POLÍTICA

Início do 2º Governo de Dilma é parecido com o de FHC, diz gestor

O Jornal da Manhã traz entrevista com José Eustáquio Bueno Caixeta, diretor executivo do Instituto de Gestão e Negócios que fala sobre o início do segundo mandato de Dilma

Publicado em 26/03/2015 às 14:59Atualizado em 17/12/2022 às 00:50
Compartilhar

ENTREVISTA

Fot Fenanda Borges

Conforme números divulgados na última sexta-feira (20), a prévia de março da inflação chegou a 1,24%, sendo que a conta de luz, os combustíveis e os alimentos foram os fatores que mais pressionaram o índice. Nos últimos 12 meses, o chamado Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 7,9%. Em janeiro, o emprego nas indústrias brasileiras caiu 4,1% na comparação com o mesmo mês de 2014. Com a taxa de juros (Selic) anual em torno de 12,75% e com dólar comercial supervalorizado a R$3,22, empresários sentem que a economia brasileira está sufocando e que 2015 será um ano tão difícil quanto 2014.

Para explicar o que vem ocorrendo no setor e esclarecer o que deve ser feito para mudar o rumo desse barco, antes que ele afunde, o Jornal da Manhã traz entrevista com José Eustáquio Bueno Caixeta, diretor executivo do Instituto de Gestão e Negócios, fundação criada pela Universidade de Uberaba (Uniube) em parceria com Aciu, CDL e Cigra. Natural de Patos de Minas, formado em Administração pela Universidade Mackenzie do Rio de Janeiro, José Eustáquio especializou-se em comércio e finança internacional. Por vários anos exerceu relevantes cargos de direção e gerência geral no Banco do Brasil e ocupou cargos de assessoramento superior nos ministérios da Fazenda e do Planejamento.

Jornal da Manhã – Que avaliação o senhor faz da atual economia?

José Eustáquio Bueno Caixeta – Para isso volto a 1998, pois estamos vivendo situação muito parecida com a que vivemos no início do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Coincidentemente, ele exercitou um processo de reeleição muito semelhante ao de Dilma Rousseff, com poucas verdades e escondendo determinadas situações, mas, depois das urnas abertas, FHC teve que enfrentar a dura realidade. A diferença é que, depois de reeleito, Fernando Henrique foi à população e fez um “mea-culpa”, assumindo as medidas que seriam necessárias. Ele adotou a flutuação do câmbio. Na época, o Gustavo Franco, presidente do Banco Central, queimou bilhões das reservas estrangeiras do país tentando segurar o dólar. Mas o FHC veio com Armínio Fraga, que introduziu um pacote para deixar juros, câmbio e mercado flutuarem. Tudo isso com vistas a corrigir os problemas que enfrentávamos por questões de conjuntura, como quebra dos tigres asiáticos e das economias russa, mexicana e argentina.

JM – Qual a diferença com a atual crise brasileira?

José Eustáquio – É que agora estamos enfrentando os mesmos problemas, não por fatalidade, mas por má gestão. O governo do PT surfou na bonança internacional e não aproveitou o momento para introduzir as reformas básicas. Foi um período com dólar baixíssimo, a R$1,50, países emergentes crescendo muito, e crescimento de 13,5% da China ao ano, a qual comprava minério de ferro, manganês e commodities de soja, milho e açúcar. Porém, o Brasil optou por aproveitar o momento para fazer uma distribuição da renda, o que é razoável e deveria ser feita mais cedo ou mais tarde. O Delfim Netto apregoava que devíamos esperar o bolo crescer para depois dividir, mas o PT distribuiu o bolo antes de ele terminar de crescer. O problema é que, paralelamente, o governo se descuidou de algumas medidas, tais como reformas tributária, trabalhista, previdenciária e administrativa. Com isso, ao primeiro sinal de reversão na expectativa internacional, nós sucumbimos. O primeiro sinal foi o encarecimento do dólar, com uma valorização nominal, e não real, de 70%. Em relação aos países com os quais comercializamos, estamos com baixa competitividade.

JM – A situação econômica está caótica, como diz o empresariado?

José Eustáquio – O governo fez uma opção de aproveitar o momento para criar uma segunda classe média emergente e fazer uma inclusão social, como ninguém nunca havia feito antes. Porém, não fez o dever de casa, que passa pela redução dos ministérios, dos cartões corporativos, dos cargos comissionados, etc., e não transferir a conta para nós, o setor produtivo. Não corrigiu a tabela do Imposto de Renda, aumentou a conta de luz, aumentou a taxa de juros e deixou a inflação e o dólar flutuarem. Ou seja, a população está perdendo poder aquisitivo para pagar uma conta sobre a qual não fomos consultados. Então, é razoável que a economia esteja vivendo um momento de pessimismo, porque temos uma relação custo/trabalho/produto em torno de 7%, enquanto os nossos concorrentes estão na faixa de 2%. Hoje, o produto brasileiro é muito caro. O governo faz previsões sobre a correção nos rumos da economia, mas o empresário sabe que as medidas estão no Congresso e que ele pode não aprová-las como estão propostas. Aí nosso período de sacrifício vai se arrastar mais do que o prazo estimado, mas o capital precisa de ambiente e confiança para investir. E já estamos chegando à estagflação, que é o pior dos cenários, quando o país não cresce com inflação fora de controle.

JM – O senhor mencionou que toda esta situação vem se refletindo no aumento das tarifas. Temos aí o aumento da energia e, consequentemente da água, do combustível e até mesmo dos alimentos... De que maneira isso faz o custo de vida ficar mais caro?

José Eustáquio – Entre os motivos internos está o represamento dos preços administrados. Quando o governo não adota um modelo liberal, de deixar a economia se ajustar por ela própria, ele começa a fazer o intervencionismo. No setor elétrico, a Dilma baixou na marra o custo da energia. Foi uma jogada política. Porém, ela não contava com a seca e então teve que fazer as termelétricas produzirem para amenizar a escassez de energia hidrelétrica, mas a termelétrica é mais cara. O governo foi bancando essa defasagem, mas agora decidiu repassar a conta ao consumidor. No caso do combustível, a Petrobras fazia a equalização de preços de acordo com a flutuação do barril de petróleo no mercado internacional, no mercado interno e repassava a vantagem ou a defasagem ao consumidor, uma medida de segurança e contenção da inflação. Não equalizaram e isso deu grande prejuízo à Petrobras. Nós ficamos um bom tempo com o combustível defasado, mas agora foi liberado. Sem nos esquecermos da taxa de juros. Isso impactou toda a economia.

JM – Houve alguma influência externa?

José Eustáquio – Sim. Com a flutuação do dólar, nossos insumos e matérias-primas encareceram. Basta ver o custo que vai ter o setor de fármacos, porque toda a nossa matriz de sais ativos é importada. Quando começarem a chegar na nova cotação do dólar, isso será repassado e o custo dos medicamentos vai sofrer uma alta exorbitante, o que vai impactar na inflação também. O custo dos fertilizantes vai impactar no agronegócio, bens de capital vão impactar nossas indústrias, etc. É um horizonte preocupante. Há quem diga que já, já a inflação vai melhorar, mas é o contrário. Estamos começando a sentir os horrores dos ajustes agora.

JM – O Brasil convive com o fantasma da inflação... A situação pode chegar ao descontrole nos mesmos patamares de outros tempos?

José Eustáquio – A expectativa é de uma inflação de dois dígitos, que acende a luz amarela. Não vamos chegar à hiperinflação que chegamos antes do Plano Real, em que se rompeu com a relatividade e as empresas não passavam de meras repassadoras de índices econômicos. O Brasil só teve uma planilha de custos a partir do Plano Real. Enfim, com certeza nós teremos um processo inflacionário ascendente.

JM – E como é possível deter esse processo?

José Eustáquio – Com o equilíbrio das contas públicas, pois nosso problema voltou a ser pré-Real, ou seja, antes de ser monetário e cambial, nosso problema é a ruptura fiscal. O Brasil está em um processo de endividamento interno, sendo que o comprometimento dívida/PIB tem crescido assustadoramente e o país não tem cumprido as metas de superávit primário para manter a dívida sob controle. E este descontrole contamina toda a economia. Então, é preciso ter um corte de custos, reduzindo cartões corporativos, parte dos 39 ministérios, cargos em comissão e acabar com certas vantagens absurdas dos poderes Legislativo, Executivo e, também, Judiciário. Ou seja, o Brasil precisa entrar em um processo de austeridade e assim dar o exemplo. Se o país conseguir fazer as reformas necessárias e enxugar a máquina administrativa, que representa um custo perverso à economia brasileira, é possível contornar a situação. Em tempos de economia incipiente, em que a sociedade era muito simples e até certo ponto com pouca informação, era justificado o paternalismo do Estado, mas agora tem que privatizar. A Petrobras só vai sair desse imbróglio em que ela entrou vendendo ativos, pois ela é dona de posto de gasolina, da planta de amônia que está sendo construída em Uberaba, de estaleiros e plataformas, mas ela tem que prospectar petróleo e fazer o refino, mais nada. O Estado não pode mais ser tão intervencionista, pois está sendo mau gestor e perdulário, ou seja, está gastando em excesso. Esses movimentos de “Fora Dilma!”, pedindo impeachment, etc., são desabafos da sociedade e é até muito bom que essa insatisfação seja materializada na forma de manifestações pacíficas. Vamos ter pela frente dias muito preocupantes, a menos que a Dilma receba uma luz e assuma o papel de uma estadista, assim como foi Margaret Thatcher e como é hoje Angela Merkel, chanceler da Alemanha, ou seja, uma presidente que tome as medidas realmente necessárias.

JM – Quais as perspectivas de crescimento do país?

José Eustáquio – Mantidos o status quo de espera por ajustes, o juro nos atuais patamares e a perda de internacionalização da economia brasileira, as perspectivas de crescimento do Brasil são baixíssimas, porque para crescer é preciso ter um ambiente de regras claras, de busca por competitividade e com aumento de produtividade. Antes de falarmos em crescer, é preciso investir em qualificação profissional, em infraestrutura, em logística, em modernização, etc., para aumentar a qualidade do produto final. Dessa maneira é possível ter um crescimento saudável e não voos de galinha. A única exceção no Brasil é o agronegócio, que é competitivo e encara qualquer país no mundo, até mesmo os Estados Unidos. Apesar dos custos serem muito altos, exportamos genética e commodities. Há 15 anos a produção era somente para consumo interno, hoje somos o maior exportador de carne de boa qualidade do mundo, porque o setor ficou livre das influências do governo. 

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por