INVESTIGAÇÃO

Créditos de carbono em terra pública inflaram ativos em R$ 45,5 bilhões no caso Master

Publicado em 16/01/2026 às 09:46
Compartilhar

Duas empresas no centro do caso Master tiveram seus ativos valorizados em mais de R$ 45,5 bilhões com base em milhões de supostos “créditos de estoque de carbono” originados em uma área pública da União, que não poderia servir de lastro para ativos privados.

Documentos mostram que Golden Green e Global Carbon, controladas por fundos geridos pela Reag — investigada pela Polícia Federal — promoveram reavaliações bilionárias apoiadas em auditorias e pareceres contábeis baseados no carbono estimado da chamada Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), com 143,9 milhões de hectares.

O problema é que a área pertence à União e é destinada à reforma agrária, o que impede sua exploração econômica privada. O Incra confirmou que se trata de terra pública arrecadada nos anos 1980 e afirmou que qualquer comercialização de ativos de carbono vinculados à região é irregular. “Os negócios são irregulares e causam danos à União”, disse a autarquia, que informou adotar medidas administrativas e judiciais.

Para evitar negociações, o Incra abriu processo de fiscalização, vetou o cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) e negou a certificação no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef), o que impede o reconhecimento da área como propriedade privada.

Apesar disso, auditorias e consultorias passaram a precificar e atualizar o valor dos chamados estoques de carbono sem registrar ressalvas sobre o litígio fundiário. As empresas alegam que o inventário de carbono foi feito pela Unesp, que estimou 168,8 milhões de toneladas de CO₂ na área, dado usado como base para a precificação.

Em 2020, a Ernst & Young foi contratada para verificar a metodologia de cálculo, definindo o valor unitário em R$ 129,30. Em 2022, a PwC chancelou aumento para R$ 149,56, avaliando o ativo da Golden Green em R$ 11,1 bilhões. Em 2024, a Crowe aprovou novo reajuste para R$ 197,49 por unidade, elevando o total a R$ 14,6 bilhões.

As auditorias não indicam a origem jurídica dos créditos, apenas aceitam o modelo contábil e o lastro em Créditos de Produto Rural (CPR) custodiados no exterior. Situação semelhante ocorre na Global Carbon, que saiu de capital social de R$ 100, em 2020, para valuation de R$ 31 bilhões em 2024.

Ambas as empresas utilizam a mesma área pública, localizada em região marcada por desmatamento e grilagem. A Golden Green tem como investidor o fundo Jade e a Global Carbon o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro.

Especialistas apontam ainda que não há preço de mercado que sustente os valores atribuídos. Crédito de carbono é certificado ligado à redução comprovada de emissões, enquanto “estoque de carbono” é apenas uma estimativa ambiental, sem garantia de negociação, comprador ou preço.

Em laudo de dezembro de 2024, o economista Marco Aurélio Hardt afirmou que sua avaliação se baseou em dados fornecidos pelas empresas e em balanços auditados. No caso da Golden Green, admitiu ter feito avaliação sem auditoria independente, alegando que a prática é permitida pelas normas da CVM.

A Golden Green não respondeu aos pedidos de entrevista. A Global Carbon reconheceu que a área é pública e afirmou ter comunicado o Incra em 2025, dizendo estar em negociação para regularizar os ativos ambientais. A defesa de Daniel Vorcaro negou vínculo com os fundos. A Reag afirmou que as empresas ainda não transformaram os ativos em receita e dependem de etapas técnicas e regulatórias.

A Ernst & Young declarou que realizou apenas checagem de fórmulas matemáticas, sem avaliar valores ou origem, e que não prestou serviços de auditoria. A PwC não se manifestou. A Crowe afirmou que atuou conforme normas nacionais e internacionais, com base nas evidências disponíveis à época.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por