Procedimento foi incorporado pelo Ministério da Saúde e poderá ser utilizado em pacientes com os dois problemas; oferta na rede pública deve começar em até 180 dias
Pacientes que têm catarata e glaucoma poderão, a partir de 2027, contar com uma cirurgia capaz de tratar as duas condições em uma única intervenção pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A incorporação foi oficializada pelo Ministério da Saúde em portaria publicada no Diário Oficial da União em 17 de setembro. A pasta terá até 180 dias para efetivar a oferta do procedimento na rede pública.
A nova opção será destinada a pacientes com catarata e glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) com dano inicial ou moderado, desde que a doença esteja controlada com o uso de colírios.
A técnica combina a cirurgia convencional da catarata com um procedimento para melhorar a drenagem do líquido dentro do olho e, consequentemente, ajudar no controle da pressão intraocular.
Para tratar a catarata, é realizada a facoemulsificação, procedimento no qual o cristalino que ficou opaco é fragmentado e retirado por uma pequena abertura. Em seguida, uma lente intraocular artificial é colocada no lugar.
Durante a mesma cirurgia, o glaucoma poderá ser tratado por uma de duas técnicas incorporadas:
Goniotomia excisional: uma pequena incisão é feita na córnea para retirar parte do tecido que dificulta a drenagem do líquido do olho;
Trabeculotomia transluminal: um microcateter ou fio cirúrgico é introduzido no canal natural de drenagem para ampliar a passagem do líquido.
A escolha da técnica depende das características do olho e da avaliação médica.
A Conitec avaliou a realização dessas técnicas em conjunto com a cirurgia de catarata para pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto leve a moderado.
A incorporação não significa que qualquer pessoa com catarata ou glaucoma poderá realizar automaticamente a cirurgia combinada.
O procedimento foi destinado a pacientes que tenham as duas doenças e se enquadrem nos critérios definidos pelo Ministério da Saúde: catarata associada a glaucoma primário de ângulo aberto com dano inicial ou moderado e controlado com colírios.
O glaucoma primário de ângulo aberto é a forma mais comum da doença no Brasil e costuma evoluir de maneira lenta e silenciosa. Segundo a Conitec, ele representa cerca de 60% dos diagnósticos de glaucoma no país.
Atualmente, pacientes com catarata e glaucoma podem precisar de tratamentos diferentes para cada doença. A nova abordagem permite que o procedimento para o glaucoma seja realizado durante a própria cirurgia da catarata.
De acordo com o Ministério da Saúde, a estratégia pode proporcionar recuperação mais rápida, menor risco de complicações e melhor controle da pressão intraocular. Também pode reduzir a necessidade de colírios em alguns pacientes, embora isso não signifique que todos deixarão de usar medicamentos.
A análise da Conitec encontrou resultados semelhantes entre a goniotomia excisional e o iStent no controle da pressão intraocular e na redução da necessidade de medicamentos em pacientes com catarata e glaucoma leve a moderado. Alguns pacientes conseguiram manter a doença controlada sem colírios ao final do período de acompanhamento dos estudos analisados.
Apesar de poderem afetar a visão, catarata e glaucoma têm causas e mecanismos diferentes.
A catarata ocorre quando o cristalino, a lente natural do olho, perde sua transparência e fica opaco. Com isso, a visão pode ficar embaçada e a capacidade visual diminuir.
O glaucoma, por sua vez, provoca danos progressivos ao nervo óptico. Um dos principais fatores associados à doença é o aumento da pressão dentro do olho, embora o problema não se limite à pressão intraocular.
Enquanto a perda visual causada pela catarata pode ser tratada com a retirada do cristalino opaco e sua substituição por uma lente artificial, os danos provocados pelo glaucoma no nervo óptico são irreversíveis. Por isso, o controle da doença é fundamental para evitar a progressão da perda de visão.
Além dos possíveis benefícios para os pacientes, a incorporação também foi analisada pela Conitec sob o ponto de vista econômico.
Segundo o Ministério da Saúde, a goniotomia excisional pode representar uma redução de aproximadamente R$ 18 mil por ano de vida saudável ganho, em comparação com o tratamento com iStent.
A estimativa é de uma economia de R$ 22,4 milhões no primeiro ano de utilização da técnica, chegando a R$ 93,2 milhões no quinto ano. Considerando o período de cinco anos, a economia acumulada estimada chega a R$ 276 milhões em um cenário de substituição do iStent pela goniotomia excisional.
A portaria que oficializou a incorporação foi publicada em 17 de setembro de 2026. A partir da decisão, o Ministério da Saúde tem prazo de até 180 dias para efetivar a oferta do procedimento no SUS.
Na prática, portanto, a cirurgia deverá ser incorporada gradualmente à rede pública após a atualização dos protocolos e a organização dos serviços responsáveis pelo atendimento.
A medida faz parte da atualização dos tratamentos disponíveis no SUS para doenças que podem comprometer a visão e busca ampliar as opções para pacientes que apresentam catarata associada ao glaucoma primário de ângulo aberto.