Ex-banqueiro foi recebido no gabinete do ministro para tratar de precatórios ligados ao setor sucroalcooleiro; gabinete afirma que Gilmar votou contra os interesses do banco no caso
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi recebido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em abril de 2024, para tratar de uma disputa envolvendo precatórios de empresas do setor sucroalcooleiro. Segundo estimativa da Advocacia-Geral da União (AGU), os processos relacionados ao tema podem representar impacto de até R$ 145 bilhões aos cofres públicos caso as empresas sejam vencedoras.
A reunião ocorreu em 11 de abril de 2024, no gabinete de Gilmar Mendes, no anexo II do STF. As informações foram reveladas inicialmente pela Folha de S.Paulo e confirmadas pelo jornal O TEMPO.
Na época, o Banco Master, ligado a Vorcaro, mantinha bilhões de reais em créditos de usinas que buscavam indenizações da União.
Um dos processos discutidos envolvia a Destilaria Alcídia S/A. Vorcaro defendia que a indenização já havia sido reconhecida de forma definitiva e não poderia ser rediscutida.
O processo foi julgado pela Segunda Turma do STF em junho de 2025. Gilmar Mendes votou contra o pagamento do precatório, acompanhando o ministro André Mendonça.
Os dois ficaram vencidos. A posição favorável à empresa foi formada pelos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.
De acordo com a reportagem, Vorcaro mantinha, na época da audiência, um contrato de R$ 500 mil mensais com o empresário Chiquinho Feitosa, que era então cunhado de Gilmar Mendes.
Mensagens indicariam que Feitosa ajudou a viabilizar o encontro e orientou Vorcaro a construir uma relação direta com o ministro.
O gabinete de Gilmar afirmou que o ministro não tinha conhecimento das tratativas entre Vorcaro e seu ex-cunhado e que a audiência ocorreu em ambiente institucional, com a presença de advogados do Banco Master.
Em resposta à reportagem, o gabinete do ministro afirmou que Gilmar Mendes também votou contra o pagamento de precatórios em outros processos envolvendo empresas do setor sucroalcooleiro.
Segundo a manifestação, entre os casos estão processos envolvendo a Raízen e a Jalles Machado. Em um deles, a União saiu vitoriosa após o voto do ministro contrário ao pagamento do precatório.
O gabinete também afirmou que, em nenhum dos processos citados, Gilmar teria votado favoravelmente aos interesses atribuídos ao Banco Master, inclusive após a audiência com Vorcaro.
A reunião e os processos citados fazem parte de uma disputa judicial que envolve valores bilionários e possíveis impactos para os cofres públicos.