O ato ocorreu em frente ao Quartel General do Exército e defendia uma intervenção militar, o que não está previsto na Constituição
Foto/Evaristo SA/AFP
O presidente Jair Bolsonaro participou de manifestações neste domingo (19) e discursou para apoiadores em meio à multidão. O ato ocorreu em Brasília e defendia uma intervenção militar, o que não está previsto na Constituição. Os manifestantes também pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF).O discurso ocorreu em frente ao Quartel General do Exército e na data em que é celebrado o "Dia do Exército".
Dezenas de simpatizantes se aglomeraram para ouvir o presidente, contrariando as orientações dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar a propagação do coronavírus. Foi a maior aglomeração provocada por Bolsonaro desde o início da adoção de medidas contra a pandemia no Brasil.
Do alto de uma caminhonete, Bolsonaro disse que ele e seus apoiadores não querem negociar nada e voltou a criticar o que chamou de "velha política". "Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, têm que ser patriotas e acreditar e fazer a sua parte para que nós possamos colocar o Brasil no lugar de destaque que ele merece. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder."
Pouco depois, o presidente postou em uma rede social um trecho do discurso em que diz aos manifestantes: "Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acreditam no Brasil." Alguns apoiadores do presidente carregavam faixas pedindo "intervenção militar já com Bolsonaro". As faixas tinham o mesmo padrão e pareciam ter sido feitas em série.
Repúdio
Mensagens publicadas nas redes sociais pelos ministros do Supremo mostraram repúdio ao ato. Marco Aurélio Mello e Luis Roberto Barroso, recém-eleito para presidir o Superior Tribunal Eleitoral (TSE) se posicionaram. Também se manifestaram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador João Doria (SP). Houve ainda falas de senadores — incluindo Randolfe Rodrigues (REDE-AC), líder da oposição no Senado — e deputados.
Já o PSL fez menção a um documento assinado por Bolsonaro e pelo presidente do partido, Luciano Bivar, em janeiro de 2018, no qual ambos se comprometiam com a democracia. "O PSL repudia atos antidemocráticos, motivo pelo qual Jair Bolsonaro não faz mas parte do PSL. No documento, assinado por ele, promete 'preservar as instituições e proteger o Estado de Direito'. Quem defende o AI-5 e o fechamento do Congresso não comunga dos nossos valores", diz a nota divulgada neste domingo.
O ministro Marco Aurélio disse ao Globo que o ato é uma atitude de "saudosistas inoportunos". "Tempos estranhos! Não há espaço para retrocesso. Os ares são democráticos e assim continuarão. Visão totalitária merece a excomunhão maior. Saudosistas inoportunos. As instituições estão funcionando".
Doria fez menção direta à atitude de Bolsonaro. "Lamentável que o presidente da república apoie um ato antidemocrático, que afronta a democracia e exalta o AI-5. Repudio também os ataques ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal. O Brasil precisa vencer a pandemia e deve preservar sua democracia", publicou o governador.
Barroso se manifestou atráves do Twitter. O ministro Gilmar Mendes replicou em sua rede social a fala de Barroso, apesar de os dois pouco se falarem e também se posicionou.
Só pode desejar intervenção militar quem perdeu a fé no futuro e sonha com um passado que nunca houve. Ditaduras vêm com violência contra os adversários, censura e intolerância. Pessoas de bem e que amam o Brasil não desejam isso. — LuÃs Roberto Barroso (@LRobertoBarroso) April 19, 2020
A crise do #coronavirus só vai ser superada com responsabilidade polÃtica, união de todos e solidariedade. Invocar o AI-5 e a volta da Ditadura é rasgar o compromisso com a Constituição e com a ordem democrática #DitaduraNuncaMais. — Gilmar Mendes (@gilmarmendes) April 19, 2020
*Com informações de O Globo