Mesmo após Uberaba passar uma legislatura sem representantes próprios, prefeita repete estratégia de apoiar mais de um nome para o mesmo cargo; em dezembro, Marcos Montes já havia classificado movimento como “equívoco tremendo”

(Foto/Reprodução Redes Sociais)
Quatro anos depois de uma eleição em que dividiu seu apoio entre candidatos a deputado federal e Uberaba terminou sem representação própria em Brasília e Belo Horizonte, a prefeita Elisa Araújo (PSD) entra na campanha de 2026 repetindo parte do roteiro. Desta vez, a chefe do Executivo colocou sua imagem a serviço de dois candidatos que disputam diretamente uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais: Ismar Marão (PSD) e Cabo Diego Fabiano (PL).
A confirmação do segundo apoio veio nesta segunda-feira (17), quando Elisa apareceu em vídeo de campanha de Cabo Diego e pediu votos para o ex-líder de seu governo na Câmara Municipal. A manifestação ocorreu apenas um dia depois de a prefeita aparecer ao lado de Ismar e do vice-prefeito Mauricinho de Sá, candidatos oficiais do PSD a deputado estadual e federal, respectivamente.
Nesta terça-feira (18), Elisa ainda assume papel de anfitriã no primeiro ato de campanha do governador Mateus Simões (PSD) em Minas Gerais, realizado justamente em Uberaba. O candidato à reeleição conta com o apoio da prefeita e escolheu a cidade para abrir a agenda eleitoral após o início oficial da campanha.
A sequência de aparições coloca fim a uma dúvida que atravessou toda a pré-campanha: afinal, Elisa cumpriria ou não a promessa de apoio reivindicada por Cabo Diego, mesmo tendo o presidente de seu próprio partido como candidato à mesma vaga?
A resposta veio logo no segundo dia de campanha.
Diego sustentava publicamente desde abril que tinha a palavra da prefeita. Em entrevista ao Pingo do J, afirmou ter “muita segurança” de que Elisa honraria o compromisso assumido com ele e argumentou que a chefe do Executivo poderia separar o apoio partidário ao PSD do apoio pessoal à sua candidatura.
O assunto, porém, já causava desconforto dentro do grupo político da prefeita muito antes do começo oficial da disputa.
Ainda em dezembro de 2025, Ismar admitiu ter procurado Elisa para falar sobre a proximidade dela com Cabo Diego e Ellen Miziara. À época, o presidente do PSD municipal teria alertado a prefeita sobre o risco da divisão de apoios e votos.
Poucos dias depois, o ex-ministro Marcos Montes foi ainda mais enfático. Uma das principais lideranças do grupo político de Elisa, ele classificou como “um equívoco tremendo” eventual apoio da prefeita a Cabo Diego e afirmou que ela não poderia tentar agradar a todos.
O alerta não surtiu efeito.
O apoio a Diego também ocorre apesar de Elisa já ter mobilizado abertamente a estrutura política de seu grupo em torno de Ismar e Mauricinho. Em junho, a própria prefeita convocou apoiadores para o lançamento das duas pré-candidaturas e publicou nas redes sociais que a dupla seria o caminho para colocar “Uberaba de volta no centro das decisões políticas”.
A frase toca justamente no ponto mais sensível da eleição deste ano. Uberaba atravessou os últimos quatro anos sem deputado estadual ou federal eleito com base política no município. Para 2026, a tentativa de recuperar a representatividade virou discurso recorrente entre lideranças locais e deu origem até a movimentos de incentivo ao voto em candidatos da cidade.
A pulverização, entretanto, continua grande. São 14 candidatos com base eleitoral em Uberaba somente na disputa pela Assembleia Legislativa, justamente o cargo para o qual Elisa agora apoia dois concorrentes.
O filme de 2022
O cenário tem precedente recente. Nas eleições de 2022, Elisa ainda estava no Solidariedade e entrou na campanha apoiando a reeleição do deputado federal Zé Silva, então presidente estadual da legenda e um dos principais padrinhos de sua chegada à Prefeitura de Uberaba.
O apoio a um candidato de fora da cidade rendeu críticas durante toda a campanha. À época, a prefeita manteve a aliança com Zé Silva enquanto Ismar Marão, já aliado próximo do governo, também disputava uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PSD.
A pressão para prestigiar candidaturas de Uberaba aumentou ao longo da campanha, e Ismar acabou entrando também no radar político da prefeita. O resultado das urnas, entretanto, não produziu a representação esperada.
Ismar conquistou 13.630 votos em Uberaba e terminou a eleição com 16.394 votos em Minas Gerais, insuficientes para garantir uma cadeira. Zé Silva conseguiu se reeleger com 86.042 votos no Estado, mas apenas 2.408 deles vieram de Uberaba.
Para Zé Silva, o saldo local ainda deixou gosto amargo. No dia seguinte à eleição, o deputado tornou pública a insatisfação com os 2.408 votos recebidos em Uberaba. Na ocasião, afirmou que esperava desempenho melhor, disse que pretendia “rediscutir a relação” com o município e questionou se a cidade teria interesse em manter reciprocidade na parceria política.
Passados quatro anos, Zé Silva saiu do tabuleiro político da prefeita, Elisa trocou o Solidariedade pelo PSD e Ismar deixou de disputar a Câmara Federal para tentar agora uma cadeira na Assembleia. O dilema, no entanto, voltou com novos personagens.
Ismar é hoje presidente do partido da prefeita em Uberaba e o candidato oficialmente lançado pelo grupo para deputado estadual. Cabo Diego, por sua vez, foi líder do governo Elisa na Câmara e sustenta que existe uma dívida política decorrente de compromissos assumidos nos últimos anos.
A candidatura de Mauricinho também só entrou na composição do PSD na reta final das articulações. O nome trabalhado anteriormente para fazer dobradinha federal com Ismar era o da vereadora Rochelle Bazaga. Como a mudança dela para o PSD não se concretizou, o vice-prefeito foi desincompatibilizado da Secretaria de Governo e colocado na disputa.
Até então, Mauricinho não vinha sendo trabalhado como pré-candidato. Com a chapa finalmente montada, Elisa chegou a junho apresentando Ismar e Mauricinho como os nomes de seu grupo para devolver representação a Uberaba.
Dois meses depois, a campanha começou e o palanque já ganhou mais um candidato. Quatro anos após Uberaba sair das urnas sem um deputado sequer, Elisa novamente escolheu não concentrar todo o seu capital político em apenas um nome para a disputa proporcional.
Desta vez, pelo menos, ninguém poderá dizer que ela não foi avisada sobre o risco.