COMPORTAMENTO

Colecionismo: o que explica o desejo de colecionar objetos e até quando a prática é saudável

Mineiro conta como vem construindo, ao longo de mais de 60 anos, sua ‘coleção natalina’, e especialista explica benefícios e riscos associados ao comportamento

O Tempo/Alex Bessas
Publicado em 19/12/2024 às 08:51
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O advogado Marcelo Braga e sua coleção de itens natalinos, a qual se dedica há 60 anos (Foto: Flávio Tavares/O Tempo)

Todo dia é Natal na casa do advogado Marcelo Braga, 68. Ou, pelo menos, em um dos cômodos do imóvel, destinado exclusivamente à salvaguarda de uma ampla coleção de itens natalinos. São presépios, piscas-piscas, árvores, caixinhas de música e outros tantos ornamentos, colecionados há mais de 60 anos. “Isso vem de muito tempo, desde que eu era criança. Começou com as reuniões que a gente fazia na casa da minha avó, na rua Congonhas, no Santo Antônio, quando a família toda se reunia para fazer os enfeites, armar o presépio. Meus tios faziam desenhos, que a gente colava nas cômodas, nas paredes. E, com uns 7 anos, comecei a guardar essas coisas”, relembra. 

À época, recorda ele, esses encontros familiares nesse período do ano eram comuns na cidade, quando muitos enfeites e cartões de Natal eram “fabricados” artesanalmente, a muitas mãos. “Até hoje tenho alguns desses itens. Como um desenho que tem o Papai Noel à frente e, atrás, o meu nome e o da minha irmã, Elaine. Desse eu fiz um pôster, que coloco na parede todo ano”, cita, informando que outros tantos cartões feitos nessas reuniões ou recebidos de outras pessoas viraram quadrinhos. 

Por que começou essa coleção? Pesaram, no caso dele, aspectos afetivos e o cuidado com a preservação da memória. O que não significa que, para outros colecionadores, a motivação seja a mesma. É o que explica a psicóloga e psicanalista Camila Fardin Grasseli, para quem colecionar é um ato extremamente individual. “Não existe uma generalização do porquê de as pessoas colecionarem. Cada um se envolve com a coleção de forma completamente distinta, porque todo e qualquer objeto pode ser colecionável”, considera. 

“Mas há um fato importante: existe sempre uma ligação afetiva com a coleção. E um colecionador nunca visa ao lucro – que pode acontecer, mas não é um objetivo de uma coleção”, pontua. 

De fato, no caso de Marcelo, não há nenhuma pretensão de fazer dinheiro com os objetos natalinos colecionados. Tanto que os que deixam de fazer sentido em seu acervo ele “passa para frente”, sem cerimônia. “Dou de presente”, resume. 

O advogado, como muitos colecionadores, não sabe ao certo em que momento os objetos de Natal passaram a ser encarados por ele como uma coleção, exigindo um metódico trabalho de seleção e conservação. Só sabe que, com o tempo, foi tomando gosto e, diante da fragilidade de alguns itens, entendendo que precisava adotar uma série de cuidados. “Os objetos que não quebram são mais fáceis, coloco em caixas. Os que quebram embrulho um a um em plástico-bolha”, menciona. Já os que se desgastam, como ele indicou, ganham molduras, que garantem sua preservação. 

Conhecimento 

O acervo de Marcelo Braga reúne uma árvore maior e quatro menores. E ele ainda enfeita um arbusto de verdade que tem em sua casa. Já o número de presépios é mais impressionante: são cerca de cem.

“Quem contou foi um amigo meu, mas acho que não é exagero dele, não”, diz, detalhando que tem exemplares de diferentes dimensões, feitos a partir de diversas matérias-primas e originários dos mais distintos lugares. “Alguns são bem pequenos, outros maiores, com peças de até 50 cm. As imagens são feitas de todo tipo de material, do papel ao chumbo, passando pela madeira e pelo gesso. E são de vários estilos. Tem presépio esquimó, alemão, russo… Porque sempre que amigos viajam eles trazem alguma coisa que encontram para mim”, detalha, inteirando que monta todos quando é época de Natal, como agora. 

“Na tradição mesmo, o certo é montar no dia 8 de dezembro, sem o Menino Jesus, que só deveria ser colocado do dia 24 para o dia 25. E os Três Reis Magos só chegariam no dia 6 de janeiro, com tudo sendo desmontado no dia 7”, aponta Marcelo, que, com tantos exemplares, não pode se dar ao luxo de seguir toda essa liturgia. Na casa dele, a montagem das peças começa por volta de 15 de novembro e se estende até a metade de janeiro. Só para colocar tudo no lugar são 20 dias. Outros 20 são gastos desmontando. “Minha esposa, a Maria de Fátima, é bem compreensiva, porque faz uma bagunça…”, brinca Marcelo, que faz todo esse trabalho de ornamentação praticamente sozinho. 

Todo esse esforço se converte, também, em conhecimento. Tanto que, para o advogado, o Natal não é apenas um feriado cristão celebrado homogeneamente em muitos lugares. “Existem muitas particularidades. Na Itália, por exemplo, existe uma bruxinha que também deixa presentes para as pessoas. Então, não é só o Papai Noel”, diz. E, mesmo sobre o Bom Velhinho, ele aponta que diferentes locais tratam o mito de diferentes formas. “A origem mais comum é a de são Nicolau, depois apropriada e popularizada pela Coca-Cola. Mas há variações”, pondera. 

Todo esse saber provavelmente não viria sem o contato com tantos objetos natalinos. O que só demonstra que, quando se trata de uma prática saudável, o colecionismo pode trazer benefícios. “Algumas pessoas vão dizer que há um exercício de memória, sabendo exatamente onde está aquele patinho de borracha, aquele selo específico, contando a história de cada um daqueles objetos que fazem parte da sua coleção. Também podem desenvolver a paciência, porque construir uma coleção é um exercício que exige décadas”, avalia Camila Fardin. Ela menciona que, além disso, os colecionadores tendem a criar técnicas para classificar, guardar e condicionar seus itens – métodos de organização que podem ser replicados a outras esferas da vida. 

Quando vira um problema 

Marcelo Braga é cauteloso na lida com os objetos de sua coleção. De maneira alguma quer simplesmente entulhar objetos. E, para isso, tem seus critérios de seleção. “Minha coleção continua crescendo, mas sou bastante seletivo. Então alguns eu ganho, outros compro. Muitos, passo para a frente. Os que guardo cumprem alguns pré-requisitos, como originalidade, qualidade das peças, material usado e ano de fabricação, dando preferência aos mais antigos”, esmiúça. 

O cuidado, de fato, é essencial para que a prática não se torne problemática. “Podemos dizer que, sim, todas as pessoas têm alguns objetos de apego. Mas isso é bem diferente de ser um acumulador”, assegura Jacqueline Moreno, pedagoga e consultora de organização em ambientes residenciais e empresariais, que faz atendimentos em parceria com a psicóloga Simone Felipe, especialista em terapia cognitivo-comportamental.

A profissional da organização observa que, na sociedade moderna, baseada no consumismo, grande parte das pessoas adquire muito; mas, para a maioria, não é difícil gerenciar essas posses. “A pessoa afetada pelo transtorno de acúmulo, por outro lado, fica angustiada só de imaginar se desfazer de seus itens. Isso vai lhe parecer insuportável”, diferencia.

Transtorno 

O transtorno de acumulação compulsiva já se encontra classificado na última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), sendo identificado como uma dificuldade persistente de se desfazer ou se afastar de posses materiais devido a uma necessidade imaginária de poupá-las. Trocando em miúdos, os chamados “acumuladores” são pessoas que têm muita dificuldade de resistir à aquisição e guardam uma quantidade excessiva de itens. “É como se perdessem o controle sobre seus pertences e passassem a ser controladas por eles”, resume Jacqueline. 

“O acúmulo se torna um problema quando começa a afetar a qualidade de vida do indivíduo e, também, suas relações afetivas, familiares e/ou profissionais. Eles começam a lotar os espaços, às vezes compram excessivamente (até mesmo além de suas possibilidades financeiras), afastam-se das pessoas, não recebem visitas e comprometem a sua segurança com o excesso de itens adquiridos e com a falta de cuidado com a manutenção da casa. É muito comum que alguns familiares passem a não suportar a convivência com eles, o que aumenta o isolamento em que vivem”, analisa Simone. 

Identificando e tratando 

Tanto familiares e pessoas próximas quanto um profissional da organização podem identificar o problema e avaliar o grau de acúmulo, mas o diagnóstico do quadro de saúde só pode ser conferido por um médico psiquiatra. Na maioria das vezes, quem reconhece o problema e procura ajuda são pessoas próximas, pois costuma ser difícil que o sujeito afetado pelo transtorno de acumulação busque algum auxílio por iniciativa própria – muitos não compreendem a gravidade desse comportamento, observa Jacqueline Moreno. 

O tratamento ideal do transtorno, indica, inclui uma combinação de esforços. “O psicólogo, por um lado, está apto a lidar com questões emocionais, fatores de personalidade e outras questões subjetivas. Por meio de intervenção terapêutica, esse profissional pode contribuir para o desenvolvimento de formas de lidar com problemas específicos que tenham motivado a acumulação”, sinaliza, salientando que psiquiatras podem receitar medicações. 

“Já o personal organizer entra na casa e no ambiente da pessoa e pode avaliar, de forma objetiva, a proporção da desordem, as possíveis obstruções e a presença de riscos. Além disso, ajudará a pessoa afetada pelo transtorno a identificar o melhor sistema de organização e desenvolverá o trabalho de organização junto desse sujeito”, completa.

Fonte: O Tempo 

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