
(Foto/José Cruz/Agência Brasil)
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio a uma crise bancária que provocou instabilidade política e ameaçava derrubar seu governo. O mandatário era alvo de um processo de impeachment apoiado pela oposição e por integrantes da própria base governista.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, Peña afirmou que tomou a decisão para preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas. O presidente também pediu desculpas à população pelos prejuízos provocados pela crise.
“Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, declarou.
Economista conservador, Peña assumiu a Presidência em 2023 e tinha mandato previsto até 2028. Com a renúncia, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do país.
CRISE BANCÁRIA
A crise teve início após o fechamento do banco digital Ueno, na terça-feira (3), por determinação do Banco Central paraguaio, que identificou insuficiência de recursos para cobrir as obrigações da instituição.
O banco, pertencente ao Grupo Vázquez, tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. O encerramento das atividades deixou milhares de correntistas sem acesso ao próprio dinheiro.
A situação se agravou após a descoberta de empréstimos concedidos a empresas vinculadas à instituição, apontados como parte dos problemas financeiros que levaram à liquidação.
ACUSAÇÕES CONTRA PEÑA
A oposição acusa o presidente de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março de 2025.
Os parlamentares também apontam suspeitas de que o Banco Central tenha encoberto irregularidades relacionadas à instituição financeira.
O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados. Nesta quinta-feira, o Congresso havia convocado uma sessão extraordinária para discutir o processo, e todas as bancadas da Câmara anunciaram apoio à abertura do procedimento.
A crise política se intensificou após Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e considerado um dos principais articuladores políticos de Peña, retirar o apoio ao governo. O presidente do Congresso, Basilio Núñez, também rompeu com o mandatário.
INVESTIGAÇÃO
A Procuradoria paraguaia expediu mandados de prisão contra executivos do banco. Ao todo, 27 pessoas ligadas à instituição foram formalmente acusadas, e a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
Peña afirmou que os responsáveis pelas irregularidades serão levados à Justiça, sem exceções. O presidente também promulgou uma lei para acelerar a recuperação dos valores pelos clientes afetados.
A crise ainda provocou preocupação com o sistema financeiro paraguaio após relatos de instabilidade nos aplicativos de outras instituições. A Associação de Bancos do Paraguai, entretanto, afirmou que o sistema bancário continuava operando normalmente.
SUCESSÃO PRESIDENCIAL
Pedro Alliana, vice-presidente do Paraguai, deverá assumir o cargo após a renúncia. Ele também enfrenta questionamentos no âmbito da crise política.
Peña era aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e integrava o Escudo das Américas, grupo de líderes latino-americanos alinhados ideologicamente ao republicano. O mandatário também mantinha relações diplomáticas com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.