A semaglutida e a tirzepatida, conhecida pela marca Mounjaro, atuam imitando o GLP-1, hormônio liberado pelo intestino após a alimentação
A promessa de maior acessibilidade às "canetas emagrecedoras" no Brasil — impulsionada pela recente quebra de patente da semaglutida, que pode reduzir preços em até 30% — corre em paralelo a um submundo perigoso de manipulação clandestina. Em Minas Gerais, onde a obesidade já atinge mais de 34% da população, a Polícia Civil (PCMG) acendeu o alerta para o "fracionamento caseiro" de substâncias, prática que barateia o custo de forma ilegal, mas coloca vidas em risco. O caso mais recente envolve a prisão, nessa quarta-feira (29/04), de uma ex-servidora em Santa Luzia que, sem qualquer formação técnica, confessou aprender a manipular e a revender doses de medicamentos para emagrecer através de tutoriais em redes sociais. Outras ações policiais também tentam combater a ilegalidade das comercializações.
Essa precariedade das vendas clandestinas ignora o fato de que, por trás da busca pela perda de peso, existem condições clínicas que exigem rigor farmacêutico, e não soluções artesanais. Quem conhece bem essa linha tênue entre a necessidade do remédio e o cuidado com a saúde é a designer Mariana Cristina Silva de Lima, de 32 anos. Diferente de quem busca soluções em seringas fracionadas ilegalmente, Mariana encontrou nos análogos de GLP-1 uma ferramenta para a redução de peso.
A luta contra a balança fez parte da vida de Mariana por muito tempo. Força de vontade nunca bastou, já que o diagnóstico de síndrome do ovário policístico torna o emagrecimento ainda mais difícil. O cenário mudou em setembro do ano passado, quando ela iniciou tratamento com medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, popularmente chamados de “canetas emagrecedoras”. Desde então, perdeu 25 kg. “Esses medicamentos, como Ozempic e Mounjaro, estão ajudando muito mulheres que estão nessa mesma condição”, diz.
Os medicamentos citados por Mariana têm atuação semelhante. Um deles, o Ozempic, à base de semaglutida, teve a patente quebrada no fim de março. Na prática, a farmacêutica Novo Nordisk perde o monopólio sobre a produção da substância. Isso deve reduzir em até 30% o valor dos medicamentos com esse princípio ativo ao longo dos próximos meses, conforme a endocrinologista Kamilla Brandão, do Hospital Orizonti. Laboratórios nacionais já sinalizaram interesse em produzir versões biossimilares.
“A quebra da patente tem potencial positivo, porque implica o surgimento de medicações biossimilares, o que pode levar à redução de preço”, explica a endocrinologista Kamilla Brandão. Ela ressalta que o uso tem indicação médica bem definida. “A quebra da patente vai beneficiar pessoas que têm doenças para as quais há indicação da semaglutida, como diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso associado a comorbidades”, afirma.
A semaglutida e a tirzepatida, conhecida pela marca Mounjaro, atuam imitando o GLP-1, hormônio liberado pelo intestino após a alimentação. O efeito principal é aumentar a saciedade e reduzir o apetite. Inicialmente indicado para diabetes tipo 2, o medicamento ganhou aval técnico no tratamento da obesidade. Em Minas Gerais, a condição atinge três em cada dez adultos e segue em alta.
Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostram que o percentual passou de 30,6% em 2020 para 34,2% em 2025. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade é uma doença crônica associada a problemas como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono e alterações metabólicas.
Respeito à indicação médica e ao acompanhamento profissional
Para quem, desde a infância, acumula dezenas de tentativas frustradas de emagrecimento com o uso de ansiolíticos, moderadores de apetite e fitoterápicos, a percepção agora é de “resultados consistentes” no tratamento, mas com a certeza de que é necessário acompanhamento médico. “O medicamento funciona, mas não faz milagre. O acompanhamento profissional faz toda a diferença”, afirma Mariana, que mantém consultas com nutricionista e endocrinologista e pratica exercícios regularmente.
A endocrinologista Kamilla Brandão reflete sobre o uso do termo “canetas emagrecedoras”. Ela adverte que a população não deve tratar o medicamento apenas de forma estética. “A expressão pode ser pejorativa e dar a impressão de que é algo estético ou de uso livre, quando se trata de um tratamento médico”, afirma.
A médica também alerta que o medicamento não substitui mudanças no estilo de vida. “A questão do excesso de peso está associada a hábitos. Existe predisposição genética, mas somos resultado da interação entre genética e ambiente. Alimentação adequada e atividade física precisam estar associadas ao tratamento”, diz.
Canetas clandestinas na mira das autoridades
A comercialização irregular de medicamentos usados para emagrecimento tem mobilizado as forças de segurança em Minas Gerais. Investigações apontam a venda de produtos sem autorização sanitária, sem comprovação de origem e, em alguns casos, trazidos ilegalmente do exterior. Em janeiro, a Polícia Civil de Minas Gerais prendeu um homem de 31 anos, em Belo Horizonte, suspeito de obter de forma fraudulenta e revender ilegalmente canetas injetáveis para perda de peso, além de anabolizantes. Parte dos produtos apreendidos não tinha registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em outra frente, a corporação deflagrou, em dezembro, a operação Black Pen, em Montes Claros, no Norte do Estado, para combater o comércio irregular de canetas e ampolas emagrecedoras. A ação resultou na prisão em flagrante de uma mulher de 40 anos e na apreensão de nove ampolas de medicamentos proibidos.
Segundo a Polícia Civil, a comercialização, importação ou distribuição de medicamentos sem registro ou autorização da autoridade sanitária pode configurar crimes como contrabando e delitos contra a saúde pública, especialmente quando há falsificação, adulteração ou venda de produtos sem controle regulatório.
As penas variam conforme o enquadramento legal e podem incluir prisão, além de sanções administrativas, como apreensão de produtos, multas e interdição de estabelecimentos. A corporação afirma que atua de forma contínua no combate à importação e à venda ilegal desses medicamentos, inclusive quando comercializados pela internet ou ofertados em clínicas e estabelecimentos irregulares.
Fonte: O Tempo