros setores, como o de supermercados, a cooperativa também enfrenta dificuldades em contratar e manter funcionários - o que compromete a capacidade de expandir as operações e, consequentemente, aumentar o faturamento.
“O potencial para crescermos existe, mas a dificuldade em contratar mão de obra trava esse processo. Temos cerca de 1500 colaboradores, mas o ideal seria ter mais 150 para completar o time. Tanto que, em 2025, nosso crescimento foi tímido em relação a 2024”, diz.
A cooperativa encerrou o ano passado com cerca de 55 mil toneladas produzidas. Para 2026, apesar das dificuldades, a empresa espera crescer cerca de 10% em relação ao ano passado.
Snacks ganham mercado
Na contramão de quem prevê estagnação ou até perdas por conta do atual momento, a Rudolph Snacks, empresa brasileira do Grupo Rudolph Foods Company, está confiante no mercado. O negócio atende cerca de 30 clientes, que adquirem os torresmos e pururucas prontos para o consumo e vendem em embalagens e marcas personalizadas.
“A empresa cresceu 27% entre 2024 e 2025. Projetamos aumento de vendas de 23% em 2026. Esse ano conta com mais feriados e Copa do Mundo, momentos que favorecem o consumo de produtos práticos e que são associados a momentos de confraternização”, aponta Raphael Guedes Mattos, gerente comercial da Rudolph Snacks no Brasil.
*Com Felipe Mendes/Gabriela Cecchin/Folhapress
Fonte: O Tempo.