Levantamento de agosto aponta 1.151 servidores afastados na pasta; vereadora Rochelle Bazaga discute medidas de acolhimento e mudanças na substituição de professores
A Secretaria Municipal de Educação concentrou quase 60% dos afastamentos de servidores registrados pela Prefeitura de Uberaba em agosto. Dos 1.929 funcionários que constam no levantamento municipal, 1.151 estão vinculados à Educação, sendo 205 com diagnósticos relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Os números foram compartilhados com a presidente da Comissão de Educação da Câmara Municipal, vereadora Rochelle Bazaga (PDT), e reforçam preocupação que já vinha sendo manifestada por professores da rede e agora motiva discussões sobre mudanças no ambiente escolar e na política de acolhimento dos profissionais.
Em entrevista ao programa Pingo do J, da Rádio JM, Rochelle afirmou ter ficado assustada com os dados apresentados pela área de medicina do trabalho da Prefeitura. Além do volume de afastamentos, a parlamentar chama a atenção para a saúde emocional dos educadores e para as dificuldades enfrentadas pelas unidades escolares quando precisam substituir profissionais que entram em licença.
Conforme as tabelas oficiais encaminhadas à vereadora, a Educação responde por 1.151 afastamentos registrados em agosto, seguida pela Saúde, com 507, e pelas secretarias de Desenvolvimento Social e Segurança Pública, ambas com 59. Do total de 348 servidores municipais relacionados a diagnósticos classificados no grupo F da Classificação Internacional de Doenças (CID), que abrange transtornos mentais e comportamentais, 205 pertencem à Educação e 93 à Saúde.
Na Educação, os diagnósticos de saúde mental representam 17,8% dos afastamentos apresentados no levantamento. A pasta também concentra 58,9% de todos os registros municipais identificados com CID F naquele mês. Os dados, entretanto, não permitem determinar quantos desses adoecimentos foram provocados diretamente pelas condições de trabalho.
A dimensão do problema também aparece em outro levantamento fornecido pela Secretaria Municipal de Educação (Semed) em resposta a um requerimento de Rochelle. Em 2025, dos 4.224 professores ativos na rede municipal, 2.239 tiveram pelo menos um afastamento, o equivalente a 53,01% do quadro. Ao longo daquele ano, foram contabilizados 11.486 registros de afastamento, já que um mesmo profissional pode se ausentar mais de uma vez.
Em 2026, até a elaboração do relatório, em julho, 1.932 professores já haviam se afastado pelo menos uma vez, representando 46,53% dos 4.152 docentes ativos considerados no documento. Os números incluem diferentes modalidades de afastamento, e não apenas licenças por doença.
O levantamento histórico também registra 1.193 ocorrências classificadas como transtorno misto ansioso e depressivo entre 2021 e 2026, colocando o diagnóstico entre os mais frequentes apresentados pela Secretaria de Educação no período.
A preocupação com o adoecimento dos servidores não é inédita. Em setembro, o JM Online mostrou que, dos 589 servidores municipais que estavam em licença médica no dia 8 daquele mês, 285 apresentavam transtornos mentais e comportamentais, o equivalente a 48,4%. Na ocasião, a Secretaria de Administração apontou que fatores como sobrecarga, relações interpessoais e estilos de gestão estavam entre as hipóteses investigadas para compreender o problema. O levantamento de setembro retrata as licenças em andamento em uma data específica e, portanto, não pode ser comparado diretamente ao consolidado de agosto.
Para Rochelle, o adoecimento dos educadores não pode ser atribuído a uma única causa. A vereadora afirma que os relatos recebidos pela Ouvidoria da Educação apontam problemas que vão desde as relações de trabalho e a organização interna das escolas até dificuldades de adaptação de novos servidores e conflitos envolvendo estudantes e familiares.
"Eu não acredito que seja um problema só. São vários", afirmou a parlamentar, que destacou três pontos considerados prioritários para enfrentar a situação: a cultura organizacional das escolas, o acolhimento dos professores que ingressam na rede e o fortalecimento da relação entre escola e família.
Ao abordar a realidade das salas de aula, Rochelle relatou ter recebido, na segunda-feira (26), uma ligação de uma professora que precisou se afastar por sete dias depois de um episódio envolvendo um estudante. Segundo o relato apresentado à vereadora, o aluno teria lançado contra a profissional uma substância que aparentava ser perfume, mas provocou uma reação na garganta dela.
A parlamentar não identificou a unidade escolar nem a professora envolvida. O episódio foi apresentado durante a entrevista como exemplo das situações de conflito enfrentadas pelos educadores.
"A escola sozinha não vai resolver. Isso tem que ter o apoio da família, isso tem que ter o acompanhamento da família", defendeu Rochelle, ao argumentar que episódios de desrespeito e violência no ambiente escolar também precisam ser considerados nas discussões sobre o adoecimento profissional.
Acolhimento de professores e substituição de afastados entram em discussão
Diante desse cenário, a vereadora revelou que iniciou conversas com a secretária municipal de Educação, Juliana Petek, para desenvolver ações voltadas à melhoria das relações de trabalho nas unidades escolares.
Uma das propostas é realizar, em parceria com a área de medicina do trabalho da Prefeitura, um trabalho de cultura organizacional nas escolas. A iniciativa pretende discutir questões relacionadas à gestão, às atribuições de cada profissional, às relações entre equipes e a situações de assédio no ambiente de trabalho.
Outra possibilidade em estudo é a criação de uma estrutura permanente de acolhimento para professores recém-ingressos na rede municipal. Segundo Rochelle, muitos profissionais chegam às escolas sem conhecer os procedimentos administrativos, as particularidades do sistema municipal de ensino ou mesmo a cidade onde passarão a trabalhar.
A situação, conforme a parlamentar, ganhou relevância com a chegada de aprovados no concurso público da Educação, incluindo professores de outros municípios.
"O professor ingressa na rede municipal e não tem ali um preparo. Ninguém recebe e explica como funciona o sistema. Ele vai aprendendo no dia a dia", observou.
A ideia é estabelecer um acompanhamento inicial, com profissionais de referência que possam orientar os novos servidores e facilitar sua integração às equipes. Rochelle argumenta que a ausência desse suporte pode tornar a adaptação mais difícil, especialmente para quem nunca trabalhou na rede municipal de Uberaba.
Na resposta formal encaminhada à Câmara, a Semed informou que já desenvolve iniciativas de prevenção e cuidado com a saúde dos profissionais. Entre elas estão ações da Casa do Educador Professora Dedê Prais, cursos voltados à saúde mental e ao autocuidado, formação sobre acolhimento de queixas escolares e atendimento psicossocial oferecido pela estrutura municipal. O documento, porém, não apresenta indicadores que permitam avaliar em que medida essas iniciativas contribuíram para reduzir os afastamentos.
Além da saúde dos profissionais, Rochelle chama a atenção para outro efeito do problema: a dificuldade de reposição de professores afastados. Segundo ela, quando um docente precisa deixar temporariamente a sala de aula, a demora nos procedimentos administrativos pode prolongar a ausência de um substituto e comprometer o atendimento aos estudantes.
Para buscar alternativas, a vereadora e representantes da Secretaria de Educação haviam programado uma visita técnica a Uberlândia, no dia 14 de outubro, para conhecer o modelo de central de professores substitutos utilizado pelo município vizinho. A agenda, entretanto, foi adiada em razão da mudança no comando da Secretaria de Educação de Uberlândia, e uma nova data ainda é aguardada.
Rochelle considera que a experiência pode servir de referência para Uberaba, embora reconheça que a implantação de um modelo semelhante não eliminaria completamente o problema. A proposta seria reduzir o intervalo entre o afastamento de um professor e a chegada de outro profissional à unidade escolar.
A discussão ocorre em meio a questionamentos sobre a gestão do quadro de pessoal da Educação. Em agosto, levantamento divulgado pelo Sindicato dos Educadores do Município de Uberaba (Sindemu) apontou a existência de 1.476 professores contratados temporariamente, enquanto 683 afastamentos identificados pela entidade teriam previsão de substituição. O sindicato cobrou esclarecimentos sobre a distribuição desses profissionais e as justificativas das contratações.
Nesta semana, a Prefeitura também publicou novas convocações de profissionais para a rede municipal, incluindo professores, coordenadores pedagógicos e servidores de apoio. As designações, contudo, não esclarecem de forma individualizada quais afastamentos ou necessidades de pessoal estão sendo atendidos.
Para Rochelle, além das medidas de prevenção ao adoecimento, a administração municipal precisa tornar os procedimentos de substituição mais ágeis. A vereadora questiona a demora que pode ocorrer entre a apresentação de um atestado prolongado e a convocação de outro profissional, situação que, segundo ela, precisa ser discutida também com a Secretaria de Administração.
As propostas de acolhimento, reorganização das relações de trabalho e avaliação do modelo de substitutos ainda estão em fase de discussão. Não foram apresentados prazos para sua implantação.