Fechamento de unidades da Mosaic em Patrocínio e Araxá acende alerta para risco de retração da indústria de fosfatados e amplia preocupação com a segurança do agronegócio brasileiro e a produção de alimentos

Unidade da Mosaic em Araxá, paralisada recentemente, o que resultou em dezenas de demissões de trabalhadores e indica agravamento na crise na produção de fertilizantes fosfatados (Foto/Reprodução)
A crise dos fertilizantes no Brasil ganhou novos contornos e se aprofunda em um momento de forte demanda global por alimentos, evidenciando fragilidades estruturais que vão além da dependência externa e atingem diretamente a segurança produtiva do agronegócio. Nesse cenário, o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto, apresentou uma nota técnica à Casa Civil com propostas para enfrentar o problema, defendendo uma atuação mais incisiva do governo federal para estruturar soluções de médio e longo prazo.
O tema já é tratado como prioridade pela gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que instituiu um grupo de trabalho envolvendo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Ministério de Minas e Energia e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A iniciativa busca respostas diante de um quadro que se agravou com instabilidades geopolíticas recentes, como a guerra no Leste Europeu e tensões no Oriente Médio, que impactaram as cadeias globais de insumos.
O diagnóstico central aponta para uma crise em expansão, com destaque para o segmento de fertilizantes fosfatados. Diferentemente de outros nutrientes, os fosfatados enfrentam obstáculos estruturais mais complexos no Brasil, como a limitada oferta de insumos estratégicos — especialmente o ácido sulfúrico — o que torna sua produção doméstica um desafio de longo prazo ainda sem solução consolidada.
Esse gargalo amplia a vulnerabilidade do país e pressiona custos no campo. O cenário já começa a se materializar na indústria: a Mosaic, uma das principais produtoras de fosfatados no país, anunciou recentemente o fechamento e a hibernação de unidades no Brasil – Araxá e Patrocínio em MG, e Paranaguá, no PR -, citando perda de competitividade e custos elevados. “O movimento acende um alerta adicional ao indicar retração da capacidade produtiva em um dos segmentos mais críticos para o agronegócio e precisamos ficar atentos para proteger a unidade de Uberaba”, avalia Anderson.
Por outro lado, a nota técnica destaca uma janela concreta de solução no médio prazo: os fertilizantes nitrogenados. Nesse caso, o Brasil possui uma vantagem competitiva relevante com o gás natural do pré-sal. O problema, no entanto, está longe de ser apenas de disponibilidade. A falta de infraestrutura adequada para escoamento, processamento e transporte, somada a distorções no preço do gás, impede que esse potencial se traduza em produção industrial competitiva.
A proposta defendida por Anderson Adauto enfatiza que a ampliação da oferta de gás e a construção de uma estrutura robusta de distribuição são pontos chave para destravar investimentos. A revisão do modelo de precificação, com mais transparência e equilíbrio regulatório, é vista como condição essencial para viabilizar novas plantas industriais e ampliar rapidamente a produção nacional de nitrogenados — uma medida capaz de reduzir de forma significativa a dependência externa.
Nesse contexto, o ex-ministro também projeta a atuação de um eventual mandato como deputado federal voltado à articulação de políticas públicas estruturantes. A ideia é integrar esforços legislativos e executivos para garantir segurança regulatória, atrair investimentos e consolidar o gás natural como eixo estratégico da política nacional de fertilizantes.
Enquanto os desafios envolvendo fosfatados e potássio exigem soluções mais complexas e de longo prazo, o avanço na agenda do gás surge como o caminho mais imediato e viável. A crise, que já se amplia, exige coordenação, planejamento e decisões estruturais — sob risco de comprometer não apenas a competitividade do agronegócio, mas também a posição do Brasil como um dos principais fornecedores globais de alimentos.
Com viagem de ministro, Conselho de Política Energética adia discussão
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) teria reunião nesta semana para discutir o projeto do gás natural, considerado estratégico para ampliar investimentos e estimular a interiorização do insumo no país. No entanto, o encontro foi cancelado devido à participação do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em viagem oficial aos Estados Unidos.
Entre os temas previstos na pauta estavam medidas voltadas à política de preços do gás natural e à expansão da infraestrutura de distribuição, pontos considerados essenciais para tornar o setor mais atrativo e viabilizar novos investimentos industriais — especialmente na produção nacional de fertilizantes nitrogenados.