Conforme interlocutores, a presidente estadual, Nely Aquino, teria deixado o partido após briga com a dirigente nacional, Renata Abreu; sigla não confirmou
O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, preso no âmbito da Lava Jato em 2016, articula volta ao cenário político e provocou tensão na cúpula do Podemos. Ele pretende disputar a eleição para deputado federal em Minas, em outubro deste ano.
Conforme interlocutores, houve um desentendimento entre a presidente nacional da legenda, a deputada federal Renata Abreu (Podemos-SP), e a dirigente do partido em Minas Gerais, Nely Aquino. Nely teria deixado o partido, mas a informação não foi confirmada oficialmente. Ela já foi vereadora (2017-2022) e presidiu a Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ela é pré-candidata à reeleição para a Câmara dos Deputados.
Segundo apuração do Aparte, o Podemos é um dos partidos que Cunha tenta uma filiação, e ele teria recebido aval da Executiva Nacional. A movimentação, no entanto, enfrentaria resistência de Nely Aquino, não só pelo histórico de Cunha, envolvido em denúncias de corrupção, como por conta da votação que ele poderia ter, inviabilizando a candidatura de Nely ou de outros colegas. Hoje, ela é a única deputada federal do partido pelo estado e é o quadro mais forte localmente, abrigando vários aliados e tendo poder na formação de chapas.
“A briga foi feia”, disse um interlocutor à reportagem nesta sexta-feira (20/3). Outro interlocutor afirmou que, após discussão na quinta-feira (19/3), Nely teria sido “expulsa” do partido, o que não foi confirmado. Oficialmente, ela segue como presidente do Podemos em Minas. Procurada, não se pronunciou até a publicação desta matéria.
A assessoria do Podemos afirmou que a expulsão não procede e disse que a presidente nacional do partido, Renata Abreu, e Nely mantêm “excelente relacionamento”. Sobre uma possível filiação de Eduardo Cunha, informou que as filiações são conduzidas localmente, mas confirmou que ele conversou com o partido. Segundo a equipe, porém, a eventual entrada de Cunha em Minas não tem interferência da direção nacional.
Segundo um interlocutor do Podemos, já havia questionamentos internos sobre a possível filiação de Cunha. Outra fonte disse que, há cerca de um mês, havia a informação de que existia um acordo para Cunha se filiar ao partido, mas o movimento teria sido vetado pela Nacional. A assessoria de Cunha não se pronunciou.
Estratégia em Minas
Nos bastidores, Cunha tem ampliado sua atuação em Minas. O ex-deputado montou uma rede de rádios evangélicas no estado, estratégia semelhante à adotada no início de sua carreira no Rio de Janeiro. Há ao menos sete CNPJs de rádios ligadas a ele e a familiares em Minas, além de três emissoras com o nome “Maravilha”, em cidades como Belo Horizonte, Guarani e Uberaba.
Atualmente filiado ao Republicanos, Cunha avalia disputar por Minas para evitar concorrência direta com a filha, deputada federal Dani Cunha (União Brasil), no Rio de Janeiro. Em 2022, ele tentou se eleger deputado federal por São Paulo, mas obteve cerca de 5.000 votos.
Trajetória política e judicial
Cunha foi deputado federal entre 2003 e 2016 e presidiu a Câmara entre 2015 e 2016. À frente da Casa, aceitou o pedido que deu início ao processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em dezembro de 2015.
No ano seguinte, tornou-se alvo da operação operação Lava Jato, acusado de corrupção em contratos da Petrobras. Foi afastado da presidência da Câmara pelo STF e teve o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.
Preso preventivamente em outubro de 2016, Cunha foi condenado em 2017 a mais de 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em 2020, passou ao regime domiciliar. Em 2023, o STF anulou a condenação, ao entender que o caso deveria ter tramitado na Justiça Eleitoral.
Fonte: O Tempo