O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou a testar uma nova estratégia de resolução de questões: os chamados testlets, blocos de perguntas que compartilham um mesmo texto-base. A tendência é que o formato continue presente nas próximas edições da prova.
A novidade apareceu pela primeira vez no Enem 2025 e surpreendeu muitos candidatos. Em vez de cada questão apresentar um texto próprio, um único material passou a servir como referência para responder várias perguntas em sequência.
Um levantamento realizado por Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações da Arco Educação, apontou que um bloco de cinco questões nesse formato teve taxa média de acerto de apenas 37%. O estudo considerou a classificação de dificuldade das perguntas pela Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia usada pelo Enem para calcular o desempenho dos participantes.
Segundo o levantamento, o baixo desempenho não estaria relacionado necessariamente à dificuldade das questões. No bloco analisado, havia uma questão considerada fácil e quatro de nível médio, sem itens classificados como difíceis ou muito difíceis. Mesmo assim, a média de acertos ficou abaixo do esperado.
Entre estudantes da rede privada, o índice chegou a aproximadamente 52%, enquanto entre alunos da rede pública ficou em torno de 33%.
Novo formato muda estratégia de prova
Embora o modelo de questões em bloco seja novidade no Enem, ele já é utilizado em outros vestibulares, como os da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Especialistas explicam que a mudança não altera os conteúdos cobrados, mas exige novas habilidades dos candidatos, como manter a concentração por mais tempo, interpretar informações de diferentes formas e administrar melhor o tempo de prova.
Para Daniel Reis, coordenador pedagógico do Estratégia Vestibulares, o formato pode até ajudar estudantes que saibam aproveitar o texto-base.
“Embora os textos sejam maiores do que os das questões isoladas, esse formato tem potencial para agilizar a resolução da prova, porque será necessário interpretar apenas um texto para responder várias questões”, explica.
A recomendação é ler primeiro os enunciados para entender quais informações procurar no texto-base, tornando a leitura mais direcionada.
Erros de interpretação podem comprometer várias questões
Uma das principais dificuldades do novo modelo é que um erro inicial pode prejudicar mais de uma resposta dentro do mesmo bloco.
Segundo Júlia Konofal, criadora de conteúdo educacional da edtech Kultivi, muitos estudantes tentam economizar tempo fazendo uma leitura rápida do texto.
“O erro mais comum é ler o texto-base correndo, achando que isso vai acelerar a prova. Se o candidato entende errado logo no início, esse deslize pode comprometer todas as questões daquele bloco, não só uma”, afirma.
Para Eduardo Dias, professor e mentor em estratégias de estudo, a principal mudança está na capacidade de manter o raciocínio por mais tempo.
“Antes, cada questão tinha começo, meio e fim. Agora há uma linha de raciocínio que se estende por um grupo de questões. O estudante precisa sustentar essa atenção e essa conexão por mais tempo”, explica.
Atenção vira uma das principais habilidades
Além do conhecimento dos conteúdos, os especialistas destacam que o Enem passa a exigir ainda mais resistência de leitura e concentração.
Eduardo Dias avalia que o hábito de consumir conteúdos rápidos nas redes sociais pode dificultar esse processo.
“Os alunos estão sendo treinados para trocar de assunto a cada segundo. O Enem pede exatamente o contrário: concentração sustentada”, afirma.
Para se adaptar ao novo formato, a recomendação é incluir textos longos na rotina de estudos, como reportagens, artigos e capítulos de livros, além de treinar com provas anteriores.
Entre as principais estratégias indicadas estão:
Com a mudança, especialistas avaliam que o Enem passa a valorizar não apenas quem domina conteúdos, mas também quem consegue interpretar, conectar informações e manter a atenção durante toda a prova.