Resoluções e objetivos de final de ano são debatidos por psicólogas que defendem a necessidade de se traçar objetivos alcançáveis no horizonte
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Em 2025, Nádia Vieira, de 56 anos, deseja “comprar um imóvel, um carro, ter uma casa própria e viajar com a família”. Aos 20 anos, a designer gráfica Sarah de Oliveira pretende “estudar muito, viajar e ter a família por perto, com saúde”. Cantora, Flávia Silvestre vai em busca de “autoconhecimento, de amar e perdoar mais, e não se incomodar com coisas pequenas”. Empregada doméstica, Devanilde da Silva, de 58 anos, reafirma sua crença ao preconizar que “tem gente que busca a felicidade em namoro e dinheiro, mas tudo isso é passageiro, só Jesus é eterno”.
Para o escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), autor do clássico “Grande Sertão: Veredas”, a alegria, uma das matérias-primas da felicidade, só acontecia “em raros momentos de distração”. Ao comentar a frase do escritor em entrevista ao programa de Antônio Abujamra, o também mineiro Rubem Alves (1933-2014) recuperou um poema de Bertolt Brecht (1898-1956), em que o dramaturgo alemão falava em “felicidades, no plural”, e enumerava banalidades cotidianas que o enchiam desse sentimento de plenitude, como tomar um banho quente ou, simplesmente, fazer xixi quando se está apertado para ir ao banheiro.
Realidade
A psicóloga e pesquisadora Aline Arantes destaca que uma questão importante ao se definir metas para o próximo ano é levar em conta as possibilidades de alcançá-las. “Comprar uma ilha particular pode ser possível para algumas pessoas, mas a probabilidade para a maioria é bem baixa. Portanto, dependendo da sua realidade, comprar uma ilha particular pode não ser tão realista assim. Quando a meta depende, em grande parte, da disponibilidade financeira, como fazer uma viagem, vale a pena calcular as despesas e receitas para saber quanto sobra ao final do mês. Assim, é possível determinar quanto pode ser economizado e qual porcentagem será destinada a cumprir a meta”, analisa Aline.
Já quando o objetivo está relacionado a um comportamento, como “reduzir o consumo de álcool, diminuir o tempo em telas ou aumentar o tempo de leitura”, Aline sugere “estabelecer pequenos passos e quantificar a meta”. “Quantas latas de cerveja ou taças de vinho você gostaria de beber? Qual seria o tempo máximo de telas por dia? Qual o tempo mínimo ou a quantidade de páginas de leitura desejável?”, exemplifica a especialista, que alerta para o fato de que “se a sua meta for muito ambiciosa, ou seja, muito diferente do que você já costuma fazer, maior será o risco de não realizá-la”. “E, se você não a realiza, isso impacta negativamente a crença que você tem em si mesmo e sua motivação para a mudança será menor, o que dificultará a realização”, pondera.
Controle
Psicanalista e escritora, Maria Luísa Lembrança concorda. Ela indica que uma maneira interessante de definir metas para chegar à felicidade é “pensar no que mais falta”. “Porque se a gente ficar pensando em tudo o que falta e tentar resolver tudo de uma vez, a gente acaba se embolando e muitas vezes não consegue resolver nem metade. Então, é pegar o que mais falta e diluir em tarefas menores para caber no nosso próprio ajuste e no que a gente dá conta realmente de fazer, para que a gente consiga obter, inclusive, a satisfação de, aos poucos, chegar ao nosso objetivo”, sustenta Maria Luísa, para quem a meta deve ser, preferencialmente, de “longo prazo”.
“Trabalhar com expectativas altas a curto prazo é obrigatoriamente frustrante”, salienta a psicanalista. O que, no entanto, “não significa deixar de lado as outras ambições”. “Mas entender que lidar com uma coisa de cada vez nos permite dar uma melhor atenção a cada uma delas”, complementa Maria Luísa. Segundo ela, outro ponto essencial nessa travessia é compreender que “nada está sob nosso controle”, e que pode ser muito provável a necessidade de desviar a rota e se adaptar às circunstâncias, o que exigirá jogo de cintura. “Obstáculos e desafios vão surgir na vida de todas as pessoas, não há como fugir disso. Ter essa consciência deve nos auxiliar a aprender a trabalhar justamente com nossa falta de controle”, salienta Maria Luísa.
Bem-estar
A psicóloga Aline Arantes observa que “um erro comum em nossa sociedade é separar mente e corpo, quando, na verdade, não existe bem-estar psicológico sem o bem-estar físico”. Por isso, investir em “uma alimentação equilibrada, exercícios físicos regulares e um sono de qualidade” é fundamental para uma sensação de bem-estar que, como consequência, propicie a felicidade. Aline recorre à chamada psicologia positiva, fundada por Martin Seligman, para aprofundar seu ponto de vista. O psicólogo montou um esquema que pressupõe cultivar emoções positivas, engajar-se ao presente, ter relações significativas, encontrar propósito e sentido na vida e alcançar conquistas que nos valorizem como alicerces para essa felicidade ideal.
“Ao combinar esses elementos com hábitos saudáveis, o bem-estar psicológico se torna mais acessível e sustentável”, corrobora Aline. A psicanalista Maria Luísa declara que “o foco no bem-estar traz resultados mais rápidos e tangíveis do que o foco na felicidade”, que, segundo ela, é “mais um estado de espírito do que uma condição inerente ao ser humano”. “Ninguém é feliz o tempo todo, mas, quando cuidamos do nosso bem-estar, caso as intempéries venham, e elas virão para todo mundo, estaremos mais preparados para lidar com as consequências e recuperar o foco”, arremata.
Escrita
A psicanalista Maria Luísa Lembrança estreia em 2025 como romancista, com “O Quartzo Rosa”. Aliás, ela conta que escrever é uma das melhores ferramentas para “monitorar o progresso em direção às metas de felicidade” que estabelecemos. “Seja por meio de um diário ou mesmo anotações informais, o essencial é formalizar esse pensamento”, opina. Ela revela que, hoje em dia, existem muitos aplicativos de celular específicos para esse tipo de demanda fundamental para “ao longo do ano, ir acompanhando esse passo a passo, comparando com como você estava no início e medindo essa eficiência”, avalia.
Maria Luísa assegura que “sem um registro mais formalizado, algumas informações e sentimentos acabam escorrendo pelas nossas mãos”. “A gente não consegue se lembrar de todos os detalhes, e, muitas vezes, algum progresso que foi grande parece ser menor, porque a gente não se lembra de tudo”, pontua. Ela defende que o registro é a maneira mais precisa de concretizar essas metas. “A escrita é muito utilizada, mas vai de cada pessoa, o jeito de registrar é individual, contudo é uma técnica eficiente de comparar e reconhecer o progresso das nossas metas”, finaliza Maria Luísa.
Fonte: O Tempo