Os ministros Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos estão na linha de frente do governo de Jair Bolsonaro. Generais experientes, eles usam todo o rigor militar para controlarem seu campo de batalha. Assim, nada acontece próximo a Bolsonaro que o trio desconheça.
Mas súbitos lapsos de memória e desconhecimentos estratégicos atingiram os generais em seus depoimentos à Polícia Federal. Braga Netto, por exemplo, que é visto como o “gerentão do governo”, não sabia por que o presidente queria Alexandre Ramagem no comando da PF.
General Augusto Heleno, em seu depoimento, ao ser questionado sobre a preocupação de Bolsonaro em proteger familiares e amigos, respondeu que precisaria ver novamente o vídeo para por apontar quais amigos e familiares o presidente se referia. Para bom entendedor…
Mesmo com tantos “não me recordo” ou “não tive conhecimento”, a análise dos silêncios é claríssima e apenas confirmam os que Sérgio Moro apontou como pontos de interferência ilegítima do presidente na PF.
Os relatos de Braga Netto e Augusto Heleno demonstram que Bolsonaro confundia o papel dos órgãos de inteligência e os seus interesses pessoais. Heleno, por exemplo, admitiu que “presidente havia se queixado sobre o envolvimento do nome dele no caso Marielle, notadamente em razão de um fato envolvendo um porteiro do condomínio onde ele reside” e que “o presidente havia se queixado sobre a demora da investigação sobre a situação envolvendo o porteiro do condomínio onde reside”.
Apesar de não restar dúvidas sobre as cobranças do presidente em relação ao caso da vereadora, ainda não ficou claro o motivo pelo qual Bolsonaro queria acesso à investigação, que é totalmente independente a qual o presidente não tinha poderes para interferir, mesmo sendo o chefe do Estado.
Ainda em depoimento, Braga Netto confirmou a postura do ex-ministro da Justiça, cuja intenção era tentar evitar que Bolsonaro pegasse o caminho sem volta da ingerência política, ao revelar que Moro estava nervoso com a possibilidade de troca. O general segue o coro dizendo que Bolsonaro, como presidente, poderia trocar o comando da PF, mas mostra no depoimento que Moro não preparou armadilhas para Bolsonaro no caso, apenas atuou da forma que entendeu correta para proteger o próprio presidente dos seus instintos intervencionistas.
Outro ponto relevante foi a confirmação do general Heleno de como é a amizade entre Bolsonaro e Alexandre Ramagem, o que acrescenta tônus na confirmação da avaliação de Moro de não ser apropriado colocar um amigo no comando da PF. Até porque o princípio da impessoalidade seria suficiente para inviabilizar a nomeação.
Dos três generais, Ramos foi o que menos ofereceu problemas a Bolsonaro, mas não teve como escapar de confirmar que o presidente cobrou, sim, na famosa reunião de 22 de abril, os tais relatórios de inteligência, a mudança de ministros e o vigor com que revelou-se preocupado com a Polícia Federal.
As informações são do Radar, da revista Veja. O FAMIGERADO VÍDEO
A colunista Bella Megale, do jornal O Globo, revelou que o presidente Jair Bolsonaro fez questão de assistir o vídeo da reunião do dia 22 de abril na íntegra para “garantir” que não teria falado nada que pudesse incriminá-lo, ao menos em sua avaliação.
A gravação também foi assistida com o mesmo propósito por nomes de confiança do presidente, como o do ministro da Secretaria-Geral da presidência, Jorge Oliveira. Antes que o material chegasse ao Supremo Tribunal Federal (STF), ele também passou pela análise minuciosa da Advocacia-Geral da União (AGU). Assessores do presidente analisaram até mesmo as conversas paralelas captadas pelos microfones, além das falas de Bolsonaro e dos ministros.
Integrantes do Planalto trabalharam em cima do vídeo por cerca de três dias e chegaram à conclusão de que o material poderia ser liberado. Apesar de ter muitos conteúdos "sensíveis" ao governo, a avaliação do grupo foi que as falas do presidente não trazem crimes. Investigadores, porém, não tem essa certeza.
A interlocutores, Bolsonaro teria dito que essa seria a “última cartada” de Moro contra ele, que tem se defendido sobre o conteúdo do vídeo, afirmando que não cita as palavras “superintendente” nem “Polícia Federal” na reunião ministerial.