Presidente tem agenda hoje (29/8) em Minas; em entrevista a O TEMPO, ele falou também sobre PAC, CPMI, tarifaço, Bolsonaro e Rodrigo Pacheco
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega nesta sexta-feira (29/8) a Minas Gerais, em sua sexta visita ao estado neste ano. Desta vez, estará em Contagem, na Região Metropolitana, e em Montes Claros, no Norte de Minas. Lula falou com exclusividade a O TEMPO sobre as agendas, que incluem o anúncio de R$ 1 bilhão para a expansão do metrô da Grande BH.
Ao comentar as eleições de 2026, o presidente reiterou a vontade de derrotar a direita nas urnas novamente. Sobre uma possível indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para o Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que “não há como falar sobre uma vaga que nem existe” e reforçou que gostaria muito de ver o senador governando o estado de Minas Gerais. O presidente também falou sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de estado, sobre a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e sobre o tarifaço de Donald Trump. A entrevista foi concedida por e-mail.
Leia na íntegra a seguir
Presidente, essa é a sua sexta visita a Minas Gerais neste ano, a 11ª neste mandato. Em Contagem, além de acompanhar obras, o senhor vem para lançar a Seleção do Novo PAC – Mobilidade.
O que os mineiros da cidade e região podem esperar de melhoria na mobilidade? E em Montes Claros, a inauguração do centro de tecnologia, que integra ações preparatórias da COP30, traz que relevância para o estado?
Temos uma grande novidade para quem mora na Grande Belo Horizonte: o PAC vai levar a Linha 1 do metrô da capital até a cidade de Contagem. Estou falando de investimentos da ordem de R$ 1 bilhão para ligar a estação Novo Eldorado, em construção, até a estação Beatriz, que será construída. Esta obra vai gerar empregos e mudar a vida das pessoas, que perderão menos tempo no trânsito e poderão encontrar opções de trabalho em locais mais distantes.
E em relação a Montes Claros, no Norte de Minas?
Já em Montes Claros, vou visitar o centro de tecnologia da Acelen para a produção de biocombustíveis a partir da macaúba. Esse centro faz parte de um projeto mais amplo do PAC, que poderá gerar até 85 mil empregos na cadeia de biocombustíveis de macaúba em vários estados do Brasil. Ou seja, a tecnologia de combustíveis renováveis que o mundo tanto precisa sairá de terras mineiras e ajudará a desenvolver o conhecimento, a pesquisa e a inovação no estado, que já é um exemplo para o país em vários setores.
O senhor tem uma viagem programada para Belo Horizonte?
Na semana que vem, pretendo voltar a Minas e lançar, em Belo Horizonte, o programa Gás do Povo, que vai fornecer botijões de gás de cozinha grátis para 15,5 milhões de famílias – três vezes mais do que aquelas que hoje recebem o Auxílio Gás. Na ocasião, entre outros atos, também vou assinar um contrato com a prefeitura da cidade para financiar a renovação da frota municipal de ônibus. Com R$ 317 milhões do Fundo Clima, do BNDES, a capital poderá comprar cem veículos elétricos e seus equipamentos de recarga.
A verdade é que Minas Gerais é muito importante para o governo federal. Só do Novo PAC, são investimentos diretos de R$ 70 bilhões em empreendimentos como a concessão e a duplicação da BR-381 entre Governador Valadares e a capital mineira. No Minha Casa, Minha Vida, são 144 mil moradias com obras contratadas ou retomadas desde 2023. O Mais Médicos mais do que dobrou o número de profissionais no estado, passando de cerca de mil para 2.200.
O senhor tem dito que, se estiver com 100% de saúde, será novamente candidato à Presidência. O eleitor brasileiro pode contar com isso para 2026? Lula vai ser candidato? Se não estiver definido, qual prazo o senhor considera limite para cravar essa decisão? E em quais nomes enxerga potencial na esquerda, caso o senhor decida não se candidatar?
Eu me sinto em uma fase ótima de minha vida pessoal e política, com saúde, disposição e o propósito de seguir ao lado do povo brasileiro. E já disse que, se eu continuar assim no ano que vem, decidirei concorrer, sim, às eleições. Não podemos deixar que a extrema direita volte a este país e destrua tudo o que reconstruímos no nosso governo.
Precisamos derrotá-la mais uma vez nas urnas, no jogo democrático. Até as eleições, contudo, vou concentrar meus esforços naquilo que fazemos muito bem: construir oportunidades de uma vida melhor para as pessoas. O desemprego no Brasil nunca foi tão baixo: 5,8% em junho. Os salários crescem acima da inflação e a massa salarial bateu recorde no mesmo mês, chegando a R$ 351,2 bilhões. A extrema pobreza está em seu menor nível histórico: 3,5%. E a desigualdade da renda familiar per capita é a menor desde que começou a ser medida pela Pnad, em 2012.
Essas conquistas precisam ser defendidas. E não podem ser destruídas por aqueles que só fizeram propagar ódio, mentira e causar retrocessos como nos levar de volta ao Mapa da Fome.
Se o ministro Luís Roberto Barroso decidir se aposentar este ano do STF, após deixar a presidência da Suprema Corte, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) é a sua indicação para esse cargo? Ou o senhor vai priorizar a campanha dele para o governo de Minas em detrimento de uma vaga no Supremo Tribunal Federal?
Não há como falar sobre uma vaga no Supremo que nem existe, pois até o ano de 2028 nenhum ministro da Corte terá de deixar a sua vaga pela aposentadoria compulsória.
Mas posso falar sobre Rodrigo Pacheco, que teve um papel fundamental na defesa da democracia brasileira quando ela foi alvo dos ataques golpistas no 8 de Janeiro. Sua firmeza e sua serenidade ajudaram nossas instituições a saírem ainda mais fortes daquele episódio.
Além disso, ele foi um aliado importante na construção e aprovação de leis que recolocaram o Brasil no rumo do crescimento com inclusão. Tenho certeza de que Pacheco pode contribuir ainda mais para a política brasileira e, mais de uma vez, já disse publicamente que queria muito vê-lo governando o estado de Minas Gerais, o que seria uma grande conquista para toda a população mineira.
Sobre o tarifaço de Donald Trump, o governador Romeu Zema (Novo) tem repetido que essas taxações do governo dos Estados Unidos são culpa do governo Lula. Como o senhor vê essa acusação vinda do governador de Minas Gerais e de outros opositores? E o senhor considera que o tarifaço pode impactar de alguma forma as eleições para a Presidência em 2026 ou que essas reações de Trump podem trazer outros riscos ao Brasil?
Quando o presidente Trump publicou sua carta na internet, em 9 de julho, anunciando o tarifaço, ele deixou claro o seu objetivo já no primeiro parágrafo: salvar da condenação um ex-presidente que está sendo julgado por tentar acabar com nossa democracia.
Não se trata, portanto, de uma questão com origem diplomática ou comercial, mas de uma sabotagem realizada por traidores da pátria brasileira que estão lá nos Estados Unidos conspirando contra nossas instituições, nossa democracia e, principalmente, nosso povo. Quem nega isso é cúmplice dessa conspiração.
Conspiração que fracassará, pois temos leis, temos instituições e um povo soberano que não baixa sua cabeça nem aceita interferências naquilo que forma os pilares de nossa democracia: instituições fortes e eleições livres, seguras e transparentes. Também é importante lembrar que nosso governo sempre esteve e sempre estará aberto às negociações comerciais, de forma altiva e soberana.
Por isso mesmo, escalei os ministros da Fazenda e das Relações Exteriores e o vice-presidente (Geraldo) Alckmin para negociar com as autoridades norte-americanas, mas elas não se mostraram, até agora, dispostas a este diálogo.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) começa a ser julgado na próxima terça-feira (2/9) por crimes como tentativa de golpe de Estado. O senhor, que foi adversário dele nas eleições de 2022, tem que tipo de sentimento neste momento? E qual é a sua expectativa para esse julgamento?
O ex-presidente está sendo julgado por aquilo que está presente nos autos do processo: provas, depoimentos e resultados de investigações conduzidas com seriedade. Como manda a lei, tem amplo direito a defesa. E compete ao Judiciário continuar a fazer o seu trabalho, promovendo esse julgamento da melhor forma possível.
Ninguém, dentro ou fora do Brasil, tem o direito de interferir nesse processo, tentar intimidar juízes ou ferir aquilo que é sagrado em nossa Constituição: a independência dos Poderes.
Em relação ao INSS, houve um rombo de mais de R$ 6 bilhões, com descontos indevidos em aposentadorias e pensões, ocorridos pelo menos desde 2019.
O senhor considera que houve omissão do governo federal em relação a esses crimes? E sobre a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) instalada no Congresso, o senhor teme desgaste da imagem do governo? O que espera que seja feito?
Nosso governo detectou, investigou e pôs fim aos descontos irregulares que, desde a gestão anterior, estavam prejudicando os aposentados e pensionistas. Fizemos isso sem pirotecnia, mas sim com um trabalho sério da CGU e da Polícia Federal, que entraram no caso para resolver o problema, e não para ganhar manchetes.
Dialogamos muito com o Ministério Público e com a Justiça e conseguimos viabilizar um acordo que já ressarciu quase 2 milhões de aposentados que estavam sendo prejudicados desde 2020 e que agora têm seu dinheiro de volta, corrigido pela inflação, num total de R$ 1,27 bilhão.
Quanto à CPMI, espero que trabalhe de forma correta para cumprir seu papel e não vire um instrumento político-partidário. Que possa complementar as investigações sérias que já estão sendo feitas pelo governo federal e contribua para a criação de mecanismos que protejam, agora e no futuro, os direitos dos aposentados e pensionistas.
Equipe
A entrevista exclusiva com o presidente Lula foi concedida a O TEMPO por e-mail. A elaboração das perguntas teve a participação da equipe da editoria de Política em Minas Gerais e de O TEMPO Brasília.
Fonte: O Tempo