
O aplicativo trabalha com um algoritmo inteligente que lê os sinais do próprio corpo de cada mulher (Foto/Divulgação/ Natural Cycles)
As mulheres brasileiras passam a ter uma nova opção de prevenção à gravidez que não usa hormônios. O aplicativo Natural Cycles, que já é muito utilizado nos Estados Unidos e na Europa, será lançado oficialmente na próxima semana no Brasil.
A novidade chega ao país com o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). A tecnologia está sendo apresentada a médicos e especialistas no 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO 2026), que está acontecendo em Belo Horizonte (MG).
Conforme a Natural Cycles, para operar no mercado nacional, o sistema foi totalmente adaptado: o aplicativo está em português e o pagamento é feito em real. O uso é indicado para mulheres a partir de 18 anos.
Entenda a diferença: monitoramento menstrual x contracepção digital
A Febrasgo publicou recentemente um documento para orientar médicos e pacientes sobre o uso de tecnologias ligadas à fertilidade. A entidade alerta que é preciso separar as ferramentas em duas categorias bem diferentes:
Aplicativos de monitoramento: Servem apenas como um diário para anotar as datas da menstruação. Eles não têm testes científicos e não servem para evitar a gravidez.
Dispositivos médicos digitais: São programas desenvolvidos, testados em laboratório e aprovados por órgãos de saúde especificamente para funcionar como um método anticoncepcional.
Até o momento, o Natural Cycles é o único aplicativo que possui essa aprovação de dispositivo médico contraceptivo no Brasil, concedida pela Anvisa em março de 2025.
"Quando falamos de contracepção digital, não estamos falando apenas de tecnologia, mas de uma mudança importante na forma como informação, ciência e autonomia chegam à prática clínica. O Brasil ainda está começando essa conversa, e nosso papel é contribuir com dados, transparência e segurança para que médicos e pacientes entendam exatamente o que diferencia um contraceptivo digital regulado de um aplicativo de acompanhamento de ciclo", afirma Taurã Figueiredo, country manager da Natural Cycles no Brasil.
Na prática: como o aplicativo funciona?
Ao contrário das tabelinhas tradicionais, que usam cálculos matemáticos fixos e iguais para todo mundo, este aplicativo trabalha com um algoritmo inteligente (um sistema de análise de dados) que lê os sinais do próprio corpo de cada mulher.
A rotina de uso funciona da seguinte forma:
A medição: A usuária mede a sua temperatura corporal assim que acorda (temperatura basal), usando um termômetro compatível ou relógios e pulseiras inteligentes (como Apple Watch, Oura Ring, Garmin Watch e o bracelete NCº Band). O sistema capta as variações térmicas até mesmo durante o sono.
O registro: Esses dados de temperatura e as informações sobre o ciclo menstrual são inseridos no app.
O resultado do dia: O sistema calcula o risco de gravidez para aquele dia e mostra uma cor na tela:
O método é seguro? Veja os índices de eficácia
Conforme a Natural Cycles, a eficácia do aplicativo foi testada em estudos com mais de 60 mil mulheres e os resultados mostram que o método é seguro, desde que as instruções sejam seguidas à risca. Os índices são divididos em dois cenários:
Para entender a comparação, a pílula anticoncepcional comum tem 99% de eficácia no uso perfeito (em laboratório). Porém, no uso típico do cotidiano, a pílula também cai para cerca de 93% de eficácia, por conta de esquecimentos, atrasos, uso de outros remédios ou episódios de vômito e diarreia, segundo dados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Além da Anvisa, o algoritmo do aplicativo é certificado pelo FDA (órgão de saúde dos Estados Unidos) e possui o selo CE Mark na Europa.
Origem da tecnologia e proteção de dados
A empresa surgiu em 2013, criada pelos físicos Elina Berglund Scherwitzl e Raoul Scherwitzl. A ideia nasceu quando a própria fundadora buscava um método anticoncepcional que não envolvesse hormônios e não fosse invasivo, decidindo usar a ciência de dados para criar a solução. Hoje, a plataforma já analisa mais de 20 milhões de ciclos de 6 milhões de usuárias em mais de 30 países.
Como o aplicativo lida com informações íntimas de saúde, as regras de segurança digital são rígidas. O sistema utiliza técnicas de criptografia e pseudonimização - que esconde a identidade real da usuária - para garantir que ninguém tenha acesso aos dados pessoais inseridos.
"No Brasil, o avanço dessa categoria vai depender menos de apresentar uma novidade tecnológica e mais de construir entendimento correto, segurança de mensagem e confiança clínica em torno de uma alternativa contraceptiva já validada internacionalmente e agora mais próxima da realidade brasileira", conclui Taurã Figueiredo.
Fonte: O Tempo.